Entre as muitas coisas estranhas que Donald Trump e a sua administração disseram e fizeram em relação a Jeffrey Epstein nas últimas semanas está a curiosa negação do presidente de ter escrito uma carta obscena de aniversário ao financeiro desacreditado há duas décadas.
Sabíamos que Trump e Epstein eram amigos nessa época. Também sabemos que Trump disse muitas coisas obscenas.
Mas Trump não só negou ter escrito a carta, como também processou o Wall Street Journal pela reportagem inicial sobre o assunto. Trump sugeriu que outra pessoa poderia ter escrito a carta e assinado com o seu nome.
Mas essa negação sofreu outro golpe significativo esta segunda-feira.
A Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes recebeu uma cópia do “livro de aniversário” que contém a carta em questão, e a carta corresponde à descrição feita pelo Wall Street Journal. Tem uma página e apresenta a silhueta do corpo de uma mulher com uma conversa aparentemente imaginária entre Trump e Epstein dentro do desenho. Abaixo dessa imagem, há uma linha de assinatura com o nome de Trump e um “Donald” numa área que parece a região púbica de uma mulher.
O facto principal é que a carta vem do espólio de Epstein. Por outras palavras, para que essa carta fosse falsa, alguém teria de a ter colocado entre os pertences de Epstein há muito tempo, de alguma forma.
Trump considerou a carta “FALSA” e negou categoricamente ser o seu autor. E muitos alinharam com essa negação. O vice-presidente JD Vance classificou a reportagem do Wall Street Journal como “uma completa e total treta”.
Mas, mesmo na altura, as negações de Trump foram rapidamente questionadas.
Parte da negação de Trump baseava-se na ideia de que não era do seu feitio fazer um desenho como o da carta.
“Nunca fiz um desenho na minha vida”, garantiu Trump em determinado momento. “Não faço desenhos”, acrescentou noutro.
Mas não foi difícil encontrar rabiscos que Trump havia feito na mesma época. Na verdade, Trump doava um rabisco autografado todos os anos para uma instituição de caridade. Um diretor da instituição também disse à CNN que Trump forneceu dois desenhos autografados em 2004. Esse teria sido o ano seguinte à carta de aniversário de 2003.
Para complicar ainda mais as negações de Trump agora, há a assinatura anexada à carta.
Depois de a carta ter sido divulgada publicamente esta segunda-feira, a Casa Branca e apoiantes proeminentes de Trump afirmaram rapidamente que a assinatura não parecia ser dele. Alguns compararam-na com assinaturas oficiais.
“Está na hora da @newscorp abrir o livro de cheques, essa assinatura não é dele. DIFAMAÇÃO!”, garantiu o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Taylor Budowich, no X, referindo-se à empresa que controla o Wall Street Journal.
“Isso é realmente o melhor que conseguiram fazer? Trump tem a assinatura mais famosa do mundo”, disse o influencer pró-Trump Benny Johnson.
“A imagem aparenta ser a assinatura do presidente? Acho que não. É falsa”, disse o também influencer pró-Trump Charlie Kirk.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, pareceu aludir à mesma alegação, dizendo que a imagem prova, de alguma forma, que a história do Wall Street Journal está errada.
“Como sempre disse, é muito claro que o presidente Trump não desenhou este quadro e não o assinou”, afirmou Leavitt.
Embora a assinatura oficial de Trump pareça frequentemente mais irregular do que o “Donald” da carta de aniversário de Epstein, há muitos exemplos de Trump a assinar o seu nome de forma semelhante durante o período em questão.
Há uma carta de 1996 dirigida ao então presidente da câmara de Nova Iorque, Rudy Giuliani. Há uma carta de 1995 dirigida a um membro de uma comissão local de Palm Beach. Há uma carta de 1999 para o ex-apresentador da CNN Larry King. Há uma carta de 1984 para o editor executivo do New York Times, A.M. Rosenthal. O ex-apresentador da MSNBC Keith Olbermann apresentou na segunda-feira uma carta de 2014 que recebeu. Há até uma inscrição de 1997 num livro de Trump que pertencia a Epstein.
Todas apresentam aquele estilo mais extravagante, seguido por uma longa cauda saindo do “d” final do primeiro nome de Trump.
Parece que Trump costumava assinar dessa maneira quando o assunto era mais pessoal — situações em que assinar apenas com o primeiro nome seria apropriado.
A assinatura parece confirmar a legitimidade da carta. Mas os aliados de Trump aparentemente continuam a defender essa afirmação, mesmo depois de as alegações sobre os desenhos de Trump já terem ‘explodido’ nas suas caras.
No grande esquema das coisas, se esta carta foi realmente escrita por Trump não parece importar. O que a carta realmente acrescenta ao processo ou nos diz sobre ele ou suas ligações com Epstein?
Mas, por alguma razão, esta foi uma batalha que Trump escolheu. Pode ser mais um item na longa lista de decisões erradas de seu governo sobre Epstein.