Donald Trump nunca escondeu a sua preferência pelo confronto direto em matéria de comércio internacional. Agora, com tarifas mais pesadas sobre países do bloco BRICS do que sobre o resto do mundo, o presidente dos Estados Unidos pode estar a provocar precisamente o oposto do que deseja. Trump pode estar a reforçar a coesão entre aqueles que aponta como os seus maiores rivais.
A recente conversa telefónica entre Xi Jinping e Lula da Silva é sintomática. O líder chinês sublinhou a necessidade de todos os países se unirem contra o unilateralismo e o protecionismo, defendendo um caminho de autossuficiência no chamado Sul Global. O apelo é estratégico. Surge no exato momento em que Washington aumenta a pressão sobre China e Brasil, dois pilares dos BRICS.
Recorde-se que este bloco nasceu em 2006 para agregar as maiores economias emergentes e contrabalançar a influência dos países com mais poder económico e industrial do Norte Global. Desde então, não parou de crescer em relevância. Hoje, com a entrada de novos membros como Egito, Etiópia, Irão, Emirados Árabes Unidos e, já em 2025, a Indonésia, o grupo representa quase metade da população mundial, mais de 40% do PIB global em paridade de poder de compra e cerca de 50% da produção de petróleo.
O Brasil assumiu a presidência rotativa do bloco em 2025. Colocou, de imediato, em cima da mesa a redução da dependência do dólar, uma das questões mais sensíveis para o BRICS. Seja através do uso de moedas locais no comércio intrabloco ou da criação de uma nova moeda comum, a agenda da desdolarização é hoje central. Para Washington, esta possibilidade é vista como uma ameaça direta ao poder estrutural da sua moeda. Para os BRICS, parece ser somente uma questão de equidade. Por que razão devem os Estados Unidos beneficiar do simples facto de o dólar ser a moeda padrão nas transações globais, mesmo quando não estão envolvidos nelas?
Trump respondeu com ameaças. Se os BRICS insistirem em alternativas ao dólar, terão de enfrentar tarifas ainda mais severas. Agora, esta estratégia parece não ser eficaz. Ao endurecer unilateralmente o discurso, o presidente norte-americano pode estar a acelerar exatamente o oposto do que ambiciona: uma maior coesão entre países do BRICS, com interesses algumas vezes divergentes, mas que encontram no confronto com os EUA um ponto de convergência.
O futuro próximo será, portanto, um braço de ferro entre Washington e os BRICS. O grupo tem hoje massa crítica, recursos energéticos e uma população jovem que o tornam um rival sistémico ao G7. Trump, fiel ao seu estilo, aposta na pressão máxima. Mas talvez esteja a dar ao bloco emergente uma oportunidade ímpar de se afirmar definitivamente como a alternativa à ordem global unipolar.