Neste 4 de julho, a América celebra 250 anos de República num momento de profunda divisão sobre o que ela é e o que deve ser. Para uns, é o aniversário de uma democracia imperfeita, mas resiliente, ancorada nas suas instituições e na promessa constitucional de liberdade e igualdade. Para outros, é a expressão de uma narrativa nacional capturada por uma visão mais tribal, mais agressiva e menos fiel ao seu próprio legado democrático. Entre estas duas Américas, celebra-se o mesmo país…mas não o mesmo projeto
Antes da era política de Trump e MAGA, os Estados Unidos (USA) projetavam-se no mundo como um projeto inacabado, mas em constante evolução. Uma nação profundamente imperfeita, marcada por fraturas históricas que nunca sararam de todo, desde desigualdades económicas gritantes, um racismo sistémico latente, um hipermilitarismo global, e um egocentrismo básico que move a grande maioria dos americanos.
O “excepcionalismo americano”, por consequência, assumia uma de duas formas: a crença de que, apesar de todos os pecados e crises, o país possuía uma capacidade única de autorregeneração, guiado pelo farol constitucional de construir uma “União mais perfeita”, ou uma posição minoritária e arrogante de que a ignorância é uma virtude, a crueldade é poder, e a ganância uma virtude. Com Trump e o trumpismo, a segunda encontrou um paladino e um movimento.
A América pré-Trump, apesar das diferenças mencionadas acima, funcionava sob um consenso institucional e cosmopolita, onde o pluralismo, o progresso científico e o Estado de Direito eram os pilares da sua liderança global. O debate político, por mais feroz que fosse, respeitava a sacralidade das normas democráticas, a independência da justiça e a legitimidade dos processos eleitorais. Havia um orgulho em ser o farol do mundo livre e a terra de oportunidades que atraía o talento global. O sistema político, embora frequentemente bloqueado, operava sob a premissa de que o progresso social e a inclusão eram metas inevitáveis do destino americano, integrando gradualmente novas franjas da população no contrato social.
Olhando para os últimos 250 anos, essa trajetória revela que o verdadeiro “espírito da América” nunca foi a ausência de problemas, mas sim a persistência na sua superação através das próprias instituições. O país sobreviveu a uma Guerra Civil, à Grande Depressão e às tensões dos Direitos Civis porque o seu tecido democrático sempre acabou por esticar sem romper, mantendo viva a promessa fundacional de liberdade e igualdade perante a lei. Um país complexo, contraditório e muitas vezes hipócrita nas suas ações externas e internas, mas uma verdadeira experiência democrática em constante progressão.
O cronista experimentou isso na primeira pessoa. Tendo a oportunidade de viver e estudar no país, e a possibilidade de viajar por todo o continente, desde San Francisco a Washington, tive a possibilidade de interagir com pessoas tão díspares como professores universitários até às senhoras da limpeza que faziam o seu trabalho às 5h para podermos ter o laboratório da Universidade de Connecticut a fazer investigação às 5h30. Do jovem empregado da empresa de seguros automóveis ao idoso de 80 anos a fazer de rececionista no Walmart. E as diferenças também se sentiam aí, desde americanos que sabiam quem eram Amália ou Eusébio até aqueles que pensavam que Portugal era um país em África.
Neste 4 de julho, 250 anos da República, é desolador ver o que temos para “festejar”.
O obsceno enriquecimento do Presidente aproveitando a sua posição como Presidente, e da sua família através de atribuições corruptas de contratos governamentais.
Tropas nas ruas das cidades que o Presidente não gosta, e na capital, por exemplo, a patrulhar um Espelho de Água para evitar que as pessoas toquem em pedaços de cobertura plástica de um trabalho mal-executado e obtido de uma forma corrupta.
Agentes federais mascarados, violentos, fanáticos, a prender e assassinar manifestantes, enquanto desrespeitam normas e direitos constitucionais para remover de casas e ruas, imigrantes que são membros da comunidade cumpridores de leis.
