Os túneis e pontes gigantescos que ligam a Ásia à Europa

CNN , Lisa Morrow
8 jan 2023, 17:00

Com margens inclinadas salpicadas por elegantes mansões privadas, parques palacianos e bosques com centenas de anos, o Bósforo é a personificação de Istambul.

Este estreito de 30 quilómetros corre desde o Mar Negro a norte até ao Mar de Mármara ao sul.

A expansão urbana apanha a Europa a oeste e a Ásia a leste, factos geográficos que potenciam a vertente romântica, mas também algo fantasiosa da descrição de Istambul como uma cidade que abrange dois continentes.

Tecnicamente, é verdade, mas o Bósforo não é a única via navegável da cidade. Pouco antes de se juntar ao Mar de Mármara, o Corno de Ouro – conhecido localmente como Haliç – estende-se para noroeste. Acaba por se esvair em terra, ao contrário do Mar de Mármara, que leva ao Mar Egeu através do Estreito de Dardanelles.

Dia e noite, petroleiros e navios de contentores são visíveis no horizonte perto das Ilhas dos Príncipes, à espera pacientemente da sua vez para passarem pela rota marítima.

De forma semelhante, os habitantes de Istambul também esperam em carros, autocarros, comboios e ferries. De acordo com os valores de 2021, vivem em Istambul praticamente 16 milhões de pessoas. Muitas vivem de um lado da cidade e trabalham do outro, o que significa que há constantemente uma grande faixa da população a deslocar-se.

Navegar pelo emaranhado das ruas da cidade pode ser caótico em qualquer altura do dia e às vezes é deslumbrante que as pessoas consigam chegar a qualquer lado, mas conseguem – usando estradas, comboios, barcos, pontes e túneis para atravessar de um continente para o outro.

Eis como o fazem.

Ponte dos Mártires do 15 de Julho (15 Temmuz Şehitler Köprüsü)

A Ponte dos Mártires do 15 de Julho foi a primeira a atravessar o Bósforo

Conhecida originalmente como Boğaziçi Köprüsü – ou Ponte do Bósforo – esta estrutura elegante foi rebatizada como Ponte dos Mártires do 15 de Julho após um golpe de estado fracassado em 2016, mas os habitantes ainda se referem carinhosamente a ela como Boğaziçi Köprüsü, ou Primeira Ponte.

Antes de ser inaugurada a 29 de outubro de 1973, no 50.º aniversário da República da Turquia, a única maneira de passar da Europa para a Ásia em Istambul era por ferry.

A nova e elegante ponte suspensa em aço com 1560 metros permitiu aos condutores passarem bastante acima das águas rápidas do Bósforo e desfrutarem de vistas arrebatadoras sobre o Palácio Topkapi e o Mar de Mármara ao longe.

Nos primeiros dias, a ponte atraiu caminhantes que procuravam um ponto alto para admirarem o imponente esplendor branco da Mesquita Büyük Mecediye do século XIX, em Ortaköy, junto à água.

Atualmente, a ponte só abre aos peões um dia por ano, quando milhares se inscrevem para correr a Maratona de Istambul. O resto do tempo, os condutores pagam menos de 50 cêntimos para atravessar.

Ponte Fatih Sultan Mehmet

A Ponte Fatih Sultan Mehmet oferece vistas espetaculares sobre o Bósforo

A segunda ponte que liga os dois continentes abriu a 3 de julho de 1988, recebendo o nome de Fatih Sultan Mehmet, ou seja, Maomé o Conquistador. Foi o homem que chegou à cidade em 1453 e estabeleceu o domínio otomano em Constantinopla, a capital da altura do Império Bizantino.

Chamada por vezes FSM Köprüsü, é outra ponte suspensa em aço ancorada por gravidade de comprimento semelhante ao da Primeira Ponte, com um custo de portagem semelhante para a sua utilização.

Liga os pontos mais próximos do Estreito do Bósforo, onde se diz que o Rei Dario I da Pérsia construiu uma ponte flutuante em 512 a.C..

