Foram feitos mais de 48 mil transplantes de órgãos nos Estados Unidos no ano passado. Hoje em dia, são comuns, mas a prática era considerada experimental há apenas meio século. Em 2021, por exemplo, Portugal ocupou o 4º lugar no ranking mundial da doação de órgãos de dador falecido com 29,6 dadores pmh, isto é, em paragem cardiorrespiratória com morte por hipóxia. O pódio era ocupado pelos Estados Unidos da América que lideravam, seguidos da Espanha e Irlanda.
Até há poucos anos, os transplantes envolviam quase sempre órgãos humanos. Hoje em dia, as primeiras tentativas de xenotransplante - transplante de órgãos de animais para humanos - estão a abrir potenciais caminhos para salvar vidas.
Aqui está uma retrospectiva de como chegamos a este ponto.
Os animais são a resposta?
O xenotransplante, a prática de transplante de órgãos entre espécies, é um conceito que existe há centenas de anos. No início do século XX, o médico Mathieu Jaboulay transformou a ideia em ação com uma das primeiras tentativas bem documentadas de fazer um órgão animal funcionar num ser humano. Em 1906, em Lyon, França, Jaboulay anexou um rim de porco ao cotovelo de uma mulher de 48 anos, escolhendo o local por ser de fácil acesso. O sangue circulava pelo rim e este produzia urina, algo que nem mesmo algumas doações humanas nesse período conseguiam, mostram os estudos feitos à data. Mas o rim do porco falhou rapidamente e o paciente morreu logo depois devido a uma infeção.
“A falta de acesso imediato a órgãos humanos sempre foi uma espécie de Santo Graal, a ideia de que haveria algo em reserva que não exigisse a morte de um ser humano para que outro vivesse”, afirma Jeffrey Stern, médico e membro sénior da equipa de xenotransplantes do Instituto de Transplantes Langone da Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. “Obviamente, os animais como fonte são uma espécie de versão ideal disso”.
O primeiro transplante humano bem-sucedido
À direita: Richard Herrick viveu oito anos depois de receber o rim do seu irmão gémeo (Fotografia: Hospital Brigham and Women's)
Em 1954, o primeiro transplante de órgão humano bem-sucedido do mundo foi realizado pelo médico Joseph E. Murray naquele que hoje é chamado de Brigham and Women's Hospital, em Boston.
Murray retirou um rim de Ronald Herrick, de 22 anos, e transplantou-o para Richard Herrick, o seu irmão gémeo. Como eram gémeos idênticos, o sistema imunitário de Richard considerou o novo órgão como seu, o que o impediu de rejeitar o órgão estranho. Richard Herrick viveu mais oito anos e o seu irmão dador de órgãos não apresentou efeitos colaterais prejudiciais.
“Acho que isso mudou realmente o campo [de ação nesta matéria]”, admite o médico Stefan Tullius, chefe da Divisão de Cirurgia de Transplante do Brigham and Women's Hospital.
“O que isto mostrou é que se tivermos a combinação e a relação certss entre dador e recetor, então pode-se realmente transplantar um órgão e isso vai funcionar”, assegura Tullius.
Como os medicamentos imunossupressores ainda não estavam disponíveis à data, as experiências de transplante pareciam funcionar apenas com gémeos cujos sistemas imunitários pensavam que o órgão estranho era o deles.
"Ainda hoje enfrentaremos todos estes problemas, e pelos próximos 30 anos [também], com o sistema imunitário", admite Stern, que também é professor assistente no Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Grossman da Universidade de Nova Iorque. "Nem toda a gente tem um gémeo idêntico".
Mais dadores
(Fotografia: Bill Polo/The Boston Globe/Getty Images)
Na década de 1960, Murray demonstrou em várias experiências com cães que um transplante de órgão seria mais bem-sucedido se o receptor recebesse medicamentos para suprimir o sistema imunitário após o procedimento, de modo a diminuir a probabilidade de rejeição.
Em abril de 1962, pela primeira vez em todo mundo, com base no que aprendera com as experiências já levadas a cabo, Murphy transplantou um rim de um dador falecido para um humano sem parentesco entre ambos. O recetor do órgão foi tratado com um imunossupressor chamado azatioprina. O paciente sobreviveu durante mais de um ano e o seu tempo de sobrevida aumentou ainda mais quando os médicos descobriram que um imunossupressor funcionava melhor se administrado em conjunto com o esteróide prednisona.
Em junho de 1963, um dos investigadores da equipa de Murray, o cirurgião belga Guy Alexandre, realizou o primeiro transplante de um dador em morte cerebral, um procedimento controverso na época. Alexandre estava à procura de um rim para um paciente com insuficiência renal quando uma mulher que tinha sofrido um acidente de carro foi levada ao seu Hôpital Saint-Pierre, em Bruxelas, na Bélgica. O seu coração estava a bater, mas a mulher não apresentava atividade cerebral. Sabendo que os órgãos perdiam a viabilidade assim que o coração de um paciente parava, Alexandre obteve permissão do chefe do seu departamento para transplantar o rim da mulher no seu paciente com insuficiência renal. A recetora viveu mais 87 dias.
