Gostam de correr riscos, têm dificuldade em lidar com a monotonia, querem sentir poder e controlo. O caso de Adam Levine e dos traidores compulsivos

23 set, 09:00
Casal (Pexels)

Traem os companheiros vezes sem conta, num comportamento compulsivo que dizem não conseguir parar. E que é comparável ao de comportamentos aditivos que integram o Dicionário de Saúde Mental, como é o caso do binge eating, dependência de álcool ou vício do jogo

"Instintivamente, a monogamia não está na nossa genética. As pessoas traem. Eu já traí. E sabem uma coisa? Não há nada pior do que a sensação de o fazer". A frase é de Adam Levine, o vocalista dos Maroon 5, em entrevista à Cosmopolitan em 2009. Casado com Behati Prinsloo desde 2014, o cantor norte-americano tornou-se no assunto da imprensa internacional depois de ser acusado de trair a modelo, grávida do terceiro filho do casal, com a também modelo Sumner Stroh, de 23 anos.

No TikTok, a jovem expôs Adam Levine, revelando que se envolveu com ele em 2020, quando tinha 19 anos e ela era "nova em Los Angeles", mostrando ainda mensagens trocadas entre os dois já em junho deste ano e nas quais o cantor lhe pergunta se, caso o terceiro filho seja um rapaz, lhe pode chamar Sumner. 

Afirmando que só está a contar a história porque um amigo com quem partilhou as capturas de ecrã as tentou vender a um tablóide, Sumner Stroh acabou por ser a primeira de várias mulheres que divulgaram que Adam Levine lhes mandava mensagens, algumas com conteúdo sexual explícito, através das redes sociais.

Num curto comunicado no Instagram, o músico assume que errou e diz que "passou das marcas", chegando a ser "inapropriado". Sublinha também que a família é o mais importante e que está a trabalhar com a sua para corrigir o que aconteceu.

"Falhei ao ter falado com outras pessoas para além da minha mulher. Não tive um caso mas, ainda assim, passei das marcas durante um período da minha vida do qual me arrependo. Em determinadas circunstâncias tornou-se inapropriado. Percebi isso e tomei medidas para o corrigir com a minha família. A minha mulher e a minha família são as únicas coisas com que me importo no mundo. Ter sido inocente e estúpido o suficiente para arriscar a única coisa que realmente importa para mim foi o maior erro que cometi. Nunca mais cometerei esse erro novamente. Assumo todas as responsabilidades. Vamos ultrapassar isto e ultrapassá-lo juntos", afirmou o músico.

À revista People, uma fonte próxima do cantor garante que as mensagens para outras mulheres que não Behati Prinsloo aconteceram porque Levine "precisa de atenção". "Ele trocava mensagens com ela, tinha flirts com outras três mulheres. (...) Porque é que ele fez isto? Porque gosta de atenção. É do que ele gosta mais".

Conceito de traição não é universal

Filipa Jardim da Silva, psicóloga especializada em psicologia clínica e da saúde, explica em entrevista à CNN Portugal que o conceito de "traidores compulsivos" (ou de serial cheaters como lhes chama o El País), ainda não integra o DSM mas, "de alguma maneira", é percetível que "existem padrões de repetição e padrões que comportam algum nível de adição".

"Muitas vezes algumas pessoas até referem como um ato ou uma tentação de traição um bocadinho incontrolável e impulsiva e é nesse sentido que esse comportamento, tal como outros padrões de comportamentos mais impulsivos e mais sentidos como descontrolados têm sido estudados", revela a especialista.

Também Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense, considera que "em algumas pessoas, um comportamento repetido de traição pode assumir características de um comportamento compulsivo".

"Falamos de um comportamento que surge em sequência de pensamentos, fantasias ou imagens persistentes e obsessivas, que a pessoa não consegue controlar e que geram um aumento ansiedade. Ao ter este comportamento, a ansiedade diminui e há uma sensação de alívio e de prazer. No entanto, esta sensação de alívio e de prazer pode ser temporária, o que leva a ciclos de obsessão-compulsão, que tendem a repetir-se no tempo. Nestas situações, e do ponto de vista clínico, a situação pode ser abordada enquanto uma perturbação obsessivo-compulsiva".

No entanto, apesar de se repetirem no tempo, o facto de o tema da traição ser "multifactorial" e deste conceito não ser "universal", variando de pessoa para pessoa para pessoa, dificulta, muitas vezes, a compreensão e definição do que é ou não uma traição.

Filipa Jardim da Silva diz mesmo que, em algumas dinâmicas conjugais, o que um membro do casal pode considerar traição, o outro pode não o considerar, o que "comporta alguns desencontros nas relações e alguma dificuldade até em algumas pessoas assumirem que têm este tipo de comportamentos".

"Quando entramos em comportamentos que são repetidos e que são compulsivos, entramos nos parâmetros de comportamentos aditivos. E sabemos que a conquista de uma outra pessoa, mas também o envolvimento sexual, seja físico ou a troca de mensagens, o conquistar uma outra pessoa e o envolver-se efetivamente sexualmente com outra pessoa, tudo isto despoleta a segregação de endorfinas e de adrenalina. E é aqui que isto se torna tão aditivo e que entra no espectro de comportamentos aditivos como entram outros comportamentos como binge eating, consumo de substâncias, álcool, nicotina".

Vício e descontrolo levam ao sofrimento do outro

Depois de Sumner Stroh revelar que tinha tido um caso com Adam Levine, outras mulheres (uma delas estudante universitária) surgiram a revelar que também elas tinham trocado mensagens com o cantor, algumas com conteúdo sexual explícito. No total, cinco mulheres revelaram ter estado em contacto com o vocalista dos Maroon 5 e, segundo o Daily Mail, uma delas diz mesmo que o alertou para o comportamento que não era correto num homem casado. 

