Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM
opinião
Comentador da CNN Portugal

Trump, Putin e o Relógio de Istambul

23 jul 2025, 07:30

“O encontro de Istambul pode não mudar o rumo da guerra. Mas pode revelar algo mais subtil: quem tem medo do fim da guerra? Porque, para alguns dos jogadores envolvidos, a guerra, com todas as suas tragédias, continua a ser mais útil do que a paz"

Nada une tanto os inimigos como a conveniência. A reunião de Istambul entre a Ucrânia e a Rússia é tudo menos o que parece: não é uma aproximação sincera, nem um passo decisivo para a paz. É um ensaio controlado, ensombrado por drones em voo e por relógios diplomáticos a marcar prazos impostos por Washington. A guerra continua — a mesa serve apenas para negociar o formato da próxima fase.

Para compreendermos o que se passa entre os salões de Topkapi e os silos destruídos de Kharkiv, é necessário regressarmos a três datas fundamentais das últimas semanas: o telefonema de 3 de Julho entre Vladimir Putin e Donald Trump; a intensificação dos bombardeamentos russos com recurso a drones e mísseis balísticos nas duas semanas seguintes; e, finalmente, o anúncio de que os sistemas Patriot e o restante apoio militar à Ucrânia seriam financiados pela NATO teve uma nuance particularmente reveladora: quem paga são os aliados europeus — os Estados Unidos, esses, limitam-se a vender. Não contribuem, facturam.

A primeira dessas peças — a chamada entre Putin e Trump — foi, em si mesma, uma pequena negociação. O Presidente russo terá dito ao americano que precisava de 60 dias para estabilizar a situação no terreno. Trump, como um corretor de Manhattan à moda antiga, respondeu com um prazo mais curto, mas só 10 dias depois: 50 dias para apresentar um plano de paz, sob pena de aplicar sanções “arrasadoras”, incluindo tarifas alfandegárias de 100% sobre exportações russas. Este “prazo Trump” criou, inadvertidamente ou não, um relógio geopolítico cujos ponteiros começaram a andar mais depressa.

Ao mesmo tempo, os ataques russos intensificaram-se. Mais drones, mais mísseis, mais danos civis. A explicação militar parece evidente: testar os limites da resiliência ucraniana e aumentar a sua posição negocial. Mas há aqui uma leitura mais inquietante — Putin, ao acelerar o conflito no curto prazo, pode estar a preparar o cenário para um recuo estratégico a médio prazo. Ou seja: criar agora destruição suficiente para que, quando oferecer uma “trégua”, ela seja vista como concessão.

Neste contexto, entra a NATO. A decisão de Trump de manter o apoio militar à Ucrânia, mas transferindo o custo para os aliados europeus, é uma forma sofisticada de “outsourcing estratégico”. Os Estados Unidos mantêm o músculo — Patriot, HIMARS, JASSM — mas libertam-se da factura. A Europa, pressionada por Washington e ameaçada por Moscovo, paga a conta. Não é apenas uma operação logística: é uma reconfiguração de poder dentro da Aliança Atlântica. E é também uma forma de Trump manter influência sem compromisso orçamental interno, um gesto político de alta eficácia eleitoral.

É neste tabuleiro que entra Istambul. Oficialmente, a reunião tem objectivos humanitários: troca de prisioneiros, devolução de corpos, repatriamento de crianças. Mas ninguém se senta à mesa apenas por altruísmo. A Rússia quer mostrar disponibilidade para dialogar — mas apenas nas condições em que isso lhe permita ganhar tempo, reorganizar-se, legitimar os ganhos territoriais e parecer razoável aos olhos do Sul Global. A Ucrânia, por sua vez, sabe que está a negociar com um revólver apontado ao peito. O seu principal trunfo é moral — e o apoio do Ocidente.

Por isso, mais do que uma conferência de paz, esta ronda de negociações é um exercício de posicionamento. É o Kremlin a testar os limites da “nova” NATO — onde Berlim hesita (onde estão os Tauros?); é Kiev a tentar manter a simpatia mediática internacional; e é Washington a monitorizar, com cepticismo calculado, se o prazo dos 50 dias terá algum efeito real.

A Turquia, como anfitriã, joga a sua ambiguidade estratégica com mestria. Erdogan apresenta-se como mediador indispensável, mas equilibra-se entre os interesses comerciais com Moscovo, os compromissos políticos com a NATO e a projecção de força no Mar Vermelho, onde insiste em afirmar-se como potência regional autónoma. Faz parte do jogo. A sua diplomacia de funambulista garante-lhe visibilidade na fotografia — e influência nos bastidores.

A grande pergunta é: esta reunião em Istambul marca o início de uma nova fase ou é apenas mais um acto na longa encenação de uma guerra de atrito? Há sinais contraditórios. A Rússia parece estar a preparar posições defensivas em várias frentes, o que pode indicar contenção futura. Mas também aumenta o recrutamento de soldados e o fabrico de munições. A Ucrânia continua a apelar a mais armas e, simultaneamente, reforça a diplomacia internacional, como se estivesse a construir o seu argumento para o pós-conflito.

Neste tabuleiro, a paz não é um objectivo — é uma arma. Um conceito que pode ser instrumentalizado por ambos os lados: para ganhar tempo, para criar divisões entre aliados, para enfraquecer a opinião pública contrária.

O encontro de Istambul pode não mudar o rumo da guerra. Mas pode revelar algo mais subtil: quem tem medo do fim da guerra? Porque, para alguns dos jogadores envolvidos, a guerra, com todas as suas tragédias, continua a ser mais útil do que a paz.

E isso, no fundo, é o mais perigoso de tudo.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas