Ignorando as regras básicas da diplomacia, Donald Trump resolve durante uma visita do primeiro-ministro sul-coreano anunciar que pretender encontrar-se com o rival do norte, Kim Jong Un. Lee Jae Myung respondeu com ironia: que vá à Coreia do Norte “e construa um Trump World para jogar golfe”. Já Pyongyang não acha graça às ligações da Casa Branca com Seul: “Se insistirem continuamente nesta encenação militar, certamente irão enfrentar uma situação desagradável e pagar um preço elevado”
O Presidente norte-americano recebeu esta segunda-feira o novo homólogo sul-coreano, Lee Jae Myung, em Washington. E o encontro começou tenso, muito tenso.
É que antes da visita Trump fez comentários nas suas redes sociais sobre uma alegada “purga” ou “revolução” em breve, ou em curso, na Coreia do Sul. Uma declaração que depois, como habitualmente, desvalorizou — como antes já desvalorizara a acusação de que a Coreia do Sul é “uma máquina de fazer dinheiro” graças à proteção dos Estados Unidos, que tem no país 28 mil soldados —, falando de um provável “mal-entendido” entre estes aliados.
Aliados estes que não vivem os melhores dias. Apesar do acordo comercial fechado em julho, que evitou tarifas mais pesadas sobre exportações sul-coreanas, continuam a existir divergências sobre a energia nuclear, os gastos militares e os detalhes de prometidos investimentos sul-coreanos de 350 mil milhões de dólares nos Estados Unidos. Curiosamente, após reunir com Trump, Lee Jae Myung encontrou-se com os executivos de mais de 20 empresas americanas, incluindo a Carlyle Group, Nvidia, Boeing, GE Aerospace, Honeywell ou General Motors.
Voltando à tensão pré-encontro, ela retomaria já terminado este. É que na Sala Oval o Presidente americano anunciou que pretende, que “gostaria”, de se reunir com o líder da outra Coreia, a do norte, Kim Jong Un. E que o pretende mesmo fazer “ainda este ano”. Diplomaticamente, não terá sido do mais prudente e elegante que podia ser.
E se o objetivo era uma espécie de manobra de charme, de aproximação aos norte-coreanos, Donald Trump falhou. Porque da Coreia do Norte não veio nas horas seguintes qualquer reação, qualquer disponibilidade, qualquer intenção. Nem depois, nem antes. É que desde a tomada de posse do Presidente norte-americano, em janeiro, Kim Jong Un tem ignorado os repetidos convites de Trump para retomar a diplomacia direta que marcou o mandato entre 2017 e 2021. Diplomacia direita, ainda que sem acordo que travasse o programa nuclear norte-coreano, refira-se. Antes pelo contrário, refira-se também: Pyongyang até prometeu, pela voz do líder, acelerar esse programa nuclear.
Ora, uma das razões para este “ghost” de Kim a Donald Trump parece ser precisamente a Coreia do Sul. Já após a visita de Lee Jae Myung, e já após a piscar de olho de Trump, o primeiro vice-chefe do Estado-Maior Geral do Exército Popular da Coreia, Kim Yong Bok, citado pela estatal KCNA, afirmou que os exercícios militares recentes e conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul demonstram a intenção de Washington de “ocupar” a península coreana. “Se insistirem continuamente nesta encenação militar, certamente irão enfrentar uma situação desagradável e pagar um preço elevado”, afirmou.
Voltando à visita de Lee Jae Myung, este respondeu à diplomacia, ou falta de diplomacia, de Trump com humor. Aos jornalista presentes na Casa Branca disse apenas: “Espero que possa [Trump] trazer paz à Península Coreana, a única nação dividida do mundo, para se reunir com Kim Jong Un, construir um Trump World na Coreia do Norte, onde eu possa jogar golfe, e para que verdadeiramente desempenhe um papel histórico como pacificador mundial”.
Trump pode até não rever Kim Jong Un brevemente, mas andará perto: o Presidente dos EUA deverá marcar presença na cimeira da Cooperação Económica Ásia-Pacífico, na Coreia do Sul, entre 30 de outubro e 1 de novembro.