À CNN Portugal, as especialistas afirmam que esta procura por interações com outras pessoas que não a pessoa com quem se tem uma relação pode acontecer por vários motivos, sendo as três grandes categorias as questões pessoais (crenças da pessoa/nível de autoestima), a dinâmica da relação e as questões de contexto e situacionais (como viagens, acesso a redes sociais e a outros).

No caso das traições que se repetem continuamente numa relação, tratam-se de "pessoas que entram no espectro da adição e do descontrolo", com dificuldade "de controlo de impulsos".

"Neste caso falamos de traição, mas podem ser compras compulsivas, pode ser jogo, álcool, drogas, comida. A estrutura em termos cerebrais e o funcionamento do que acontece é muito semelhante. E, por isso, é que a primeira das indicações é que, quando numa relação ou uma das pessoas percebe que está a ter um comportamento repetido ou começa uma escalada de comportamentos e que algo está a fugir do controlo, recomendamos sempre a procura de um apoio psicológico para que esta pessoa possa compreender em primeiro lugar o que está a acontecer com ela", explica Filipa Jardim da Silva.

Até porque, segundo a especialista, "muitas vezes as pessoas não assumem que têm um problema porque ainda não estão do lado do sofrimento, ainda só estão do lado da adrenalina e de uma satisfação imediata repetida e recusam-se, ou não têm capacidade muitas vezes em termos emocionais/cerebrais/cognitivos, de criar a distância suficiente para refletirem com crítica acerca daquele comportamento". 

As redes sociais como gatilho

"Há pessoas que não têm esta noção de que quando ficam frustrados com o/a parceiro/a dão por eles a deambular numa qualquer rede social e a meter conversa com outras pessoas. Não têm esta perspectiva desta ação e efeito, destes gatilhos".

Para as especialistas, no caso dos traidores compulsivos, as ações surgem "de um lugar de adrenalina imensa" em que apenas querem satisfazer "um impulso primário ou animal" e que não "é um bom lugar para se estar".

E é aqui que as redes sociais vêm complicar as relações. Segundo Filipa Jardim da Silva, "há muitas pessoas que não consideram que estar numa rede social a conhecer pessoas novas (muitas vezes em conversas com conteúdo de provocação, de alguma sedução ou até de caráter mais sexual ou erótico), é uma traição".

"Consideram isso como um escape, como um comportamento que os relaxa, que os faz sentir mais confiantes nas mulheres e nos homens que são, mas não encaram isso como uma traição", afirma, explicando que, muitas vezes, só quando procuram apoio psicológico é que conseguem perceber que o comportamento que tiveram online foi uma traição.

A especialista explica ainda que "há muitas pessoas que fazem a separação entre aquilo que não sai do online e que não é considerado uma traição e aquilo que sai do online e é uma traição" e que "convencem-se que o que se passa entre dois ecrãs não é real".

"Mas a verdade é que o que se passa entre dois ecrãs, se acontece entre duas pessoas reais, tem uma componente real. Não é porque é no online que não implica pessoas de carne e osso, com emoções, com necessidades muito concretas. As noções de limite e de respeito têm sido muito atacadas por este facilitismo de tudo o que acontece no digital e isso é um dos temas que mais tem surgido em psicoterapia e terapia de casal".

Como resolver o problema?

A procura de ajuda, acontece muitas vezes durante as sessões de terapia conjugal onde existem também sessões individuais e "se percebe que aconteceu uma traição e que o/a parceiro/a não sabe disso". Ou quando, "confrontado em terapia de casal com a existência de uma traição, não é a primeira vez, e que no passado já teriam existido traições a outros companheiros".

Mas, mesmo neste contexto, Filipa Jardim da Silva explica que muitas vezes existe uma desresponsabilização e falta de "sentido crítico" face ao problema. "O discurso está focado no sentido de 'nessa situação, a responsabilidade foi daquela pessoa, nesta, foi isto'".

"Quando este é o discurso, percebemos que ainda há aqui um passo a dar que é o da responsabilização pelos atos e o de reconhecer que algum destes comportamentos pode ser nefasto para mim e para o outro. Porque a verdade é que, por mais prazer que qualquer comportamento nos dê, como o envolvimento com outra pessoa que não está numa relação connosco, este comportamento vem de um lugar de descontrolo".

Rute Agulhas, por sua vez, afirma que "é importante salientar que estas pessoas apresentam frequentemente algumas características que devem também ser alvo de uma intervenção psicoterapêutica, nomeadamente: mentir patológico, baixa autoestima ou sentimentos de inferioridade, com uma forte necessidade de sentirem que se gosta delas, gosto em correr riscos, com grande necessidade de estimulação, e dificuldade em lidar com a monotonia, necessidade de sentir poder e controlo".

"Em algumas situações, de pior prognóstico em termos de mudança, o comportamento sexual promíscuo, a mentira patológica e a necessidade de estimulação aliam-se a um sentido grandioso do valor de si próprio, a um comportamento manipulador, a superficialidade afetiva, impulsividade e a um deficiente controlo comportamental. Características que se relacionam com traços de psicopatia", afirma a especialista, acrescentando que esta situação "requer intervenção psicoterapêutica, muitas vezes aliada a intervenção psiquiátrica".

Rute Agulhas diz mesmo que, muitas vezes, "a pessoa não reconhece a situação como sendo um problema e, consequentemente, não experiencia um genuíno desejo de mudança".

Uma análise partilhada por Filipa Jardim da Silva, que considera que o "acompanhamento psicológico é decisivo e que em alguns momentos pode ter de ser complementado depois com outros tipos de intervenções, nomeadamente com acompanhamento psiquiátrico", mas que isso "depende muito do grau do comportamento e da severidade da adição".

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