O mundo está doente e Portugal não se sente lá muito bem. As palavras perderam o sentido e quem manda perdeu a vergonha. Quem quer mandar, também. A novilíngua saltou da literatura distópica de Orwell e tornou-se moeda corrente no mundo real. O absurdo é banal e tudo significa o seu contrário
Um mundo de pernas para o ar
Trump diz que apoia as manifestações pró-democracia que têm abalado o Irão. Trump ameaça atacar o regime dos ayatollahs que mata pessoas a coberto do blackout da internet e das redes sociais. As ameaças de Trump são feitas ao mesmo tempo que milhares de cidadãos americanos se manifestam, apesar do frio e da neve, contra a progressiva erosão da democracia na América, e vociferam contra um regime que mata, prende e intimida os seus cidadãos com total impunidade por ordem do próprio Trump. O assassinato a sangue-frio de uma cidadã americana que não cumpriu as ordens da nova guarda pretoriana de Trump, poeta ainda por cima – logo, naturalmente, “terrorista doméstica” –, foi mais um ato constitutivo do regime de medo que a administração norte-americana quer impor no país.
O assassinato de Renee Nicole Good por um agente do ICE é o equivalente para consumo interno daquilo que foi o rapto de Nicolás Maduro para o mundo: tenham medo; ninguém está a salvo. Maduro era um ditador que liderava um regime brutal; Renee era uma artista descrita como “gentil, amorosa, compreensiva”. Maduro era um “bad hombre” desafiador; Renée era uma americana de gema “provavelmente apavorada” quando tentou fugir da polícia de imigração. Não importa as diferenças. Nenhum dobrou o joelho em relação a Trump. Essa é a questão.
O “presidente da Paz” recorre à força militar para impor a Pax Americana, que agora não se faz com alianças e dinheiro, mas com isolacionismo e guerra. Foi ele que o disse: não precisa do Direito Internacional para nada. Também não precisa, no seu próprio país, do Estado de Direito. A “única coisa” que o pode travar, jurou em entrevista ao New York Times, é “a própria consciência”. Dito por alguém que já deu provas de total amoralidade e absoluta ausência de consciência, isto significa que, para Trump, não há freios, não há contrapesos, não há arquitetura jurídica – nacional ou internacional – que o possa deter. Atacar, raptar, matar, invadir, silenciar, intimidar, Trump entende que pode tudo dentro e fora das suas fronteiras. Até tendo como alvo território de um país aliado. Foi nisto que se tornou o farol da democracia liberal. Já há umas décadas se tinha desmoronado o farol do comunismo. Os faróis não são o que eram.
O Comité Nobel teve de vir esclarecer o óbvio: ninguém recebe o Nobel da Paz por oferta de terceiros, seja motivada por pressões indevidas ou bajulação abjeta. Parece que a Trump não bastou receber o magnífico e mui respeitado Prémio FIFA da Paz. Quer o Nobel, dê por onde der. E quem quer que lho dê. Nem que seja a mais recente agraciada com o prémio, Maria Corina Machado.
Com este gesto de adulação ao aspirante a imperador do “hemisfério ocidental” na sua visita à Casa Branca, Corina Machado deu razão a quem suspeitava da escolha do comité norueguês. Não ponho em causa a coragem dos ativistas pró-democracia na Venezuela, governada por um ditador cruel e cleptocrático, como eles costumam ser. Nem duvido dos riscos que correu a oposição democrática venezuelana ao longo de anos. Tenho familiares que fugiram desse inferno com pouco mais do que a roupa que vestiam e que são testemunho da brutalidade do chavismo. Mas quem se propõe restaurar a democracia, a liberdade, a dignidade e a respeitabilidade na Venezuela não pode, para chegar ao poder, rastejar aos pés de um ditador wannabe como é Donald Trump. Foi isso que fez Corina Machado oferecendo o seu Nobel da Paz ao inquilino da Casa Branca.
No polo oposto ao renovado imperialismo americano, temos o reemergente imperialismo chinês. Como os EUA, também a China só aspira à “paz”. Mas, tal como George Orwell anteviu em «1984», que todos devemos ler ou reler, a sublimação do autoritarismo é a reinvenção da língua. A novilíngua, em que as palavras são primeiro esvaziadas de significado e depois preenchidas com o significado oposto. “Guerra é Paz” é uma das máximas do regime totalitário do Big Brother. “Guerra é Paz” é uma das leis do novo mundo em que vivemos.
A guerra é a paz de Putin. A guerra é a paz de Trump. A paz é a guerra de Xi Jinping e das suas muitas cabeças falantes, que desde o ataque à Venezuela têm incensado o “Direito Internacional” e a “Carta das Nações Unidas”. A deposição de Maduro implica muitos problemas para a China (e a possível mudança de regime no Irão ainda mais), mas dá a Pequim um suposto terreno elevado, de superioridade moral, de onde condenam a intervenção estrangeira, a violação da soberania alheia, a ambição neocolonialista. Está a resultar. Diz um estudo que os europeus olham agora Pequim como “um aliado” ou “um parceiro necessário”, mais do que como “um rival” ou “um adversário”.
