Algo que caracteriza Trump é um vocabulário reduzido no que diz respeito à retórica política. Uma das frases mais vezes usadas pelo presidente é: “Nunca ninguém viu nada igual”. No que toca à corrupção na sua Casa Branca, isso é, sem dúvida, verdade. Dos muitos exemplos disponíveis, três são apresentados nesta crónica: a compra de ações, pela família Trump, de empresas que têm negócios com o governo; a imunidade de crimes fiscais através de um acordo com o Departamento de Justiça sob o controlo da presidência; e adjudicações diretas de um contrato inflacionado a 627%. Realmente, algo nunca visto antes.
Algo que caracteriza o presidente dos Estados Unidos é o seu vocabulário reduzido no que diz respeito à retórica política: são sempre as mesmas histórias, as mesmas promessas, os mesmos insultos juvenis. Porém, outra observação recorrente é o maximalismo do ocupante da Casa Branca. Tudo é apresentado como “nunca feito antes”, o país nunca esteve “tão bem como está”, se não tivesse ganho as eleições “a nação já não existiria”, ou (e a expressão favorita, ou menos favorita, para este cronista) “os Estados Unidos nunca foram tão respeitados internacionalmente como são agora”.
Em particular, outra “muleta verbal” usada é a de dizer que “nunca ninguém viu nada igual”. Neste caso, sim, nunca se tinha visto a corrupção observada numa Administração americana como a que se observa neste segundo mandato de Trump. O património líquido do presidente, segundo a Forbes, aumentou de 2,5 mil milhões de dólares em 2020 para mais de 5 mil milhões de dólares atualmente, em clara contravenção do Artigo I da Constituição, fazendo da Casa Branca uma “máquina de lavar dinheiro”, bem, nunca vista antes.
Num conjunto alargado de exemplos, vamos dar três nesta crónica.
No primeiro trimestre de 2026 (janeiro a março), contas financeiras registadas sob a “marca” Trump registaram mais de 3.600 transações de ações (compras e vendas), uma média de mais de 40 transações por dia. O volume total movimentado nestes três meses terá sido entre 220 milhões e 770 milhões de dólares. Ao contrário de presidentes anteriores, que colocavam os seus bens num blind trust, fundos financeiros geridos por agentes independentes sem contacto com o detentor dos ativos, os ativos de Trump são geridos pelo seu filho, Donald Trump Jr., numa estrutura que permite ao presidente pode ter uma gestão direta quando quiser.
Apesar de ser um escândalo que levaria a pedidos de demissão do presidente durante dias e noites, ficou-se a saber que, no dia 10 de fevereiro de 2026, contas associadas a Trump compraram pelo menos 1 milhão de dólares em ações da Nvidia, no mesmo dia em que o vice-presidente JD Vance se reuniu com executivos da Nvidia para anunciar um mega-projeto de inteligência artificial na Arménia.
Também em fevereiro, Trump comprou pelo menos 1 milhão de dólares em ações da construtora aeroespacial Boeing, e, por ocasião de uma recente visita à China, foi anunciado um acordo em que companhias aéreas estatais chinesas iriam comprar 200 aviões comerciais à Boeing. Ou ainda quando sete compras consecutivas de ações da farmacêutica Eli Lilly (criadora dos medicamentos inovadores para a obesidade, os GLP-1) coincidiram com o momento em que as agências federais de saúde da Administração Trump começaram a desenhar um programa piloto para que estes medicamentos passassem a ser reembolsados pelo Medicare (o sistema público de saúde para idosos).
Do ponto de vista jurídico e de ciência política, o caso seguinte poderá ser o mais grave e inédito na história constitucional americana. Em janeiro deste ano, Donald Trump e os filhos processaram o IRS (a autoridade tributária americana) em 10 mil milhões de dólares devido à fuga de informação das suas declarações fiscais no primeiro mandato. Quando a juíza destacada ao caso pediu pareceres jurídicos do "queixoso" e do " defensor" sobre se era possível haver uma oposição entre duas partes que são a mesma, no dia antes da entrega desses pareceres, o Departamento de Justiça (controlado completamente neste momento pelo presidente, mais uma normal que se evaporou) fez um acordo extrajudicial com o queixoso (Trump).
O acordo consiste em que o “queixoso” desistiria do processo judicial e, em troca, o Estado comprometer-se-ia a criar um “fundo antidiscriminação”, no valor de 1,776 mil milhões de dólares, através do qual a família Trump poderia apresentar queixas por alegada “perseguição” durante a Administração Biden e receber eventuais compensações financeiras. Em simultâneo, ficou também definido que o IRS garante que a família Trump e os seus negócios nunca poderão ser alvo de uma auditoria. O fundo deverá ser gerido por uma comissão de cinco membros que não tem de prestar qualquer explicação sobre quem é ressarcido, em que montante ou por que razão.
E terminamos com, talvez, o mais prosaico, mas igualmente corrupto. Focado nas coisas que realmente o motivam, salões de festas, arcos triunfais, renovação de campos de golfe e substituição de fontes, Trump anunciou que o espelho de água perto do Monumento a Lincoln, o palco onde Martin Luther King Jr. proferiu o discurso “I Have a Dream” (ou onde Jenny reencontrou Forrest Gump), precisava de uma nova camada de pintura selante, uma intervenção técnica e estética delicada. Em vez de ser aberto um concurso público federal, exigido por lei, o presidente indicou diretamente que o contrato seria entregue a uma empresa de construção civil que já tinha realizado obras privadas para as suas próprias propriedades. O valor inicial do contrato situava-se entre 1,5 milhões e 1,8 milhões de dólares, passando agora para 13,1 milhões de dólares, aparentemente com uma execução deplorável.
O problema já não é a corrupção em si, mas a sua progressiva escala, sofisticação e descaramento. O que antes seria tratado como inaceitável tornou-se agora, devido à maioria Republicana no Congresso que continua a fingir que nada disto constitui matéria para destituição, ou sequer para controlo legislativo, uma rotina institucional.
