Trotinetes são "um perigo" e "uma tortura": mais acidentes, mais feridos, gente com medo de sair de casa - e Moedas quer mudar a lei

29 jun, 07:00

A PSP diz e os dados mostram: o número de acidentes aumentou - no ano passado triplicaram relativamente a 2020. Em 2022 verifica-se um ligeiro abrandamento mas os números continuam muito superiores aos de há dois anos. E os acidentes são agora "mais graves", diz a polícia. Há deficientes visuais que se queixam da falta de regras

Até há quatro meses, quem passasse na Avenida da República, em Lisboa, podia ver Teresa Vaz a caminhar lentamente na larga calçada em direção ao Saldanha. “Lisboa não é a cidade mais inclusiva do mundo e naquela avenida podia caminhar à vontade, sem estar acompanhada. Era muito agradável”, conta esta reformada de 56 anos que foi diagnosticada à nascença com alta miopia degenerativa, uma doença hereditária e genética causada pelo crescimento exagerado do globo ocular. “Ainda vejo um bocadinho, pouco, mas vou acabar por cegar.” 

Agora, os longos passeios de fim de dia que fazia na Avenida foram substituídos pelo interior da sua casa. Tudo por causa das “demasiadas” trotinetes mal estacionadas no passeio. “Tornou-se a minha tortura. Vou ficando em casa mais tempo. Senti que já não é um percurso seguro e tenho medo de cair, uma queda pode provocar um descolamento de retina e é o meu fim”, explica esta mulher que, por duas vezes, esteve perto de ter um acidente “por causa de trotinetes que estão deitadas no chão”.

“As pessoas com deficiências visuais estão a ter mais medo de sair de casa perante o risco de sofrerem lesões provocadas por trotinetes elétricas e pelo seu mau estacionamento nos passeios e nas passagens de peões.” O alerta é de Rodrigo Santos, presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal, que, em entrevista à CNN Portugal, sublinha que este meio de transporte tem “prejudicado gravemente um direito fundamental dos invisuais, e não só, que é o de poder sair à rua”.

Rodrigo Santos salienta que a ACAPO tem tido contactos com cidadãos cegos que passam por “coisas surreais”, nomeadamente quedas que têm origem num tropeção numa trotinete elétrica deitada no meio do passeio ou abalroamentos após a saída de uma paragem de autocarro, havendo também vários casos de bengalas partidas. “Nos contactos, constatamos efetivamente que este tipo de situações tem aumentado exponencialmente e, em alguns casos, houve necessidade de estas pessoas serem hospitalizadas.”

 

 

Teresa Vaz, que vai dividindo o seu tempo entre o trabalho voluntário que faz na Associação de Apoio e Informação a Cegos e Amblíopes, que fundou, e um blogue onde conta as suas estratégias para lidar com a falta de visão, explica como antigamente as trotinetes representavam para si uma maneira de ser incluída no seu grupo de amigos. “No meu décimo aniversário recebi uma trotinete. Foi o presente que mais me marcou, pois, mesmo a ver mal, podia ir para a rua brincar com as outras crianças. Conseguia andar de trotinete, o que não acontecia com a bicicleta. Segurava o guiador junto ao peito, empinava a cabeça para a frente para mais facilmente detetar os obstáculos. Hoje, tornou-se um constrangimento para a minha mobilidade.”

Além das quedas e abalroamentos, o presidente da ACAPO sublinha que é “comum” verificarem-se trotinetes “mal colocadas em cima e no fim das passadeiras” e que, por vezes, as pessoas com deficiências visuais se queixam de “quase serem vítimas de um atropelamento”. “A reação lógica para estas pessoas com deficiências visuais é não sair de casa.”

Questionada sobre que mecanismos a Câmara de Lisboa tem em prática para prevenir que pessoas com deficiências visuais sejam afetadas pela má utilização de trotinetas elétricas, a autarquia aponta para o novo regulamento de mobilidade partilhada - que deve entrar em vigor em 2023. No novo regulamento da Câmara, ao qual a CNN Portugal teve acesso, é assumida uma estratégia tripartida. Por um lado, a autarquia liderada por Carlos Moedas quer regular o estacionamento deste tipo de veículos, “eliminando o número de velocípedes que são largados em qualquer lado causando bloqueios à circulação pedonal” e “constituindo um perigo para cegos e amblíopes, ocupando lugares de estacionamento para deficientes, obstruindo acessos a edifícios e criando um caos visual”. Por outro, a Câmara quer “restringir a circulação dos velocípedes - como as trotinetes elétricas - nas zonas pedonais”, porque “os utilizadores são vulneráveis e estão pouco sensibilizados e informados sobre as regras a cumprir”. Há também a intenção de “obter dados para monitorizar a atividade, planear rede ciclável e restante infraestrutura, designadamente os estacionamentos”. 

