Estes militares exerciam assim a autoridade do Estado como forma de coação sobre as vítimas
Os dez militares da GNR detidos esta terça-feira, na sequência de uma megaoperação da Polícia Judiciária contra o tráfico humano, atuavam fardados na vigilância e imposição de trabalhos forçados a migrantes em condições de semiescravidão.
Ao que a CNN Portugal apurou, em várias situações denunciadas por testemunhos das vítimas ou de terceiros, os militares deslocavam-se com as fardas de serviço da GNR às propriedades agrícolas onde as vítimas eram exploradas, concretamente em Cabeça Gorda, Beja.
Estes militares exerciam assim a autoridade do Estado como forma de coação sobre as vítimas.
Dez militares da GNR e um agente da PSP foram detidos e alvo de buscas em casa e nos postos de trabalho, esta terça-feira, assim como seis civis que foram alvo da mesma operação da Polícia Judiciária por uma série de crimes violentos relacionados com a exploração e o escravizar pela força, através de um clima de terror a que sujeitam as comunidades de migrantes indostânicos que trabalham em propriedades agrícolas da zona de Beja, apurou a CNN Portugal.
A Unidade de Contraterrorismo teve apoio de elementos de outras áreas da PJ, com cerca de duas centenas de inspetores no terreno - e o epicentro da operação é a freguesia de Cabeça Gorda, nas propriedades onde as vítimas são exploradas em trabalhos forçados de sol a sol, com a supervisão e sob coação e ameaça da autoridade dos militares da GNR envolvidos na rede de exploração de imigração ilegal.
Os elementos desta força de segurança, nas horas vagas, funcionam como capatazes no terreno de uma associação criminosa, que é, de resto, um dos crimes pelos quais estão indiciados. Também respondem por tráfico de seres humanos, auxílio à imigração ilegal ou fraude fiscal e branqueamento de capitais - pela forma como ocultam os elevados proveitos ilícitos, e não declarados, do trabalho escravo a que sujeitam as vítimas.
Os migrantes, indocumentados e chantageados, sob ameaça de deportação para os seus países por parte dos militares da GNR, vivem em condições sub-humanas, com escassos rendimentos e sob vigilância policial para que a rede retire a máxima rentabilidade do seu trabalho forçado nos campos agrícolas.
Em comunicado, a PJ adianta que as buscas decorreram em Beja, Portalegre, Figueira da Foz e Porto, e que em "causa está uma organização criminosa que controlava centenas de trabalhadores estrangeiros, a maioria em situação irregular em Portugal".
"Através de empresas de trabalho temporário, criadas para o efeito, aproveitava-se da vulnerabilidade dos mesmos, explorando-os, cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coação através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física", lê-se na nota.
Segundo a PJ, os detidos são "suspeitos de facilitarem a ação do grupo criminoso".
Ao que a CNN Portugal apurou, foram detidos oito guardas, um sargento que estava a comandar o posto de Matosinhos e um oficial. Quanto ao agente da PSP, estava de baixa há um ano.
As cerca de duas dezenas de detidos, entre militares e civis, serão presentes pelo Ministério Público a tribunal e arriscam ficar em prisão preventiva.