Quem matou Tupac? O regresso de um famoso julgamento em que o suspeito também é a "testemunha principal"

CNN , Eric Levenson
10 ago, 10:08
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Um livro, um podcast e várias entrevistas para documentários são as provas mais fortes que a acusação tem, até porque "Keffe D" inverteu a sua versão

Duane Davis, conhecido pelo apelido de "Keffe D", escreveu um livro revelador em 2019, detalhando o seu papel no assassínio do lendário rapper Tupac Shakur.

O livro, "Compton Street Legend", começa em Las Vegas, na noite de 7 de setembro de 1996, com um relato minucioso do seu plano para confrontar Tupac e o CEO da Death Row Records, Marion "Suge" Knight, em retaliação por uma quezília anterior. Davis escreveu que pegou numa arma, entrou num Cadillac com mais três pessoas e conduziu pela cidade à procura da dupla. Avistaram Tupac num carro e pararam ao lado, escreveu.

"Não foi trocada qualquer palavra, o tempo para conversar tinha passado, a coisa ia ficar feia!", escreveu.

Esta versão dos factos representa agora a principal prova contra Davis, que se prepara para ser julgado por um dos mais notórios homicídios não resolvidos dos Estados Unidos. Os procuradores afirmam que Davis era o líder do grupo que matou Tupac e feriu Knight em 1996 e é a única pessoa entre eles ainda viva.

A acusação baseia-se em grande parte nas próprias palavras do arguido, incluindo o seu livro, podcast, entrevistas em documentários e depoimentos à polícia. O júri não terá acesso à arma do crime, ao veículo de fuga ou às imagens de vigilância do tiroteio, mas terá os seus depoimentos.

"Neste caso, quase todas as provas que o Estado tentará apresentar visam estabelecer a credibilidade dos vários relatos do arguido sobre o seu papel no assassínio de Tupac Shakur", escreveram os procuradores num documento recente.

Davis, de 63 anos, declarou-se inocente da acusação de homicídio com recurso a arma letal. Desde a sua detenção, afirma que as suas declarações anteriores eram falsas e apenas uma tentativa de vender livros, e culpa o seu coautor por inserir informações falsas.

Tudo isto cria uma dinâmica invulgar, disseram os especialistas jurídicos: a acusação argumentará que o acusado de homicídio é credível e fiável, enquanto os advogados de defesa o acusarão de mentir e defraudar.

"É uma inversão e tanto", diz Laura Coates, analista jurídica principal e pivô da CNN. "Raramente se vê algo assim".

"Ele é o arguido, mas também a testemunha principal, francamente", acrescenta Joey Jackson, analista jurídico da CNN.

O julgamento começa com a seleção do júri esta segunda-feira e deverá durar cerca de um mês. Davis pode ser condenado a prisão perpétua se for condenado.

Por sua vez, Davis fala frequentemente daquela noite fatídica, incluindo no dia em que foi preso pelo homicídio de Tupac, em setembro de 2023.

"Porque é que te prenderam?", perguntou o polícia que o deteve.

"O maior caso da história de Las Vegas", respondeu.

O que o arguido disse à polícia

Davis já relatou o seu envolvimento no assassínio de Tupac várias vezes, e a sua história manteve-se bastante consistente ao longo dos anos.

Em 2008, falou com agentes da força federal num "acordo de delação premiada", ou seja, um acordo em que um suspeito fornece informações potencialmente úteis à polícia sob a condição de que a polícia não as possa usar contra ele, com algumas exceções.

Nesse depoimento, Davis disse que Tupac e Knight agrediram o seu sobrinho, Orlando Anderson, na noite de 7 de setembro de 1996. Davis arranjou então uma arma e, juntamente com Anderson e outros dois, saiu à procura de Tupac e Knight numa tentativa de vingança, de acordo com um documento incluído num processo judicial recente.

Disse às autoridades que avistaram Tupac num veículo na Las Vegas Strip, deram a volta e pararam junto ao carro do rapper, segundo o documento. Davis, sentado no banco da frente, disse que Anderson, no banco de trás, disparou os tiros fatais, de acordo com as notas do depoimento.

Davis contou ainda à polícia de Las Vegas o seu envolvimento na morte de Tupac.

O acordo de delação premiada impedia a polícia de apresentar acusações contra Davis como resultado direto das informações obtidas através do mesmo. Ainda assim, alguns pormenores foram revelados no livro "Murder Rap", de Greg Kading, publicado em 2011, e excertos da obra foram posteriormente exibidos em documentários.

O que Davis disse publicamente

Então, Davis começou a falar publicamente sobre o caso.

Em 2018, Davis deu uma entrevista sobre o homicídio ao programa "Death Row Chronicles", da BET. Descreveu as suas ações naquela noite e disse que os tiros fatais vieram de alguém sentado no banco de trás do veículo.

"Vou manter isto em segredo, pelo código das ruas", afirmou. "Simplesmente veio do banco de trás, mano."

Publicou o seu livro em fevereiro de 2019 e escreveu detalhadamente sobre o seu desejo de vingança, a obtenção de uma pistola Glock, a busca por Tupac e os momentos que mudariam o hip-hop para sempre.

