Como os memes falsos de Trump estão a moldar o discurso político online
Antes de surgir Trump como Jesus, houve Trump como Papa. Houve Trump como Rocky. Houve Trump em “Apocalypse Now”, a “cheirar a vitória”.
Houve também Trump com um sabre de luz vermelho, à semelhança de Darth Vader, a entrar na cabeça da resistência a 4 de maio.
Para provocar os manifestantes “No Kings”, foi retratado como piloto de caça, com o indicativo “King Trump”, a largar bombas de excrementos sobre quem protestava.
Se tudo isto lhe parece apenas brincadeira ou sarcasmo, é porque não está totalmente dentro da lógica. Trump pode ter percebido que ultrapassou uma linha com a publicação — entretanto apagada — em que surgia como uma figura semelhante a Jesus. Mas mobilizar a sua base parece ser uma parte central da estratégia de comunicação da Casa Branca, numa altura em que muitas pessoas vivem em bolhas online e obtêm informação através das redes sociais.
Foi também retratado por um apoiante com um cargo oficial no Departamento de Estado como um dos “Pais Fundadores”, a assinar o que parece ser a Constituição ou a Declaração de Independência — embora a imagem gerada por inteligência artificial seja mal construída, já que aparece a escrever com uma pena, e não com o seu habitual marcador Sharpie. Algo risível.
July 4th, 1776 and November 5th, 2024. The two most important dates in American history! pic.twitter.com/8anqoTYLUi
— Nick Adams (@NickAdamsinUSA) July 3, 2025
Noutro vídeo, surge como jogador de hóquei, a destruir a defesa canadiana e a aparecer nos feeds das pessoas numa altura em que se falava da medalha de ouro olímpica dos EUA na modalidade.
“Os memes são, na verdade, métodos visuais de comunicação, e permitem lançar ideias no discurso cultural sem ter de expressar diretamente opiniões ou posições”, explica Taylor Lorenz, jornalista de tecnologia e autora do livro “Extremely Online: The Untold Story of Fame, Influence, and Power on the Internet”.
Em vez de recuar totalmente após a publicação apagada — que alguns cristãos consideraram blasfema — Trump voltou a publicar, na quarta-feira, uma imagem sua ao lado de Jesus, reconhecendo implicitamente a polémica e prolongando-a.
Também o Irão entrou na tendência: a embaixada do país no Tajiquistão publicou um vídeo em que Jesus desce dos céus para castigar Trump, que tinha sido retratado como a própria figura religiosa. Um nível de meta-ironia elevado.
Segundo Kaylyn Jackson Schiff, codiretora do laboratório Governance and Responsible AI Lab (GRAIL), da Universidade Purdue, todas estas imagens são uma forma de “deepfake”.
O termo é mais frequentemente associado a conteúdos enganadores que usam inteligência artificial para induzir em erro, mas também se aplica a imagens obviamente falsas. Investigadores do GRAIL criaram uma base de dados com milhares de deepfakes políticos, ou, em linguagem técnica, “conteúdo sintético”.
As duas primeiras categorias incluem imagens que parecem realistas.
Os “darkfakes” são enganosos. “Podem ser imagens sintéticas realistas que procuram prejudicar um adversário”, explica Jackson Schiff. É o caso de anúncios que tentavam dar a entender que o candidato democrata ao Senado pelo Texas, James Talarico, estava a ler tweets antigos em voz alta — algo que nunca fez.
Os “glowfakes” têm uma conotação positiva. “Funcionam como um ‘glow-up’, fazendo alguém parecer melhor do que é na realidade”, acrescenta.
Depois há os deepfakes que são claramente irreais.
Os “foefakes” são negativos. São obviamente falsos e retratam um adversário de forma desfavorável, funcionando essencialmente como provocação.
Já os “fanfakes” colocam uma pessoa num pedestal. Retratar Trump como uma espécie de Super-Homem ou figura divina é claramente irreal, mas pode “aumentar o entusiasmo e o apoio entre a sua base”, diz Jackson Schiff.
Estas imagens podem ou não ser produzidas pela Casa Branca. Uma versão de Trump como figura semelhante a Jesus já tinha sido partilhada em fevereiro por Nick Adams, um influenciador de direita com o título de “enviado presidencial especial para o turismo, excecionalismo e valores americanos” no Departamento de Estado.
Adams é um apoiante fervoroso de Trump. Já publicou, por exemplo, uma imagem em que Trump parece rezar na Sala Oval, com as figuras de Martin Luther King Jr. e Abraham Lincoln atrás de si.
A relação de Trump com a sua base é invulgar na política norte-americana: em vez de se manter distante dos memes, amplifica conteúdos criados a seu favor.
Para os seus apoiantes, é visto “de forma interessante, tanto como um homem comum como um herói exaltado”, observa Jackson Schiff.
Lorenz argumenta que, embora estas imagens sejam claramente falsas e possam parecer ridículas, têm um efeito acumulado.
“Cada outdoor que vê no caminho para o trabalho faz com que compre alguma coisa? Não. Mas infiltra-se no seu cérebro e molda a forma como pensa e percebe as coisas”, afirma.
Trump é, segundo Aidan Walker, autor da newsletter “How to Do Things With Memes”, um mestre da influência política à direita.
Walker compara-o a MrBeast, criador do YouTube: há muitas pessoas no mesmo ecossistema, mas nenhuma com o mesmo nível de influência.
“Há uma grande baleia, e todos acabam por beneficiar da corrente que ela deixa para trás”, diz.
Não existe, neste momento, um equivalente à esquerda, o que pode ajudar a explicar por que razão os democratas têm dificuldade em encontrar uma liderança unificadora.
Walker refere que Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez conseguiram mobilizar apoio, mas de forma muito diferente da de Trump.
“Donald Trump e a sua equipa são muito eficazes a criar ‘fanfakes’ que apelam à sua base e exploram a forma como os seus apoiantes o colocam num pedestal”, observa Jackson Schiff.
Os democratas parecem tentar recuperar terreno. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, por exemplo, publicou uma imagem de Trump como Maria Antonieta — um “foefake” — para o ridicularizar devido à reconstrução da Ala Leste, ou adota um tom provocador na rede social X.
TRUMP “MARIE ANTOINETTE” SAYS, “NO HEALTH CARE FOR YOU PEASANTS, BUT A BALLROOM FOR THE QUEEN!” pic.twitter.com/u8o6dSsIhW
— Governor Newsom Press Office (@GovPressOffice) October 1, 2025
Este elemento de provocação encaixa na política divisiva atual. Ainda assim, tudo isto pode parecer pouco sério, em contraste com a responsabilidade de governar.
A imagem de Trump como Jesus pode ter sido inicialmente publicada em paralelo com notícias de tensão entre Trump e o Papa, mas acabou por se tornar ela própria uma história.
O mesmo aconteceu quando Trump partilhou um vídeo centrado em alegações infundadas de fraude eleitoral, mas que terminava com imagens racistas de Barack e Michelle Obama como macacos.
O vídeo dos Obama e a imagem de teor quase divino são dos poucos conteúdos que Trump ou a Casa Branca acabaram por apagar.
A conta que criou o vídeo racista, “xerias_x”, continua a vangloriar-se disso. É a mesma conta que produziu o vídeo gerado por IA de Trump como piloto de caça a bombardear manifestantes — de gosto duvidoso, mas que não foi interpretado como blasfemo.
*Dugald McConnell contribuiu para este artigo