A filha disse à mãe: o meu fígado é teu. O que se passou a seguir é histórico em Portugal e mais além

4 ago 2025, 22:32

Transplante inédito com dois robôs salva uma mãe - foi um ato de amor e um marco na medicina europeia

Foi uma cirurgia sem precedentes na Europa, é também uma história profundamente humana.

No bloco operatório do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, a medicina escreveu uma nova página com precisão robótica, inovação tecnológica e um vínculo inquebrável entre mãe e filha. Pela primeira vez, um transplante de fígado com dador vivo foi realizado em simultâneo com dois robôs cirúrgicos.

Laura, a mãe, sofria de uma doença hepática crónica com patologia oncológica. A espera por um fígado compatível era arriscada. A solução veio de dentro da família: a filha, Vanessa, de 38 anos, foi considerada compatível depois de meses de testes e avaliações clínicas. Aceitou sem hesitar.

“Estava completamente convicta de que ia correr tudo bem”, conta à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal). A mãe teve medo: “Quando cheguei ao bloco vi aquelas luzes todas em cima de mim - vou ser franca, só me apetecia fugir”.

No dia 4 de julho, tudo se alinhou para o momento histórico. Em duas salas distintas do bloco operatório, duas equipas trabalharam em perfeita sincronia: uma extraía parte do fígado de Vanessa, a outra removia o fígado doente de Laura. Tudo com o auxílio de dois robôs cirúrgicos, controlados por cirurgiões experientes.

“Fazem-se cinco orifícios, em quatro dos quais se utilizam as pinças do robô. Quer a câmara quer as pinças são inteiramente controladas pelo cirurgião. No fundo, é como se estivesse dentro do abdómen da pessoa que está a ser operada”, explica Hugo Pinto Marques, diretor do Centro Hepatobiliopancreático e da Transplantação da Unidade Local de Saúde de São José.

Ao todo, foram nove horas de cirurgia robótica em simultâneo, um feito que só foi possível graças ao facto de a ULS São José ser a única unidade do Serviço Nacional de Saúde equipada com dois robôs cirúrgicos. O resultado?

Mãe e filha tiveram alta poucos dias depois e, um mês após o transplante, ambos os fígados já regeneraram quase na totalidade. “Sinto-me muito bem, muito confiante de que esta é uma nova oportunidade que me foi oferecida”, afirma Laura, visivelmente emocionada.

Para a equipa médica, o sucesso do procedimento representa mais do que um avanço técnico - é também uma afirmação da capacidade do SNS em inovar com impacto real na vida dos doentes. “Isto é um bom exemplo porque melhoramos a prestação de cuidados que prestamos aos doentes. E permite-nos captar profissionais cada vez mais jovens que querem fazer a sua carreira tendo sempre a inovação e o conhecimento ao lado”, diz Rosa Valente de Matos, presidente do conselho de administração da ULS São José.

Esta unidade já realizou desde 2019 cerca de 2.700 cirurgias robóticas. No campo dos transplantes com dador vivo, somam-se agora 91 intervenções. 14 de fígado e 77 de rim.

“Há sempre um princípio: emost de ter extremo cuidado com todos os doentes sujeitos a cirurgias, mas com o dador há uma preocupação extrema. Não queremos que o dador se torne um doente porque não é um doente”, salienta Rui Leal, enfermeiro gestor do Hospital Curry Cabral. 

No final, além dos dados técnicos e do pioneirismo europeu, fica o gesto - o gesto de Vanessa, que deu mais do que um órgão: deu à mãe mais anos e qualidade de vida. “Os familiares que possam doar, façam isso. Não tenham receio”, apela.

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