Na noite da eleição para a Presidência dos Estados Unidos, a 5 de novembro de 2024, em direto num dos órgãos de comunicação social em Portugal, defendi que o futuro a médio prazo seria muito complicado para a Europa e para a União Europeia (UE). Nessa altura, não sabíamos o quão mau seria o primeiro ano da segunda Administração Trump, mas as perspetivas não eram as melhores. O alerta focou-se, por ordem, nas questões relativas à Ucrânia, na economia, na segurança, na soberania digital e na diplomacia.
A diplomacia foi mencionada em último lugar propositadamente porque, numa análise mais fria, raramente é nesse plano que se produzem os danos mais imediatos na relação transatlântica. Ainda assim, funciona como pano de fundo revelador: expõe a ideologia, o estilo político e a visão de mundo que moldam as restantes decisões.
O historiador Adam Tooze mencionou no The Guardian que membros da Administração lhe disseram, em Davos: “Nós vamos punir-vos”, sendo este “vós” todos nós, os europeus. “E depois vai doer ainda mais quando vos punirmos ainda mais. Vocês vão guinchar e aceitar qualquer acordo nos nossos termos”. É importante recordar: o “vocês” (que vão guinchar) somos nós; e os “nossos” são os termos americanos. Tooze, numa posição de resignação, sugeriu que os governos europeus deveriam “pensar, com determinação, qual o equivalente de nos levantarmos e sairmos da sala”.
Esse gesto simbólico ocorreu quando Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, abandonou um jantar oferecido pela BlackRock em Davos, após ouvir o Secretário do Comércio Americano, Howard Lutnick, menosprezar a relevância económica da UE e adotar um tom sobranceiro relativamente à oposição europeia a qualquer ingerência americana na Gronelândia, uma questão que toca diretamente a soberania europeia através da Dinamarca. No dia anterior, fora a vez do Secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmar que a “Dinamarca é irrelevante”, e que os europeus não devem reagir ou responder a exigências inaceitáveis por parte da Casa Branca.
Este comportamento segue o padrão que assistimos com o Vice-Presidente Vance na Conferência de Segurança de Munique, onde ameaçou a UE. Ou a Secretária de Segurança Interna (Homeland Security), Kristi Noem, que insultou líderes europeus e apelou aos polacos para votarem num candidato extremista e anti-UE nas eleições presidenciais desse país. Vimos ainda Stephen Miller, o vice-chefe de gabinete para as políticas (Deputy Chief of Staff for Policy), afirmar que o direito internacional, na questão da Gronelândia, é “o que os mais fortes quiserem”. Ou o Secretário de Estado, Marco Rubio, lançar ameaças de punição devido ao Regulamento dos Serviços Digitais (DSA), que regula a nossa vida online no mercado único europeu.
Antes de tudo isto, a Administração Trump já tinha escolhido pessoas não qualificadas ou com registo criminal, para embaixadores na Europa. Foi o caso da ex-namorada do filho do Presidente para a Grécia, ou de Charles Kushner, pai de Jared Kushner e sogro do Presidente nomeado para França, após ter sido condenado por pagamentos ilegais de campanha, fuga aos impostos e influência criminosa sobre testemunhas.
Este é um padrão que nos leva a uma conclusão inevitável: não nos devemos preocupar apenas com a bazófia, a ignorância ou o despropósito que emanam diretamente do Presidente, seja no pódio da Casa Branca ou no palco de Davos. Devemos preocupar-nos, igualmente, com todo um sistema montado para amplificar uma posição ofensiva e injuriosa contra antigos aliados, agora vistos como adversários ou, pior, inimigos.
Como tive a oportunidade de dizer na CNN Portugal, a preocupação não é só a estratégia que é de conhecimento público, e que mostra a intenção da Administração Trump de apoiar aqueles que gostariam que a UE e a Europa fossem uma região submissa para com os Estados Unidos. O problema é também a máquina diplomática encarregada de executar essa estratégia. Infelizmente, por agora, a melhor solução para os europeus, seja nos corredores do poder nas nossas capitais ou na casa da democracia em Bruxelas, é, de facto, adotarmos ações semelhantes a levantarmo-nos e sairmos da sala. Pelo menos até que os nossos interlocutores voltem a ser respeitadores, educados e construtivos.