As medidas que a Câmara de Lisboa quer colocar em prática surgem num momento em que, desde o início de 2022, já se registaram 88 acidentes com trotinetes elétricas, sendo que resultaram 71 feridos leves e um ferido grave, segundo avançou fonte oficial da Polícia de Segurança Pública à CNN Portugal, referindo também que, nos últimos cinco anos, esta força registou 555 sinistros, que provocaram 13 feridos graves e 441 feridos ligeiros.
 

Média mensal de acidentes com trotinetes elétricas

 

(Dados dos doze meses de 2018, 2019, 2020, 2021 e até maio de 2022 fornecidos pela PSP à CNN Portugal)

Desde 2018, verificou-se "uma subida do número de acidentes, bem como o aumento da gravidade dos mesmos, atendendo à evolução do número de feridos leves e graves”, acrescenta a mesma fonte da PSP, que lança também um apelo a todos os cidadãos que, diariamente ou casualmente, utilizam estes veículos: façam-no “com respeito pelos demais utentes da via pública, quer para a sua segurança quer para a segurança de terceiros”.

Em 2018 houve 29 acidentes, com 21 feridos leves. Em 2019 o número total de sinistros subiu para 169, registando-se 119 feridos leves e 3 feridos graves. Em 2020 existiu uma descida, com 97 acidentes com trotinetes em todo o ano que fizeram 69 feridos leves e dois feridos graves. Em 2021, o número total de acidentes subiu quase 200% (ou seja, praticamente triplicou) com 290 sinistros que resultaram em 245 feridos leves e 7 feridos graves.

 

 

Os dados da PSP não fornecem dados sobre as principais contraordenações cometidas pelos condutores de trotinetes, “uma vez que este tipo de informação não é discriminada pelo tipo de viatura utilizada pelo infrator”, explica a polícia. Precisamente por isso, a Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) está a avançar com um estudo junto de “vários hospitais” para conseguir perceber a dimensão deste problema, “recolhendo informações para quantificar o número de vítimas, caracterizar o tipo de acidentes e a gravidade das lesões sofridas”, garante à CNN Portugal Rosa Pita, vice-presidente desta instituição.

Juntamente com isto, Rosa Pita diz também à CNN Portugal que, dentro de duas semanas, vai enviar um documento ao Ministério da Administração Interna com propostas para melhorar a segurança na circulação das trotinetas elétricas. Nessas recomendações está contemplada, por um lado, a obrigatoriedade do uso de capacete para jovens com menos de 18 anos, mas também a redução da velocidade em zonas pedonais e do limite de idades para quem utiliza o meio de transporte na estrada.

Atualmente, os utilizadores de trotinetes são equiparados a velocípedes, pelo que não podem utilizar o passeio. “Nós recomendamos que as trotinetes possam circular sempre que possível nas ciclovias ou na estrada, desde que esta não tenha um limite de velocidade superior a 50 quilómetros por hora. Defendemos também que os utilizadores com menos de 16 anos apenas possam utilizar as trotinetes nas ciclovias”, afirma a vice-presidente da PRP.

 

 

A imposição de um limite de idade para circular nas estradas surge porque os menores “não conhecem as regras da estrada, passam os sinais vermelhos e não respeitam os sinais de trânsito”, indica também Rosa Pita, sublinhando que estes utilizadores, por não se sentirem confortáveis na rodovia, “andam nos passeios, o que é um perigo para as mães que carregam os filhos, para os idosos e para os cidadãos com mobilidade condicionada”.

Por outro lado, a PRP também vai recomendar ao Governo que, à semelhança do que se faz em Paris, o limite de velocidades para este tipo de veículo em zonas pedonais seja de 10 quilómetros por hora. Rosa Pita alerta também que os condutores de trotinetes são mais propensos a acidentes do que peões, ciclistas e motociclistas. “Isto prende-se pelo facto de a área de contacto da roda com o pavimento ser muito mais pequena - também por causa da pequena dimensão da roda há uma maior instabilidade. Tudo isto associado a comportamentos indevidos, como duas pessoas na mesma trotinete, tornam o transporte muito mais vulnerável a acidentes.”

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