Mas a China é o mesmo país que se prepara para tomar Taiwan pela força. Que intimida os vizinhos com poderio militar, por vezes chegando a vias de facto (que o diga a Marinha filipina). Que reclama como suas águas internacionais. Que organiza uma frota pesqueira fantasma que suga os recursos de outros países. Que cria ilhas artificiais para legitimar uma ilegítima expansão da sua zona económica. Que “investe” em dezenas de países africanos para os controlar pelo dinheiro. Que vigia cada passo dos seus cidadãos. “Liberdade é escravidão” é outra das máximas do Big Brother.
Um país do avesso
A Terra está de pernas para o ar e Portugal, admitamos, não fica em Marte. Por algum tempo houve a ilusão de que seríamos uma ilha imune aos ventos do mundo. Não somos. Também por aqui as palavras se esvaziam, a vergonha se perde, e “ignorância é força”, como dita o terceiro lema do “Partido” em «1984». Os últimos meses trouxeram uma vertigem de palavras, atos e omissões que nos lançam para o outro lado do espelho.
O Governo propõe uma legislação laboral na qual precariedade é progresso. Instabilidade é carreira. Despedimento fácil significa, afinal, subida de rendimentos. O primeiro-ministro, à boleia dessa proposta, fala num país com salário mínimo de 1.600 euros e salário médio de “2.000 ou 2.500 euros” – vamos a ver e, afinal, explicou o ministro das Finanças, isso não são promessas que valem o que valem, mas “aspirações”, que valem ainda menos.
Na Saúde, mais mortes é fatalidade. Mais horas de espera é melhor serviço. Menos recursos é progresso. Há uma direção executiva do SNS que ninguém (nem Marques Mendes) sabe para que serve nem o que faz, mas que desde segunda-feira tem uma sede como deve de ser, inaugurada com primeiro-ministro e ministra da Saúde – a mesma que ficou escondida durante mais uma tormenta do SNS e do INEM. Incompetência é competência, indecisão é projeto, crise é perceção, silêncio é sobrevivência.
A Proteção Civil não tuge nem muge de cada vez que falham os meios de urgência pré-hospitalar, deixando morrer gente que espera duas, três horas por uma ambulância do INEM. Mas fica em alerta máximo quando os bombeiros criam uma task force para contrariar a escassez de ambulâncias. Porque… “procedimentos”; porque “sem enquadramento legal”. Por sinal (e não por acaso), nas suas primeiras horas de existência a “task force” foi ativada 16 vezes pelo INEM. Mas não pode ser, porque será ilegal, dizem os burocratas da Proteção Civil, para quem iniciativa é insubordinação, e salvar é deixar morrer.
Num país com salário mínimo de 920 euros e uma brutal crise de habitação, o ministro das Finanças acha baixa uma renda de mil euros, e moderada uma renda até 2.500 euros. Muito é pouco, imenso é moderado.
Uma campanha absurda
E nem vale a pena perder muito tempo com a fruta da época, as eleições presidenciais. Uma caixa de tesourinhos de incoerência, cinismo e novilíngua. Eça e Ramalho escreveram sobre uma campanha alegre; esta é uma campanha absurda. Haveria muitos exemplos, mas bastam poucos por cada um dos principais candidatos.
António José Seguro, que não queria ser rotulado como “de esquerda”, sente-se “abençoado” por ter o apoio do PS – ziguezague é firmeza. Seguro, que fez campanha como se fora rainha de Inglaterra, jura que é capaz de dar “vários murros na mesa” – firmeza é moleza.
Cotrim Figueiredo, que se apresenta como o anti-Mendes, envia cartas de amor ao Governo (e, como bem sabemos, “todas as cartas de amor são ridículas”), propondo namoro e até contrato pré-nupcial – demarcar-se é colar-se. E, reclamando-se da “direita moderna”, orgulha-se do apoio de um fundador do Chega e não exclui votar Ventura na segunda volta – será extremamente moderno ou um moderno extremista?
André Ventura, que começou a campanha com cartazes de ódio, termina-a travestido de estadista – terrorismo verbal é sentido de Estado. Em vez de fazer o que fez sempre, atacar os outros e responder a ataques, jura que quer discutir “ps temas importantes” – lama é patine.
Gouveia e Melo mostrou nojo dos partidos até mostrar orgulho pelo apoio de cem personalidades da AD e aceitar o apoio de “vários partidos” numa eventual segunda volta – desdenhar é desejar. Com o mesmo nojo aos “políticos do sistema”, admite agora fundar um partido político e tornar-se político do sistema – incoerência é rumo.
Marques Mendes, o candidato “mais independente”, é levado ao colo pelo PSD e pelo Governo – independência é dependência.
Ao menos Manuel João Vieira faz do absurdo, da incoerência e dos jogos de palavras um espetáculo performativo. Para seu azar, está no tempo errado. O absurdo, a incoerência e a subversão da linguagem estão tão banalizados que já não são radicais.