A rede internacional de pilhagem que levou tesouros Khmer aos maiores museus do mundo
(Na foto acima: o falecido marchand Douglas Latchford, que tinha a confiança de museus, leiloeiras e colecionadores, é hoje um dos nomes mais controversos do mercado da arte. Ilustração de Leah Abucayan/CNN/Reuters/Getty/Sipa/Ministério da Cultura e Belas-Artes do Camboja)
Quer esteja num museu respeitado ou na mansão de um multimilionário, é provável que qualquer escultura Khmer existente no Ocidente tenha sido, em algum momento, arrancada de um antigo complexo de templos e traficada para fora do Camboja. Há também uma forte probabilidade de ter passado pelas mãos de um marchand britânico chamado Douglas Latchford.
Para os seus clientes, o negociante de antiguidades era uma figura respeitável — um fornecedor de confiança, um destacado estudioso de arte (embora em grande parte autodidata) e autor de vários livros sobre escultura do Império Khmer, uma civilização que prosperou no que é hoje o Camboja e outras regiões do Sudeste Asiático entre os séculos IX e XV. Desde a década de 1960 até à sua morte, em 2020, Latchford forneceu aos colecionadores frisos ornamentados, esculturas de templos e estátuas de deuses hindus, budas e bodhisattvas.
O facto de estas divindades surgirem por vezes sem membros, grosseiramente separadas pelos tornozelos, ou ainda cobertas de terra quando eram fotografadas por ele, quase não levantou suspeitas até ao final da sua vida. E quando isso aconteceu, o bem relacionado negociante normalmente apresentava documentação ou histórias de cobertura para dissipar as preocupações dos compradores. Contudo, nos seus últimos anos, à medida que as autoridades norte-americanas começaram a investigar artefactos retirados clandestinamente do Camboja durante a guerra civil do país e o subsequente período genocida dos Khmer Vermelhos, as provas contra Latchford acumularam-se.
Hoje, tudo indica que grande parte do inventário de Latchford foi ilegalmente saqueado de sítios arqueológicos abandonados como Angkor Wat e Koh Ker. Pequenos saqueadores, por vezes com a ajuda de militares locais, removiam as peças com pás, cinzéis, picaretas e até dinamite, antes de as transportarem, frequentemente em carros de bois, até à fronteira com a Tailândia. Os objetos acabavam depois nas mãos do negociante sediado em Banguecoque que, embora já tenha morrido, é acusado de os ter introduzido no mercado global da arte através de registos falsificados. Alguns dos artefactos surgiram posteriormente em grandes leiloeiras ou integraram coleções de museus, incluindo o Metropolitan Museum of Art (Met) de Nova Iorque.
No ano anterior à sua morte, Latchford, então com 88 anos, foi acusado formalmente pelos procuradores norte-americanos de crimes que incluíam fraude eletrónica, contrabando e conspiração. Os investigadores federais alegam que construiu conscientemente uma carreira como “canal” para antiguidades saqueadas. Nessa altura, porém, a saúde do negociante, residente na Tailândia, estava tão debilitada que é questionável se tinha sequer consciência das acusações — quanto mais capacidade para responder perante um tribunal em Nova Iorque, a quase 14 mil quilómetros de distância.
Ainda assim, grande parte do mundo da arte já formou a sua opinião. O nome do negociante tornou-se tão tóxico que qualquer objeto que se saiba ter passado pelas suas mãos é praticamente intocável. Nos últimos anos, colecionadores privados e grandes instituições, incluindo o Met, o Denver Art Museum e a National Gallery of Australia, devolveram ao Camboja peças ligadas a Latchford. Isso praticamente “acabou com o mercado” da arte Khmer, afirma o jornalista canadiano Matthew Campbell, cujo novo livro, “The Man Who Stole the Gods”, expõe detalhadamente as acusações contra Latchford.
“Vai haver exceções — peças vendidas discretamente entre duas partes. Pode fazer-se um negócio, claro. Mas a Sotheby’s já não pode colocar uma grande estátua Khmer em leilão em Nova Iorque. Isso acabou”, diz Campbell. “O valor efetivo de venda destas peças hoje seria zero, porque não as pode vender.”
Latchford negou sempre qualquer irregularidade. Em 2010, afirmou ao Bangkok Post que “a maioria das peças foi descoberta ou escavada por agricultores nos campos”. Quando a origem duvidosa das antiguidades se tornou mais difícil de negar, alegou desconhecimento ou argumentou que elas teriam tido um destino pior se tivessem permanecido no país. “Admito que estas coisas saíram clandestinamente do Camboja e acabaram noutro lugar”, disse ao New York Times em 2013. “Mas, se isso não tivesse acontecido, provavelmente teriam sido usadas como alvo de tiro pelos Khmer Vermelhos.”
Hoje, porém, ninguém — nem mesmo as pessoas mais próximas — sai em defesa de Latchford.
Uma das suas antigas associadas, a negociante de arte Nancy Wiener, assumiu a culpa por conspiração e posse de propriedade roubada relativamente a peças compradas a Latchford. Já a filha, Julia, também conhecida pelo nome tailandês Nawapan Kriangsak, devolveu ao governo cambojano mais de 100 artefactos Khmer herdados do pai. Embora nunca tenha afirmado que ele era culpado, e tenha recusado ser entrevistada para este artigo, disse à CNN em 2021 que a repatriação dos registos e das obras de arte do pai, “independentemente da sua origem”, era “a melhor forma de lidar” com o seu complexo legado. Dois anos depois, chegou a um acordo numa ação cível nos EUA que resultou na perda de 12 milhões de dólares do património de Latchford, montante proveniente da venda de antiguidades roubadas.