Nos anos seguintes, Alexandre realizou secretamente outros transplantes renais com recurso a órgãos de dadores em morte cerebral para verificar se tal abordagem prolongaria o tempo de sobrevivência em comparação com transplantes de dadores cujos corações tinham parado. Alexandre divulgou os resultados num congresso médico alguns anos depois, mas com reações mistas.
Somente em 1968 é que um comité da Faculdade de Medicina de Harvard publicou a sua recomendação de que a perda irreversível da função cerebral – antes chamada "coma irreversível" – seria um novo critério para morte. Posteriormente, os transplantes que envolvessem dadores em morte cerebral tornaram-se mais comuns, expandindo enormemente o conjunto de órgãos disponíveis para este tipo de procedimento.
“Criar uma definição de morte cerebral como alternativa à morte cardíaca - ou seja, a interrupção da circulação - foi fundamental, porque permitiu a obtenção de órgãos”, diz Tullius.
Tentativa e erro
À direita: Isabelle Dinoire, que perdeu parte do rosto após um ataque de um cão, recebeu o primeiro transplante parcial de rosto do mundo em 2005. Bernard (Fotografia: Wis/Paris Match/Getty Images)
Os médicos especialistas em transplantes começaram a fazer experiências com rins porque os humanos têm dois e conseguem sobreviver apenas com um. Os pacientes também tinham a opção de fazer diálise caso o transplante falhasse. Mas quanto mais os médicos aprendiam, mais confiantes ficavam de que poderiam transplantar outros órgãos.
No final da década de 1960, começaram as experiências com fígados e pâncreas e, em 1967, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard, do Hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo, realizou o primeiro transplante de coração. Barnard transplantou o coração de um homem de 25 anos para um comerciante de 53 anos que estava a morrer de doença cardíaca crónica. O comerciante morreu 18 dias depois de uma infeção pulmonar, mas o coração continuou a bater até à sua morte.
O segundo paciente de transplante cardíaco de Barnard viveu quase 19 meses. E o sucesso veio depois: o quinto e o sexto pacientes viveram quase 13 e 24 anos, respetivamente.
Na década de 1990, imunossupressores como ciclosporina e tacrolimus abriram novas possibilidades para transplantes de múltiplos tecidos. Em 1998, o médico Jean-Michel Dubernard realizou o primeiro transplante cirúrgico de mão em Lyon, França. Em 2005, Dubernard e o seu colega Bernard Devauchelle realizaram o primeiro transplante parcial de face para Isabelle Dinoire, uma mulher que perdeu parte do rosto após ter sido atacada por um cão. Em 2010, uma equipa espanhola liderada pelo médico Juan Barret realizou o primeiro transplante de face completo.
“Nos primeiros 30 anos do transplante, tudo era um pouco experimental, certo?”, admite Stern. “Não era algo comum fazer o que fazemos hoje. E era muita tentativa- erro e sobrevivência, e todo o campo do transplante, acho, era muito ténue nesse aspeto. Foi a adaptação e a invenção de novas tecnologias que permitiram que o transplante se tornasse comum”.
A bebé Fae
Em 1984, o médico Leonard Bailey tentou salvar a vida de Stephanie Fae Beauclair na Universidade Loma Linda, na Califórnia. A criança, que ficou conhecida como Bebé Fae, nasceu com uma doença cardíaca fatal, e Bailey, que já estava a fazer experiências com transplantes interespécies em animais, obteve permissão para transplantar um coração de babuíno. Stephanie viveu apenas mais 21 dias, mas o caso gerou mais consciencialização sobre a necessidade de doações de órgãos de bebés e a possibilidade de transplante interespécies. Por fim, os cientistas decidiram que os primatas, embora evolutivamente fossem os primos mais próximos dos humanos, não eram os melhores dadores de órgãos.
"Os primatas mostraram-se muito pequenos, muito caros e muito controversos", explica o especialista em ética médica Art Caplan, que trabalha com casos de transplante na Universidade de Nova Iorque. Havia também a preocupação com a infeção. Os primatas não humanos podem ser portadores de uma variedade de patógenos que não lhes são prejudiciais, mas que podem causar doenças em humanos, incluindo o vírus de Marburg e o vírus da imunodeficiência humana, o VIH, causador de Sida.
Por fim, os cientistas perceberam que os porcos seriam uma opção melhor: são anatomicamente semelhantes aos humanos, reproduzem-se rapidamente e há um risco reduzido de doenças zoonóticas.