Campos de detenção em massa e deportações sumárias: a criação de megacentros de triagem e detenção geridos por forças federais ou militares para processar e expulsar milhões de pessoas sem direito a recurso judicial individualizado.
A instrumentalização política do sistema de justiça, utilizando o Departamento de Justiça (DOJ) e o FBI para perseguir e prender opositores políticos diretos, transformando a justiça num braço armado do partido no poder.
A purga ideológica de funcionários públicos, acabando com a neutralidade do aparelho estatal técnico através de decretos, despedindo dezenas de milhares de profissionais de carreira para os substituir por leais ao regime.
A tentativa de retirar o estatuto de cidadão americano à nascença, plasmado na 14.ª Emenda, “Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são cidadãs dos Estados Unidos e do Estado onde residem”, ou do Estatuto Temporário de Proteção de refugiados, fundamentado na Secção 244 da Lei de Imigração e Nacionalidade (Immigration and Nationality Act).
Os ataques a embarcações no Mar das Caraíbas ou Pacífico com o assassinato indiscriminado e caprichoso de seres humanos sem pleno direito de defesa ou aplicação justa da lei. Incursões em países soberanos à revelia do Direito Internacional ou do equilíbrio de poderes determinado pela Constituição.
A tentativa de desvirtuar a democracia e as eleições, de modo que, quando certos republicanos perdem, principalmente o Presidente, é fraude, apesar de isso nunca ser provado, tirando o direito de votar a americanos, ou os meios para o fazer, ou não aceitando resultados de eleições livres e justas.
A desregulação de toxinas químicas com a Administração a retirar regulações relativas ao controlo de poluentes industriais permanentes (como os PFAS ou pesticidas como o glifosato). A redução drástica do plano de vacinação infantil recomendado tendo o resultado prático de doenças erradicadas ou controladas, como o sarampo, voltarem e colocarem em risco a imunidade de grupo.
O terminar, novamente de uma forma caprichosa, projetos de construção de centros de energias renováveis, enquanto continua-se a dar subsídios às empresas de combustíveis fósseis. A desapropriação de terrenos protegidos pela sua flora e fauna para se retirar minérios e petróleo dos solos.
O fim da USAID, condenando à morte centenas de milhares, se não milhões de desgraçados que não têm um trilião de dólares para gastar para projetos megalomaníacos ou infinitas queixas sobre “vírus de mentes despertas”.
O abandono unilateral de alianças históricas: o desrespeito por tratados mútuos (como o Artigo 5.º da NATO) por mera obstinação presidencial, por ignorância, despeito, ou compromisso com os inimigos do Ocidente, deixando democracias aliadas à mercê de potências expansionistas.
A diplomacia de chantagem e disrupção: utilizar a ajuda externa e o poder militar dos EUA não para a segurança nacional, mas para extorquir favores políticos pessoais ou benefícios financeiros, ou de tentar minar o projeto da construção de uma União Europeia de democracias liberais.
A West Wing demolida para dar lugar a um Salão de Festas. O jardim da Casa Branca arruinado para se acolher um grotesco espetáculo de barbaria e de jingoísmo bacoco. O Rose Garden destruído para ser uma esplanada. O arco que não celebra nada a não ser a desastrosa passagem de Trump pela Casa Branca. A capital usada para um Comício MAGA no que devia ser um dia de festejo nacional.
Uma imensa desolação.
Porém, os USA não são propriedade de Trump, nem exclusivos de MAGA. Neste 4 de julho, a larga maioria dos americanos irá celebrar o país em que acreditam de uma forma patriota, não nacionalista. De uma forma inclusiva e não tribal. De uma forma tranquila e não ridícula. No testamento de George Washington, o primeiro presidente dos USA escreveu: “eu sou um cidadão dos Estados Unidos, e ultimamente, Presidente desta nação” (a citizen of the United States, and lately President of the same), o que sugere que, para Washington, ser um membro da comunidade era superior a ser presidente da mesma. Para Trump e MAGA isto não é um imperativo. Para o resto dos americanos é e vai continuar a ser.
