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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

A estratégia do caos na perspetiva da China

21 out 2025, 10:52

A tensão comercial entre os Estados Unidos e a China regressou em força. Donald Trump anunciou uma nova tarifa de 100% sobre os produtos chineses, a partir de 1 de novembro, somando-se à taxa de 30% já em vigor. O sinal é inequívoco. O mundo volta a assistir à guerra económica. 

O anúncio surge apenas semanas depois de um aparente degelo. Em setembro, um telefonema entre Xi Jinping e Trump parecia ter reaberto o diálogo, com o presidente chinês a falar de uma conversa “positiva”. Ainda assim, na altura, Xi deixara um aviso. Alertara Trump contra restrições comerciais unilaterais que pudessem comprometer o progresso alcançado. Talvez soubesse já o que estava por vir.

Washington ampliou, entretanto, as suas restrições às exportações, incluindo subsidiárias de empresas já sancionadas. O número de companhias chinesas afetadas aumentou em vários milhares. Pequim respondeu de imediato, impondo controlos sobre as exportações de minerais raros. Estes recursos são críticos para semicondutores, veículos elétricos e equipamentos militares.

A China domina entre 70% e 80% da produção mundial destas matérias-primas e controla a maior parte da refinação global. É um poder estratégico que afeta diretamente as cadeias de valor ocidentais. O resultado foi uma escalada do conflito comercial. Trump reagiu às restrições chinesas com tarifas de três dígitos, e Pequim prometeu “medidas correspondentes”.

O progresso das negociações está agora em risco. 

Apesar da queda de 27% nas exportações para os EUA nos últimos seis meses, as exportações globais chinesas cresceram em setembro mais de 8%, o que também é o valor mais alto dos últimos seis meses. A China está a perder terreno na América, mas a ganhar influência no Médio Oriente, no Sudeste Asiático, em África e na América Latina. Está a reposicionar-se como o fornecedor industrial do Sul Global.

Os EUA, por sua vez, parecem alimentar propositadamente o impasse. O próprio Secretário do Tesouro, Scott Bessent, elogiou as conversações entre EUA e China, mas aproveitou para criticar as compras de petróleo russo e iraniano por parte da China. Foi o suficiente para quebrar qualquer avanço.

Washington insiste em pressionar Pequim sobre a sua relação com Moscovo, mas essa ligação é, na prática, inquebrável. A China é hoje um dos principais financiadores do Estado russo, através da compra de hidrocarbonetos. O Ocidente sabe-o, e a NATO confirmou-o há pouco mais de um ano, acusando Pequim de ser “facilitador decisivo” da guerra russa.

A verdade é que a “estratégia do caos” serve, desta vez, para ambos os lados. Trump continua o processo de mobilização do eleitorado com a retórica anti-China, e Pequim reforça as suas alianças globais enquanto o Ocidente se fragmenta. 

Nesta fase, o problema é, portanto, ainda mais grave. O atual quadro de caos parece ser agora também o que mais serve os interesses chineses, com a China a reforçar, como nunca, as suas relações económicas com outras geografias.

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