Prepare-se: o tempo da energia barata terminou. As consequências serão “extremamente sérias”

19 set, 15:07

A recessão na Alemanha é inevitável. Os fundos comunitários prometidos a Portugal não estão garantidos. Nem o Turismo. Os governos populistas vão proliferar. Michael Shellenberger é ativista ambiental e deixou uma visão muito pessimista sobre o futuro na conferência da CNN Portugal

As opções para produzir energia são muito limitadas e as intervenções dos governos europeus no setor apenas vão trazer instabilidade e a proliferação de populistas e nacionalistas.

A garantia foi deixada por Michael Shellenberger, ativista ambiental e grande defensor da energia nuclear durante a intervenção realizada na conferência organizada pela CNN Portugal sob o tema “A transição energética e a importância do ESG (Environmental, Social and Governance) nas empresas.”

Numa intervenção sob tema “The War on Nuclear: Why It Hurts Us All”, Shellenberger defendeu que estamos “no fim de uma era” de energia barata na Europa e a nova realidade terá consequências “extremamente sérias”.

Para este ativista, as opções de produzir mais energia “são muito limitadas” e o facto de a política estar a tomar conta do setor energético vai impedir que haja “estabilidade na Europa nos próximos cinco a dez anos”. Os governos europeus começaram a tomar conta do setor energético, entrando a energia no “caos” da política, que proporciona instabilidade, assegura Shellenberger.

“Vai haver um surgimento do populismo e do nacionalismo. É essa a realidade. Já temos um governo de direita na Suécia, vamos ter em Itália. O que é que pensam que vai acontecer na Alemanha e neste continente?", interrogou o ativista.

Na visão pouco otimista sobre o futuro, Shellenberger também não deixou Portugal de fora. “Ainda estamos numa grande bolha, há uma enorme quantidade de gastos em estímulos que permitiu muito turismo para países como Portugal. Isso não vai continuar”, vaticinou.

Dando o exemplo da Alemanha, país para o qual é esperada uma redução do Produto Interno Bruto, Shellenberger afirmou que uma “grave recessão” é “inevitável”.

“Vocês são parte de uma economia integrada. O que acontece na Alemanha vai afetar-vos. Será que os 50 mil milhões que a Europa prometeu transferir para Portugal nos próximos cinco anos chegarão?”, questionou.

O ativista considera também que um teto aos preços da energia “não baixa os preços da mesma, apenas tira o fardo do aumento aos consumidores”, e defendeu também que a estagflação vai acontecer. “É assustador para todos nós, mas sobretudo para a Europa”.

Shellenberger passou, então, à defesa da energia nuclear, começando por apontar os problemas com as energias renováveis, das quais foi defensor entre 2002 e 2010.

O ativista defendeu que maioria dos países com energia limpa atingem esse marco recorrendo ao nuclear, comparando as emissões da França, muito dependente do nuclear, e da Alemanha.

O autor procurou também desmistificar a ideia de que a energia nuclear é cara. “Uma central nuclear é mais cara que o parque eólico ou uma central fotovoltaica, mas tornam a eletricidade barata. As renováveis são baratas, mas tornam a eletricidade cara, não são fiáveis e requerem muitos custos adicionais”.

Michael Shellenberger referiu também que a energia nuclear “é a mais segura” das fontes fiáveis de eletricidade, uma vez que não é poluente. O ativista disse também que a energia nuclear se pode tornar “cada vez mais barata com a construção contínua dos mesmos reatores”.

"O nuclear é a solução?"

No debate “O nuclear é a solução?”, estiveram frente-a-frente João Joanaz de Melo, Doutorado em Engenharia do Ambiente, e Luís Guimarães, Doutorado em Fusão Nuclear.

João Joanaz de Melo afirmou que o nuclear “não é o diabo”, mas que também não faz parte da solução, defendendo que não se devem construir mais centrais nucleares.

