A Reserva Federal decidiu cortar as taxas de juro pela primeira vez este ano. A verdade é que, aparentemente, os fundamentos técnicos não justificavam esta decisão de forma inequívoca. A pergunta impõe-se: terá sido uma decisão puramente técnica da Reserva Federal norte-americana ou uma cedência à pressão política de Donald Trump?
Não tenho grandes dúvidas de que a resposta está mais próxima da segunda hipótese. O presidente norte-americano tem sido claro e agressivo nas suas exigências. Trump queria a todo o custo que a Fed baixasse as taxas de juro, mesmo quando a inflação dava sinais de resistência. Chegou a ameaçar Jay Powell, presidente do banco central mais poderoso do mundo, com despedimento.
Até há poucas semanas, Powell mostrava-se determinado em não ceder. Argumentava que o banco central se podia encontrar no difícil cenário em que os seus dois objetivos (pleno emprego e estabilidade de preços) estavam em tensão. E havia dados que sustentavam a prudência. A inflação voltou a acelerar em agosto face ao mês anterior, e acima das expectativas. O Gabinete de Orçamento do Congresso projeta agora uma inflação de 3,1% para o resto de 2025, muito acima dos 2,2% estimados em janeiro.
Ao mesmo tempo, ainda assim, a taxa de desemprego subiu e as contratações abrandaram. Em teoria, estes sinais justificariam um corte de juros para estimular a economia. Mas perante forças contraditórias, a decisão tecnicamente mais prudente seria manter as taxas inalteradas.
O problema é que a pressão política foi aumentando. A retórica agressiva de Trump não só fragilizava Powell como minava a confiança dos consumidores e das empresas. A incerteza estava a tornar-se um risco em si mesma, dificultando a definição de expectativas de famílias e empresas e a produção de orçamentos para 2026, alimentando o receio de uma recessão.
Perante este dilema, Powell escolheu o que considerou ser o mal menor. Preferiu ceder na política monetária a prolongar uma guerra aberta com Trump, que poderia agravar ainda mais a instabilidade interna.
O corte das taxas pode, no curto prazo, aliviar a pressão sobre famílias e empresas, mas acarreta riscos significativos. Se a inflação não recuar, a credibilidade da Reserva Federal pode sair fragilizada. E o impacto não se limitará aos Estados Unidos. Um prolongamento da inflação norte-americana tende a repercutir-se em todo o sistema financeiro global.
Trump venceu esta batalha. A questão é saber a que preço.