No outro dia, tive de olhar novamente para a prateleira do supermercado para ter a certeza de que tinha visto bem: Coca-cola com sabor a Oreo. Foi como se o meu cérebro não conseguisse processar a quantidade de coisas erradas que ali devem estar concentradas, num só produto. Coca-cola com sabor a Oreo?
Não faço ideia a que sabe esta mistura improvável e também não estou a dizer mal de nenhuma das marcas. Acontece que sou um purista da Coca-Cola e nem aquelas versões sem açucar e sem calorias (e sem graça nenhuma) me convencem.
Portanto, confirmei que tinha visto bem e arrumei mentalmente aquele freak-show na gaveta “só na América”. Foi aí, aliás, que durante muito tempo guardei Donald Trump. Tudo aquilo era plástico e néon de Las Vegas e, por outro lado, tão aterrador como um filme de Halloween. Era demais disto tudo ao mesmo tempo e, portanto, só na América.
Mas tal como a McDonald’s, onde Trump fritou batatas, se espalhou pelo mundo, também este modelo de político de casino chegou rapidamente a cada canto da Europa (ou já cá estava e nós fingíamos que não porque ofendia aquela sofisticação de Velho Mundo que prefere um bom guardanapo de pano).
E como ele pode estar outra vez a caminho da Casa Branca, mais vale tirá-lo da gaveta e olhá-lo com a ajuda de quem vê nele mais do que um freak-show.
Por estes dias na América, já conheci conspiracionistas que acreditam que houve votos roubados há quatros anos, conheci racistas despudorados e conheci gente com ar de quem está pronta para a guerra civil depois de 5 de novembro.
Mas, numa padaria que vende bolachas políticas numa pequena cidade à saída de Filadéldia, também conheci gente pouco dada a delírios destes.
Americanos de classe média que pensam eleições sobretudo com o bolso e que estavam ali a comprar bolachas decoradas com as cores de Trump por causa das saudades que sentem da conta bancária nesses anos pré-pandemia, em que a inflação não engolia parte do rendimento. Gente que escolhe não ouvir o que é feio e que ignora o que sabe a podre, porque dele só quer ouvir palavras de esperança: Trump vai proteger a economia e os empregos e vai baixar os preços e ajudar a indústria, ele consegue, com ele vai ser melhor.
Não estou certo de qual destas duas visões tem mais aderência à realidade (e realidade, por aqui, também é um conceito opcional). Mas uns e outros, os extremistas e os que só querem a vida que tinham, os agressivos e os resignados, os que acreditam em soluções mágicas e os que já têm pouco a perder, todos eles têm uma coisa em comum: independentemente da estranheza que este produto cause fora da América, eles acham mesmo que Donald Trump é a última bolacha do pacote.