Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

O mundo como ele é

7 nov 2025, 22:06

Estados Unidos, Rússia e os testes nucleares

“Será preciso escolher, num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio coletivo ou a utilização inteligente das conquistas científicas.”

Assim abria Albert Camus um histórico editorial no dia a seguir à bomba de Hiroshima. Foi há 80 anos.

No exercício de olhar para trás, há sempre a tentação de justificar o presente com o passado. Acreditar que a História se repete, é uma forma sedutora de encarar adversidades distintas de cada era, no interminável fio invisível que conduz o tempo.

A História não se repete, tão pouco acredito que rime, mas certamente dá-nos instrumentos para imaginar o futuro que idealizamos pelo conhecimento das atrocidades que o Homem entendeu como progresso quando as concebeu e depois cometeu. Aquilo que Camus, no mesmo editorial, descrevia como o “derradeiro patamar de selvajaria da civilização mecânica”.

À destruição apocalíptica da bomba nuclear, seguiu-se uma corrida desenfreada que só a fase final da Guerra Fria começou a travar realmente até à limitação possível, próprio do otimismo de um certo “fim da História” com a vitória das democracias liberais e mais um futuro idealizado. Nesse otimismo, espírito dos tempos que não estes, a Humanidade parecia ter-se conciliado com a ideia de um “suicídio coletivo” ainda ao dispor dos líderes das nações mais poderosas do mundo.

Os acontecimentos desta semana, com o lançamento pelos Estados Unidos de um míssil balístico intercontinental não-armado foi minimizado como rotina (que o foi) mas aconteceu num contexto muito próprio em que Trump deu ordens ao Pentágono para retomar testes nucleares (com detonações, supõe-se), em resposta aos recentes anúncios da Rússia sobre novas armas com capacidade nuclear – e, no geral, depois de uma crescente retórica de ameaça desde os primeiros meses da guerra na Ucrânia que tem servido como um afiado dissuasor do apoio ocidental a Kiev. Coreografia ou não, o lançamento precipitou uma reunião do Conselho de Segurança russo e culminou com instruções para também preparar testes. A materializar-se seria uma viragem de décadas que, neste amaldiçoado presente, só poderá implicar uma reação em cadeia – e que a China, em bom rigor, antecipou antes de todos, para poder chegar agora, em pouco tempo, ao nível de russos e americanos.

Despida a racionalidade estratégica, assim se acende um rastilho que ninguém verdadeiramente controla, por mais protocoladas, treinadas e blindadas que sejam hoje (e são) as doutrinas nucleares.

A História não se repete mas desperta apreensões comuns, como se a Humanidade deslizasse para um tempo que outros viveram. É legítimo, sobretudo quando voltamos a Camus quando justificou que “o mundo é como é”.

Ainda que através do nuclear exista dissuasão entre as grandes potências, logo uma paradoxal manutenção de paz, ainda que nada aponte no sentido de uma desescalada, e ainda que o mundo seja como é, podemos sempre manter a esperança da conclusão final daquele editorial de 1945:

“Recusamos tirar de uma notícia tão grave outra coisa que não seja a decisão de implorar ainda mais energicamente por uma verdadeira sociedade internacional, onde as grandes potências não terão direitos superiores às pequenas e médias nações, onde a guerra, flagelo tornado definitivo apenas pela inteligência humana, não dependerá mais dos apetites ou das doutrinas deste ou daquele Estado.”

Parece hoje, não parece?

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas