O mundo como ele é

7 nov, 22:06

Estados Unidos, Rússia e os testes nucleares

“Será preciso escolher, num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio coletivo ou a utilização inteligente das conquistas científicas.”

Assim abria Albert Camus um histórico editorial no dia a seguir à bomba de Hiroshima. Foi há 80 anos.

No exercício de olhar para trás, há sempre a tentação de justificar o presente com o passado. Acreditar que a História se repete, é uma forma sedutora de encarar adversidades distintas de cada era, no interminável fio invisível que conduz o tempo.

A História não se repete, tão pouco acredito que rime, mas certamente dá-nos instrumentos para imaginar o futuro que idealizamos pelo conhecimento das atrocidades que o Homem entendeu como progresso quando as concebeu e depois cometeu. Aquilo que Camus, no mesmo editorial, descrevia como o “derradeiro patamar de selvajaria da civilização mecânica”.

À destruição apocalíptica da bomba nuclear, seguiu-se uma corrida desenfreada que só a fase final da Guerra Fria começou a travar realmente até à limitação possível, próprio do otimismo de um certo “fim da História” com a vitória das democracias liberais e mais um futuro idealizado. Nesse otimismo, espírito dos tempos que não estes, a Humanidade parecia ter-se conciliado com a ideia de um “suicídio coletivo” ainda ao dispor dos líderes das nações mais poderosas do mundo.

Os acontecimentos desta semana, com o lançamento pelos Estados Unidos de um míssil balístico intercontinental não-armado foi minimizado como rotina (que o foi) mas aconteceu num contexto muito próprio em que Trump deu ordens ao Pentágono para retomar testes nucleares (com detonações, supõe-se), em resposta aos recentes anúncios da Rússia sobre novas armas com capacidade nuclear – e, no geral, depois de uma crescente retórica de ameaça desde os primeiros meses da guerra na Ucrânia que tem servido como um afiado dissuasor do apoio ocidental a Kiev. Coreografia ou não, o lançamento precipitou uma reunião do Conselho de Segurança russo e culminou com instruções para também preparar testes. A materializar-se seria uma viragem de décadas que, neste amaldiçoado presente, só poderá implicar uma reação em cadeia – e que a China, em bom rigor, antecipou antes de todos, para poder chegar agora, em pouco tempo, ao nível de russos e americanos.

Despida a racionalidade estratégica, assim se acende um rastilho que ninguém verdadeiramente controla, por mais protocoladas, treinadas e blindadas que sejam hoje (e são) as doutrinas nucleares.

A História não se repete mas desperta apreensões comuns, como se a Humanidade deslizasse para um tempo que outros viveram. É legítimo, sobretudo quando voltamos a Camus quando justificou que “o mundo é como é”.

Ainda que através do nuclear exista dissuasão entre as grandes potências, logo uma paradoxal manutenção de paz, ainda que nada aponte no sentido de uma desescalada, e ainda que o mundo seja como é, podemos sempre manter a esperança da conclusão final daquele editorial de 1945:

“Recusamos tirar de uma notícia tão grave outra coisa que não seja a decisão de implorar ainda mais energicamente por uma verdadeira sociedade internacional, onde as grandes potências não terão direitos superiores às pequenas e médias nações, onde a guerra, flagelo tornado definitivo apenas pela inteligência humana, não dependerá mais dos apetites ou das doutrinas deste ou daquele Estado.”

Parece hoje, não parece?

Colunistas

Mais Colunistas