A política americana está polarizada a um ponto tão extremo que é difícil fazer previsões acertadas sobre o verdadeiro impacto deste atentado na comunicação política de ambos os lados.
O ato de violência política que alguns, como JD Vance, dizem ser da autoria moral dos democratas e parece estar a aumentar a divisão entre os dois lados da barricada política, é o momento definidor desta campanha.
Note-se que este tipo de violência não é novo na política americana, quatro presidentes americanos em funções foram assassinados, Lincoln, Garfield, McKinley e JFK, houve uma tentativa contra Andrew Jackson, Teddy Roosevelt (em campanha), FDR, Truman, duas tentativas contra Ford e uma tentativa contra Reagan e George W. Bush e inúmeros assassinatos políticos e tentativas a figuras políticas de renome como Robert Kennedy, Wallace ou Martin Luther King.
É difícil imaginar que este grau de violência não tenha efeitos profundos na forma de comunicar politicamente e, na minha opinião, é extraordinária a resiliência da política americana em não ceder à desintegração das instituições federais.
E agora? O que poderá acontecer? Que papel terá a comunicação política e o que farão as direções das campanhas eleitorais de ambos os candidatos?
Olhemos para história americana. Quando Reagan foi ferido na tentativa à sua vida, o que se assistiu na política americana foi uma união praticamente total. Total e absoluta condenação dos dois lados, nenhuma responsabilização. Reagan saiu do hospital com quase 70% de aprovação nacional. Não será o que vai acontecer agora. À subida de curto prazo da aprovação a Trump, que diz que vai mudar de discurso, seguir-se-á uma reação comunicacional do lado democrata.
Por um lado, Trump, cujo instinto para o efeito mediático e cénico é invulgar, e que é de resto a sua grande arma política, sabia perfeitamente que o protocolo de segurança ditava que ele teria de estar totalmente “coberto” pelos seguranças, mas faz esta coisa espantosa. Ao levantar-se desobedece ao protocolo e praticamente luta com os seguranças, porque ele sabia que o valor daquele momento, continha a possibilidade de decidir a eleição. Ao levantar-se e gritar, “lutem”, “lutem”, “lutem”, ele sabia tanto quanto qualquer um de nós sobre o que tinha acontecido e nada sobre o autor. Lutar contra o quê ou quem? O seu primeiro instinto foi criar um momento cénico de incomparável valor comunicacional e para todos os efeitos ele criou.
O fotógrafo Evan Vucci da AP tirou a fotografia que irá marcar toda a campanha eleitoral. É curioso que na era onde tudo é filmado, é uma foto que tem este peso.
A “bola” comunicacional está do lado democrata agora.
A campanha democrata já está a baixar – e a todo o custo - o grau de radicalização da retórica usada até agora. Retiraram uma campanha publicitária de milhões que ia sair esta segunda-feira, a atacar Trump, não porque ele seja menos mentiroso hoje ou envolto em menos escândalos ou, na opinião dos democratas, defenda ideias menos perigosas do que na sexta-feira, mas o novo contexto obriga uma mudança total na estratégia e táticas de comunicação política do Partido Democrata.
Biden tem poucas hipóteses de criar um momento de comunicação que dê um novo folego à campanha democrata. A não ser que ceda o seu lugar de imediato, afinal, esta imagem de Trump estabelece um enorme contraste face à fragilidade física de Biden e talvez um candidato “novo” possa criar um verdadeiro impacto mediático e comunicacional. E mesmo assim esse candidato “novo” terá enormes dificuldades para estabelecer uma nova narrativa política.
Uma coisa é certa. Não há absolutos na comunicação política e os próximos dias serão certamente muito interessantes.