Em setembro de 2023, os procuradores anunciaram as acusações contra Duane Davis ao lado de uma imagem de Tupac Shakur (à esquerda) e Marion "Suge" Knight num carro em Las Vegas, na noite em que Tupac foi assassinado (Ethan Miller/Getty Images)
Em setembro de 2023, os procuradores anunciaram as acusações contra Duane Davis ao lado de uma imagem de Tupac Shakur (à esquerda) e Marion "Suge" Knight num carro em Las Vegas, na noite em que Tupac foi assassinado (Ethan Miller/Getty Images)

“O Tupac fez um movimento brusco e começou a baixar-se debaixo do banco”, escreveu Davis. “O Pac sacou de uma arma, e foi aí que o tiroteio começou. Um dos meus rapazes, que estava no banco de trás, pegou na Glock e começou a disparar de volta.”

Após o tiroteio, disse que fugiram do local e abandonaram o carro alugado. Afirmou que ele e Knight são as únicas duas pessoas que estavam lá naquela noite e ainda estão vivas.

“A moral da história é: os gangsters a sério não são para brincadeiras!”, escreveu.

Davis disse que o processo de escrita do livro foi “terapêutico”. Chamou ao acordo de delação premiada “o negócio da minha vida” e disse que só estava a falar abertamente por causa da alegada proteção que lhe tinha sido oferecida.

“Nunca teria dito uma palavra se não me tivessem oferecido um acordo tão bom”, escreveu. “Não tive de cumprir um dia de prisão… e não denunciei mais ninguém além de mim próprio, porque todos os outros já estavam mortos. Pensem nisso!”

Após escrever o livro, Davis deu entrevistas aos meios de comunicação social, incluindo a VladTV, onde incentivou as pessoas a comprar a obra.

Memórias nebulosas, falta de testemunhas

Quatro anos após a publicação do livro, Davis foi acusado de homicídio, acusação que se assemelha bastante à sua versão dos factos. A acusação apresenta várias possibilidades, alegando que Davis teria matado Tupac, e/ou auxiliado e instigado o crime ao obter uma arma de fogo e entregá-la a outra pessoa, e/ou conspirado para cometer o homicídio.

Para comprovar o seu ponto de vista, a acusação planeia usar as declarações contra o arguido, enquanto a defesa tenta excluí-las do julgamento ou argumentar que são falsas.

Numa audiência preliminar, a juíza responsável pelo caso decidiu permitir que o júri ouvisse o livro e as entrevistas dadas aos meios de comunicação social, alegando que o acordo de colaboração premiada não abrangia declarações públicas. A magistrada também permitiu que a acusação usasse as declarações da polícia, embora tenha expressado algumas preocupações quanto à legalidade.

Coates classifica as declarações de Davis como "provas de ouro" para a acusação, especialmente num caso com poucas outras provas.

"Isto é um tiro no pé e ajuda imenso a acusação, caso contrário não teriam forma de obter as informações", diz a especialista.

Num documento recente, os procuradores procuraram estabelecer a credibilidade de Davis, afirmando que muitas partes do livro são precisas e consistentes com outras provas. Por exemplo, Davis escreveu no livro que estava a usar um "fato do filme 'Ray Luca Crime Story'" durante o tiroteio, e os procuradores encontraram posteriormente uma foto Polaroid de Davis com esse fato, de acordo com o documento.

"Embora o livro seja sensacionalista, propenso a hipérboles, contenha imprecisões e, pelo menos, uma mentira substancial, descreve, de um modo geral, a vida comprovada do arguido, Duane 'Keffe D' Davis", refere o documento.

Em contrapartida, a defesa apontará para as partes do livro que são comprovadamente falsas, numa tentativa de o desacreditar, explica David Roger, antigo procurador do Condado de Clark, no Nevada.

Esta foto sem data, fornecida pelo Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas, mostra o carro crivado de balas no qual o rapper Tupac Shakur foi fatalmente baleado em setembro de 1996 (Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas/AP)
Esta foto sem data, fornecida pelo Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas, mostra o carro crivado de balas no qual o rapper Tupac Shakur foi fatalmente baleado em setembro de 1996 (Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas/AP)

“Tudo vai girar em torno das declarações verdadeiras e falsas no livro”, frisa.

Os procuradores terão de superar alguns obstáculos importantes no seu caso. Passaram quase 30 anos desde a morte de Tupac, pelo que algumas testemunhas faleceram e outras podem não se lembrar de detalhes precisos.

“A falha na memória será a inimiga desta acusação”, explica Coates.

Várias testemunhas potenciais também podem ter problemas de credibilidade. Suge Knight, que foi baleado e ferido no ataque, teve os seus próprios problemas com a justiça e está a cumprir uma pena de 28 anos de prisão por um atropelamento com fuga que resultou em morte. Consta na lista de testemunhas de acusação, mas disse anteriormente ao TMZ que não iria testemunhar no julgamento.

“O tema central deste julgamento é: ‘Em quem se pode acreditar?’”, questiona Coates. “Esta resposta não é fácil nem óbvia.”

Não é claro se Davis irá testemunhar. No entanto, deu uma antevisão da sua defesa durante a sua detenção em 2023.

“Não estou preocupado com isso”, disse, de acordo com o vídeo da câmara corporal da polícia. “Eu não fiz nada.”

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