Tecnologia vencedora do Nobel
Um estudo sobre xenotransplante estagnou até o desenvolvimento da ferramenta de edição genética CRISPR no início dos anos 2000. Essa tecnologia, vencedora do Nobel, permitiu aos cientistas editar o genoma do porco para torná-lo mais compatível com o dos humanos, incluindo a eliminação de sequências-chave no ADN do porco que resultariam na rejeição quase automática de órgãos em humanos. A combinação disso com técnicas de clonagem deu aos cientistas a possibilidade de manter uma genética consistente e produzir dadores suínos universais.
“A clonagem e a aplicação do CRISPR [Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats (Repetições Palindrómicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas)], a possibilidade de edição genética, estão realmente permitindo não apenas o transplante, mas também são relevantes para outras áreas da medicina”, adianta Tullius. “Eu colocaria isso na categoria de revolucionário”.
Um passo mais perto
Os órgãos de porco foram transplantados para primatas não humanos, mas o verdadeiro teste veio em setembro de 2021, quando um rim de porco geneticamente modificado foi transplantado para um paciente com morte cerebral na NYU Langone, em Nova Iorque.
O rim foi ligado aos vasos sanguíneos da parte superior da perna do recetor, fora do abdómen, por 54 horas, enquanto os médicos estudavam o seu funcionamento. O órgão pareceu funcionar tão bem quanto um transplante de rim humano e os médicos não observaram nenhum sinal de rejeição.
"Aprendemos mais com isso do que com qualquer outra coisa que já fizemos", reconhece Robert Montgomery, um dos cirurgiões que realizaram o procedimento, em declarações ao correspondente médico da CNN, Sanjay Gupta. "Foi realmente a base para descobrirmos como tratar a rejeição em nossos pacientes vivos".
“A família aprovou gentilmente a doação do corpo do seu ente querido para este procedimento. Essa extraordinária generosidade abriu caminho para este grande passo na criação de um suprimento sustentável de órgãos que salvam vidas e, esperançosamente, acabar com o paradigma atual de que alguém precisa morrer para que alguém viva”, disse Montgomery num comunicado à imprensa na época.
A fazer história
A 7 de janeiro de 2022, cirurgiões da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, realizaram o primeiro xenotransplante numa pessoa viva. David Bennett, de 57 anos, não conseguia andar e dependia de uma máquina de ponte de safena artificial para sobreviver. Bennett estava demasiado doente para se qualificar para um coração humano, mas conseguiu submeter-se ao procedimento experimental sob o programa de uso compassivo da Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, que permite que pacientes sem outras alternativas tenham acesso a tratamentos experimentais.
Bennett viveu mais dois meses, tendo a oportunidade de passar mais tempo com a sua família e assistir ao Super Bowl.
“Como acontece com qualquer cirurgia de transplante pioneira no mundo, esta levou a compreensões valiosas que, esperamos, informarão os cirurgiões de transplante para melhorar os resultados e potencialmente fornecer benefícios que salvam vidas para futuros pacientes”, afirmou, à data, o cirurgião Bartley Griffith.
Bennett foi o primeiro de uma série de pacientes submetidos a xenotransplante compassivo. Mas, à medida que os cientistas se aproximam dos ensaios clínicos, esperam ter uma melhor compreensão do sucesso dos órgãos em circunstâncias mais típicas.
“A promessa do xenotransplante é a promessa de esperança para os nossos pacientes. Uma esperança para o futuro que, por muito tempo, foi incerta. É esperança transformada em possibilidade e, em seguida, em realidade. Os nossos pacientes podem voltar a sonhar com licenciaturas, casamentos... com a vida. A esperança não deveria ser racionada”, adianta Jayme Locke, professor de cirurgia na NYU Langone.
Órgãos personalizados
“Vários pontapés até ao golo” é como o geneticista David Ayares descreve a abordagem da United Therapeutics para o futuro do transplante de órgãos. Neste verão, a empresa embarcará no primeiro ensaio clínico de xenotransplante da FDA.
"Então, em vez de transplantes compassivos de uso único, que foram muito valiosos para aprender como otimizar e estender a sobrevivência desses pacientes, agora podemos fazer um estudo multicêntrico", esclarece Ayares, presidente e diretor científico da Revivicor, uma subsidiária da United Therapeutics, a Gupta.
Mas isso ainda não será suficiente para resolver completamente a escassez de órgãos, então a United Therapeutics e outros na comunidade de transplantes continuam a pensar num futuro mais distante. "Acho que a próxima coisa que faremos é... criar órgãos personalizados sem precisarmos usar imunossupressão", prevê Montgomery sobre o que espera para o futuro.
Isso poderia significar usar um órgão de porco como estrutura onde cientistas poderiam semear células-tronco humanas, ou até mesmo imprimir órgãos em 3D.
“Então tem um órgão de design para essa pessoa quando ela precisar”, vinca Montgomery.