“Não é certamente uma solução, nem a parte principal da solução, mas eu não afastaria liminarmente o nuclear. Não é uma boa ideia construir novas centrais nucleares. Não é uma solução estrutural a longo prazo, mas também não é o diabo”, afirmou.

Para o engenheiro, o problema está na elevada intensidade e consumo energético. “Já estamos a ultrapassar todos os limites ambientais, não só os do ecossistema como também os nossos. Temos problemas sistémicos graves não só devido às alterações climáticas, mas também com a contaminação com a poluição. Temos de pensar em reduzir o nosso impacto e isso passa por sermos mais eficientes. Consumimos demais, a nossa intensidade energética é muito grande. Há que mudar as mentalidades e reduzi-la”, explicou.

Joanaz de Melo salientou que o nuclear não contribui para essa diminuição. “É uma tecnologia extremamente sofisticada, altamente centralizada, muito pouco resiliente, como estamos a ver em Zaporizhzhia. Felizmente, não há muitos exemplos, uma vez que o custo de manter uma central nuclear a funcionar de forma segura é muito alto. Os custos de nuclear nunca incluem o desmantelamento”.

Em resposta, o físico Luís Guimarães afirmou que o nuclear “faz parte da solução”.

“Precisamos de todas as fontes de baixo carbono ao mesmo tempo na sociedade”, disse, argumentando também que o tempo de vida dos reatores já não é o mesmo que se perspetivava anteriormente. “Vemos já reatores a chegar aos 80 anos de vida, na Suíça e no México, começaram a operar antes do Homem ir à Lua e continuam em operação”.

Procurando desmistificar os medos em torno do nuclear, o físico queixou-se que este tipo de energia foi “corrido” do debate. “O nuclear foi completamente corrido, houve uma dogmatização do tema, foi sendo diabolizado cada vez mais. Ao mesmo tempo, é impossível criticar as renováveis. Não sou contra as renováveis, mas tornou-se impossível criticar a via para a descarbonização”, apontou.

Luis Guimarães considera também que “há muito ‘wishful thinking’” em torno da transição energética, dando o exemplo das empresas do setor, e refere que a diminuição do consumo de energia não é solução para toda a gente.

“A ONU defende que o nuclear tem de fazer parte da matriz energética. Temos de arranjar eletricidade barata, e eu não estou a ver as pessoas em África ou no Médio Oriente interessadas em diminuir o consumo de energia”, sublinhou.

É preciso assegurar o futuro

Ainda antes da discussão sobre o nuclear, António Correia, da PwC, alertou para as consequências da invasão russa da Ucrânia e para as alterações climáticas.

O Territory Senior Partner da consultora alertou que, para serem cumpridas as metas climáticas até 2050 e atingir a neutralidade carbónica, é necessário investir “entre um a três triliões de dólares por ano, cerca de 2% do PIB mundial” anual, e apelou aos presidentes executivos e dirigentes empresariais para aplicarem as medidas necessárias para assegurar o futuro.

“Nas empresas, não somos uma mera coleção de técnicos, mas uma marca, um caminho, uma forma de estar e construir a sociedade”, afirmou António Correia.

A seguir à intervenção do ministro da Energia e da Ação Climática Duarte Cordeiro, que pode consultar nestes dois links, o presidente executivo da Galp, Andy Brown, falou sobre os desafios energéticos globais.

O responsável da petrolífera afirmou que há uma “necessidade urgente” de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, e enumerou “três pilares importantes” para um sistema energético equilibrado: a energia tem de “ser barata”, “estar disponível” e “ser sustentável”, comentando que, no contexto atual, os primeiros dois pilares têm tomado prioridade sobre o terceiro. “É evidente que 2022 tem sido um ano de retrocesso. A única maneira de combater as alterações climáticas é acelerar o aumento da produção de renováveis”.

Referindo que esta pode ser a “primeira crise” do processo de transição energética, Andy Brown relembra que a guerra na Ucrânia não é a única culpada pelo aumento dos preços, dando o exemplo do preço do petróleo, que estava mais elevado antes do início do conflito do que atualmente.

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