O tabuleiro rodoviário desta encarnação moderna está suspenso 60 metros acima da água e liga Hısarüstü a oeste com Kavacık a leste.

Proporciona vistas espetaculares sobre o Bósforo, mas o acesso não é permitido a peões pelo que apenas os automobilistas podem desfrutar delas. É uma distração bem-vinda quando estão presos nos engarrafamentos à meia-noite nos fins de semana.

Ponte Yavuz Sultan Selim

A Ponte Yavuz Sultan Selim abriu em 2016

Em 2016, foi inaugurada uma terceira ponte suspensa sobre o Bósforo, perto do Mar Negro. Esta recebeu o nome de Yavuz Sultan Selim, neto de Maomé o Conquistador, uma escolha adequada tendo em conta o interesse que tinha pelos transportes. O sultão do século XVI reconstruiu a frota otomana e os Haliç Tershanesi, os estaleiros do Corno de Ouro.

Quando foi terminada, a ponte bateu inúmeros recordes. Com um tabuleiro único com 58,8 metros de largura, é a ponte suspensa mais larga do mundo, capaz de suportar oito faixas de trânsito e uma linha ferroviária com carril duplo. É também a quinta ponte mais alta do mundo, com mais de 322 metros de altura.

A ponte, concebida para ser usada por camiões e trânsito de longa distância com rumo à região central de Anatolia e mais além, dá aos condutores vários quilómetros de visibilidade no Mar Negro em dias limpos e cobra uma portagem básica à volta de 1 euro.

Ponte Çannakale 1915

A Ponte Çanakkale 1915 é a ponte suspensa com a maior envergadura no mundo

A mais recente rota a ligar os dois continentes é a impressionante Çannakale 1915 Köprüsü, que se estende entre Gelibolu do lado europeu do Dardanelles até Lapseki na Ásia.

Medindo quase 3,7 quilómetros, detém o recorde mundial para a ponte de suspensão com maior envergadura no mundo.

A estrutura eleva-se acima do estreito e substitui uma hora de travessia de ferry (que na verdade pode demorar até cinco horas com o tempo de espera) por uma viagem de seis minutos de carro dentro do limite de 80 km por hora.

Concebida pela rapidez e não pelas vistas, é menos popular para os residentes devido a uma portagem de quase 11 euros por carro.

A ponte foi inaugurada a 18 de março de 2022, em comemoração da data em 1915 em que a Turquia derrotou os Aliados numa batalha para tomar o controlo desta via marítima crucial.

Túnel Eurásia

O Túnel Eurásia é uma das maneiras mais rápidas de atravessar o Bósforo

A secção subaquática com 5,3 quilómetros do Túnel Eurásia (Avrasya Tüneli em turco) é uma grande atração para os fãs de engenharia, mas o maior apelo do túnel é o facto de ser a maneira mais rápida de ir de um lado de Istambul para o outro.

É mais funcional do que bonito, com um limite de velocidade de 70 quilómetros por hora. Fazendo parte de uma ligação rodoviária de 14 km entre Kazlıçeşme na Europa e Göztepe na Ásia, ao ser terminado em dezembro de 2016, reduziu o tempo de viagem de 100 minutos para apenas 15.

O túnel, que custa perto de 2,85 euros por carro, tornou-se também a ligação mais prática entre os dois aeroportos da cidade, Atatürk e Sabiha Gökçen, até os voos comerciais serem transferidos do Aeroporto Atatürk para o gigantesco Aeroporto de Istambul, mais de 43 km a noroeste da Praça Taksim em Istambul.

Com um custo perto dos 2,85 euros por carro, o Túnel Eurásia é a maneira mais cara de atravessar o Bósforo.

Tal como nas travessias pelas pontes, o pagamento de portagens é feito pelo sistema Hızlı Geçiş. Abreviado como HGS, este sistema usa autocolantes especiais colados no para-brisas que são lidos automaticamente quando as viaturas passam pelas portagens.

