Como as trotinetas elétricas se tornaram "armadilhas mortais" nesta cidade

CNN , Barbie Latza Nadeau com Hada Messia
22 jun, 08:00
Trotinetes elétricas

Desde a sua fundação, há quase 2800 anos, que Roma, a cidade eterna, foi invadida, conquistada e saqueada inúmeras vezes. Cada ataque deixou cicatrizes por toda a cidade, desde as ruínas do Fórum Romano até à caverna do Circo Máximo, onde antigamente havia corridas de bigas.

A deterioração moderna também deixou os cidadãos irritados e fartos do que pode parecer complacência, na que é, sem dúvida, uma das cidades mais bonitas do mundo.

A invasão atual da capital italiana surge por parte das mais de 14 mil trotinetas elétricas. Estas "bigas modernas" bloqueiam os passeios, enervam os condutores e matam.

De acordo com Eugenio Patanè, vereador para o pelouro da mobilidade da Câmara de Roma, desde que se introduziram as trotinetas elétricas há três anos, e estas se tornaram uma alternativa aos transportes públicos durante a pandemia provocada pela Covid-19, quatro pessoas morreram enquanto as utilizavam. Segundo as autoridades de saúde, as emergências hospitalares da cidade tratam, pelo menos, uma lesão grave relacionada com a utilização das trotinetas a cada três dias.

Ainda assim, apenas 2% (cerca de 270) das trotinetas são usadas diariamente.

A Câmara de Roma atribuiu licenças a sete empresas responsáveis pela troca de baterias, realização de arranjos, mudança de trotinetas para áreas com muito tráfego, bem como para tirá-las do rio Tibre.

São as trotinetas que não estão a ser usadas que representam um desafio acrescido, sobretudo para as pessoas com deficiência.

“Uma série de sustos”

Giuliano Frittelli, responsável pela União Italiana para Cegos e Deficientes Visuais, caminha com a sua bengala, perto do seu escritório no centro da cidade, em torno de meia dúzia de trotinetas que ocupam o passeio. Ele diz à CNN que, para as pessoas que não veem, as trotinetas são uma armadilha mortal.

"O primeiro problema é o estacionamento selvagem", diz Frittelli enquanto bate com a sua bengala numa trotineta. Ele explica que a forma invulgar deste meio de transporte faz com que um deficiente visual tropece.

Frittelli acrescenta que uma vez que estas trotinetas são elétricas, isso torna-as silenciosas e faz com que sejam uma ameaça para quem não vê.

"Como não as ouvimos, não podemos contorná-las", diz Frittelli, lembrando-se de um incidente. Uma trotineta passou tão perto de uma pessoa cega, que isso fez com que o seu cão-guia se assustasse e saltasse do passeio. Isto causou o que ele chama de "uma série de sustos". Felizmente, esta situação não provocou nenhum tipo de lesão física.

O grupo de Frittelli trabalha com a Câmara de Roma, de forma a tornar obrigatório o estacionamento das trotinetas em lugares específicos. De igual modo, ele quer que se adaptem as trotinetas, de maneira a que estas produzam um nível de ruído de pelo menos 30 decibéis. Assim, isto serve como um aviso de que estas se aproximam.

Ele diz que não são apenas os portadores de deficiência, incluindo as pessoas que usam cadeiras de rodas, que lutam para usar as ruas quando os passeios estão repletos de trotinetas. Os idosos e os pais que empurram carrinhos de bebé também são afetados.

Giuliano Frittelli, à esquerda, quer que seja obrigatório que as trotinetas estejam estacionadas num lugar específico (CNN)

O vereador da Câmara de Roma para o pelouro do trânsito, Eugenio Patanè, concorda. Ele diz à CNN que, a partir de 1 de janeiro de 2023, a cidade renovará a licença para apenas 9 mil trotinetas e reduzirá para três o número de empresas autorizadas a alugá-las.

Patanè diz que a cidade também pretende exigir que uma percentagem das trotinetas seja colocada nos subúrbios e noutras áreas. Assim, os cidadãos comuns podem usá-las para o que ele refere como "a última milha". Isto faria com que as pessoas fossem de uma estação do metropolitano para as suas casas ou iria permitir que fizessem recados rápidos sem utilizarem o carro.

"As trotinetas são um perigo para as pessoas, mas são, de igual modo, um problema para a cidade e para a sua beleza", diz o vereador. "O centro da cidade foi considerado pela UNESCO como património mundial. Este é muito frágil e temos de cuidar dele."

Ignorar as regras

Há pouco tempo, um turista atirou uma trotineta pelos degraus da Escadaria da Praça de Espanha (Polizia Roma Capitale)

No início de junho, dois americanos foram multados em cerca de 800 dólares por terem atirado uma trotineta pelos degraus da Escadaria da Praça de Espanha. Isto causou danos no mármore frágil avaliados em cerca de 26 mil dólares. O incidente foi filmado pelas câmaras de segurança, bem como por transeuntes que viram um dos turistas a atirar a trotineta de metal pelos degraus. Estes captaram, de igual modo, o som da trotineta a cair pelos degraus.

Patanè diz que as trotinetas elétricas são usadas sobretudo por turistas e jovens.

Muitas vezes, as regras são ignoradas, sobretudo aquelas que proíbem o uso das trotinetas nos passeios e as que limitam a sua utilização a uma pessoa. Os seus utilizadores devem ter, pelo menos, 18 anos. A cidade não pode obrigar as empresas que alugam estes meios de transporte a fornecer capacetes. Por essa razão, poucas pessoas usam este tipo de proteção.

A fiscalização policial é pouco frequente e as multas são raras para os utilizadores das trotinetas que infringem as regras básicas. É difícil impor a regra da não-circulação destes veículos nos passeios, até porque, na grande maioria das vezes, as trotinetas encontram-se aí estacionadas.

Apesar de tudo, as trotinetas parecem fazer sucesso entre os turistas. "Para andar por aí, especialmente no centro histórico, onde é quase impossível viajar de carro, este é o meio de transporte ideal”, disse Walter Hughes, de Dallas, Texas, à CNN.

"Nos cerca de quatro quilómetros que percorremos, não se consegue encontrar um lugar para estacionar o carro. Além disso, faz muito calor para andar durante cinco horas. Por isso, a situação é esta.”

No entanto, nem todos concordam.

Os taxistas, que tiveram de guiar por entre as pessoas e as motocicletas durante anos, dizem que as trotinetas elétricas são um problema muito maior. Eduardo Conticello quase teve muitos acidentes com o seu táxi. Por isso, gostaria que eliminassem as trotinetas totalmente.

Ele diz à CNN que, por inúmeras vezes, as pessoas param de repente à frente do seu táxi ou caem das trotinetas. "Quando as vejo, conduzo muito devagar", explica o taxista. Isto faz com que a duração das suas viagens aumente. Logo, os seus passageiros pagam mais por causa delas. "As trotinetas são muito perigosas."

Mas a vida na cidade eterna nunca foi particularmente fácil nos seus 2800 anos. Como dizem, Roma não se construiu num dia. Assim, os seus problemas também não se resolverão neste espaço de tempo.

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