Escalada na energia já custou mais 1,5 milhões à Carris. Empresas de transporte descartam cortes na oferta, mas trabalhadores já têm uma queixa

7 mai, 09:00
Carris - Transportes públicos gratuitos em Lisboa

Empresas de transporte admitem que os custos com energia estão a pressionar as contas e que a sobrevivência passa por novos apoios do Estado. Apesar dos aumentos, não houve ainda cortes nos serviços, asseguram. Mas os sindicatos alertam que o contexto está a servir para bloquear atualizações nos salários

A subida dos preços da energia está a penalizar as contas das empresas de transportes. Um dos exemplos concretos vem da Carris, onde os combustíveis pesaram, desde janeiro, mais 35% do que há um ano. Contas feitas, são mais 1,5 milhões de euros, segundo dados cedidos pela empresa à CNN Portugal.

Já o Metro de Lisboa assegura que “até à data não se verificou qualquer impacto financeiro”, porque a empresa contrata a energia “por períodos longos com valor fixo por kWh”. Contudo, esse cenário deverá alterar-se já neste mês de maio, quando for assinado um novo contrato de fornecimento de energia, que “já irá refletir um impacto previsivelmente significativo”.

A Transtejo e Soflusa, que realiza as ligações de barco entre Lisboa e a margem sul do Tejo, fala numa “subida de 60% do preço do gasóleo” face ao início do ano. Já a STCP, que assegura o serviço de autocarros no Porto, também reconhece que existe um “aumento do peso dos combustíveis nos custos operacionais”, embora não concretizando a escala.

A Transev, que opera nas regiões Centro e Norte do país, fala numa “escalada imparável desde setembro do ano passado, com o aumento acumulado a fixar-se em mais de 70%”. Os custos com combustíveis representam agora 40% do total, o que torna “as operações insustentáveis sem medidas de suporte” por parte do Governo. “Só o apoio” direto lançado recentemente pelo Executivo até junho, alega a empresa, “é que tem garantido a regularidade da operação”.

Num outro modelo de transportes, o aéreo, a TAP recorda à CNN Portugal a posição assumida em meados de abril, onde dava conta do aumento da sobretaxa de combustível (a taxa YQ) para fazer face ao aumento do preço do petróleo, tal como fizeram concorrentes internacionais.

Sem cortes na operação (e o exemplo de Madrid)

Todas as empresas de transportes contactadas pela CNN Portugal asseguram que, apesar do impacto dos combustíveis nas suas contas, não houve redução de frequência. O serviço, dizem, continua a ser assegurado com a mesma capacidade que existia antes desta crise energética. Na TAP, esse cenário também parece afastado, porque a transportadora prevê oferecer no verão 90% da capacidade que tinha antes da pandemia.

Mas, se em Portugal não estão previstos cortes, o mesmo não se pode dizer de outras realidades. Em Espanha, por exemplo, a Comunidade de Madrid decidiu reduzir a oferta de comboios para lidar com as fortes subidas nos preços da energia: nas horas de ponta são menos 4% e nas restantes menos 10% face à oferta que estava a ser prestada.

Segundo o El Mundo, a fatura mensal do Metro de Madrid passou dos 3,4 milhões de euros em fevereiro de 2021 para os 12,2 milhões no mesmo mês deste ano – ou seja, cerca de quatro vezes mais.

Apesar deste cenário, o Metro de Madrid optou, nos últimos contratos que assinou, por associar as respetivas faturas principalmente ao mercado diário e não a uma tarifa fixa, porque foi aconselhado por uma empresa que o assessora, especializada nesta matéria, a “não ir aos mercados de futuro de taxa fixa”.

A preocupação dos sindicatos

As estruturas sindicais ouvidas pela CNN Portugal confirmam que os custos crescentes da energia não estão a limitar a operação das empresas portuguesas de transportes. Contudo, o cenário tem servido para bloquear outra discussão: a dos aumentos salariais.

“Essa subida generalizada tem servido como justificação, por exemplo, para não colocarem as atualizações salariais em cima da mesa. Alegam que não podem atualizar salários por causa dos custos dos combustíveis”, afirma Manuel Oliveira, do Sindicato Nacional dos Motoristas e Outros Trabalhadores (SNMOT).

José Manuel Oliveira, da Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (Fectrans), corrobora o cenário e assegura que “não tem chegado contestação” por parte de trabalhadores sobre eventuais reduções na oferta.

Até porque, recorda Rui Caleira do SITRA – Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, as empresas recebem apoios estatais pelos serviços prestados. “Não estou a ver nenhuma empresa a evitar as carreiras, porque recebe à validação. Se os carros não andarem, não recebem”, afirma.

Contudo, Manuel Oliveira insiste que existem situações de carreiras que, devido a problemas mecânicos ou falta do trabalhador, acabam por não ser devidamente substituídas, sendo vistas como uma "forma de poupança" nos custos de combustível pelas empresas.

As empresas de transportes, através das associações que as representam, têm feito pressão junto do Governo no sentido de garantir novos modelos de apoio. Em março, a Associação Nacional de Transportes de Passageiros (ANTROP) falava já em prejuízos acima dos 70 milhões de euros.

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