É importante ter crédito suficiente na conta para cobrir os custos, sobretudo se pretender atravessar uma fronteira. As multas por pagar impedem a passagem. Mas não se preocupe. Há uma aplicação muito útil que se pode descarregar para controlar o crédito e a utilização.


Marmaray

A construção do túnel do Marmaray começou em 2013

Este serviço ferroviário subterrâneo intercontinental era esperado há muito. Em 1860, o Sultão Abdülmecid I teve a ideia para uma travessia submarina do estreito, mas morreu antes de poder fazer alguma coisa a esse respeito.

Outro sultão, Abdul Hamid II, ficou interessado quando engenheiros franceses lho propuseram em 1892, mas não houve desenvolvimentos.

Mais de cem anos depois, ressurgiu o interesse e a construção do túnel de 13,6 quilómetros teve início em 2004.

Apesar das melhores intenções, o serviço ferroviário só foi inaugurado a 29 de outubro de 2013. Os prazos foram adiados uma vez que praticamente cada metro escavado revelava achados arqueológicos, alguns de há oito mil anos.

Passaram mais seis anos até que todas as estações da linha estivessem preparadas para serem utilizadas.

O túnel liga Kazlıçeşme, do lado europeu, a Ayrılık Çeşmesi, do lado asiático. No seu ponto mais baixo, desce quase 60 metros abaixo do nível do mar, o que o torna o túnel submerso mais fundo do planeta.

Para viajarem no Marmaray, os viajantes só precisam de um Carão Istambul (Istanbul Kart). Disponível nos principais centros de transporte e em pequenos quiosques por toda a cidade, permite ao portador entrar e sair à vontade de todos os meios de transporte público.

Ferries

Os ferries talvez sejam a forma mais especial de atravessar o Bósforo

Não são a maneira mais rápida de viajar entre os dois continentes, mas há poucas experiências de viagem melhores do que atravessar o Bósforo num ferry.

Com os pés no corrimão e o cabelo ao vento, veja passar o horizonte de Istambul repleto de minaretes enquanto beberica um chá turco a ferver e come um pouco de simit, um círculo de massa lêveda coberto com sementes de sésamo.

É o paraíso.

Os Şehir Hatlar Vapuları (Ferries Urbanos) foram criados em 1844 durante o Império Otomano. Além de cruzarem e percorrerem a extensão do Bósforo, os ferries navegam pelo Mar de Mármara, pelo Corno de Ouro e chegam às Ilhas dos Príncipes.

Também transportam carros e passageiros na curta viagem entre Sirkeci e Harem, e em viagens mais longas até Bursa, Yalova e Mudanya.

Os ferries são o suprassumo do ambiente e do estilo no que toca aos transportes públicos em Istambul, ao contrário dos autocarros.

É claro que os autocarros vão a todo o lado, há inclusive uma rota com 100 km e 78 paragens, mas costumam ser desconfortáveis por irem lotados e ficam frequentemente presos no trânsito.

Porém, têm uma coisa em comum com os ferries – nenhum deles continua pela noite dentro. Se procurar uma maneira rápida e económica de ir de um lado do Bósforo para o outro durante a madrugada, a solução são os miniautocarros noturnos partilhados.


Miniautocarros noturnos partilhados


Em Istambul, os miniautocarros partilhados são parentes próximos dos dolmuş, pequenas carrinhas provadas que percorrem rotas definidas como os autocarros normais, mas apanham e largam os passageiros conforme estes pedem.

Ambos funcionam com pagamentos em dinheiro. O nome dolmuş vem da palavra turca que significa “recheado”. A quantidade de passageiros que transportam depende do número de pessoas que se conseguem enfiar lá dentro (muitas, caso estejam curiosos), enquanto os miniautocarros amarelos levam o número de pessoas correspondente aos lugares sentados de que dispõem.

Depois de uma noitada no lado europeu da cidade, os foliões vão para a paragem dos miniautocarros na Praça Taksim. A maioria dos motoristas parece aspirar a ser piloto de Fórmula Um, por isso, assim que estão cheios, põem prego a fundo e levam os passageiros rapidamente a casa.
 

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