Na ausência de uma condenação criminal, isto poderá constituir uma espécie de resolução. Mas, com centenas — ou talvez milhares — de peças associadas a Latchford ainda no estrangeiro, e alguns dos saqueadores ainda em liberdade, como se procura justiça agora?
Décadas de pilhagem
Nascido na Índia Britânica em 1931, Latchford chegou a Banguecoque em meados da década de 1950 como um jovem empresário aventureiro. Movendo-se com facilidade entre círculos de expatriados e aristocratas tailandeses, construiu uma vasta rede de contactos enquanto dirigia as operações locais de uma distribuidora de cosméticos e produtos farmacêuticos, segundo Campbell, que entrevistou amigos de Latchford desde os anos 1970. Desenvolveu uma obsessão pelo opulento Império Khmer e começou a adquirir os artefactos escultóricos, tanto hindus como budistas, produzidos pelos seus artesãos.
A partir da década de 1960, explorou templos cambojanos e realizou viagens de compra a sítios arqueológicos Khmer. Com colecionadores e museus ocidentais cada vez mais fascinados pela arte asiática, viu uma oportunidade para transformar o seu passatempo num negócio. Num campo — a escultura Khmer — que então despertava pouco interesse académico internacional, viu também uma oportunidade para se afirmar como especialista, apesar de não possuir formação formal em artes, aponta o autor.
“A sua paixão por estes objetos era muito genuína”, considera Campbell, cujo livro retrata Latchford como um intelectual à margem da elite de expatriados de Banguecoque, formada em Oxford e Cambridge. “Mas ele era um vendedor nato e sentia uma verdadeira adrenalina em fazer esses negócios.”
A eclosão da guerra civil em 1967 pôs fim, durante três décadas, às viagens de Latchford ao Camboja — tal como às de praticamente todos os outros estrangeiros. Em plena expansão dos bombardeamentos secretos dos EUA associados à Guerra do Vietname, o governante cambojano, príncipe Sihanouk, foi deposto num golpe de Estado, antes de o partido Khmer Vermelho de Pol Pot tomar o poder em 1975. O regime comunista mergulhou o Camboja no caos: aboliu o dinheiro, perseguiu as classes instruídas, devastou a agricultura do país e levou a cabo um genocídio que matou entre 1,5 e 3 milhões de pessoas — cerca de um quarto da população da época.
No meio deste cenário, a proteção do património ficou para segundo plano. As leis locais contra a exportação de artefactos existiam, de certa forma, desde o período colonial, tal como a convenção da UNESCO de 1970 que proibia a “importação, exportação e transferência ilícitas da propriedade de bens culturais”. Mas o Camboja praticamente não tinha meios para fazer cumprir nenhuma dessas regras. Mesmo depois de os Khmer Vermelhos terem sido afastados do poder pela invasão vietnamita de 1979, os sítios arqueológicos permaneceram abandonados, minados ou utilizados como refúgio por guerrilhas armadas. Segundo o livro de Campbell, quando o regime caiu restavam apenas três arqueólogos vivos em todo o país.
Entre os cambojanos que tiraram partido da instabilidade estava Toek Tik, antigo combatente dos Khmer Vermelhos que vivia na pobreza e cujas confissões ajudaram os investigadores a sustentar parte das acusações contra Latchford.
Como Campbell relata no livro, Toek Tik fazia trabalhos ocasionais após a libertação do país até perceber que vender estátuas, em vez do gado que utilizava em trocas comerciais, lhe podia render dinheiro vivo. Tendo passado anos escondido nas montanhas em redor de Koh Ker durante o conflito, conhecia bem o complexo de templos. O trabalho era difícil e perigoso, mas oferecia estabilidade numa época de enorme desespero económico. Inicialmente sozinho, expandiu a atividade durante os anos de relativa paz da década de 1990, chegando a liderar uma equipa de centenas de saqueadores que traficavam artefactos para intermediários na fronteira com a Tailândia, de acordo com documentos judiciais.
Numa entrevista ao New York Times pouco antes da sua morte, em 2021, Toek Tik, pai de oito filhos, afirmou nunca ter recebido mais do que algumas centenas de dólares por qualquer peça. Era uma quantia significativa no Camboja rural da época. Mas ele e a sua equipa estavam tão afastados do mercado internacional da arte que desconheciam completamente os valores que os artefactos alcançavam no estrangeiro, escreve Campbell. Durante uma reportagem no Camboja, o autor encontrou um dos associados de Toek Tik, que acreditava que as obras poderiam valer “dezenas de milhares” de baht tailandeses no exterior. (Dez mil baht equivalem a cerca de 300 dólares (aproximadamente 260 euros). “Portanto, estava enganado por um fator de 30”, sublinha Campbell.
Toek Tik nunca soube exatamente para onde iam os objetos depois de saírem do Camboja. Mas ouvira dizer que a procura era impulsionada por um comprador sediado em Banguecoque conhecido como “Sia Ford” ou “Lord Ford”, escreve Campbell. Segundo os procuradores norte-americanos, esse era um dos pseudónimos utilizados por Latchford. “Na verdade, não o culpo de todo”, diz Campbell sobre Toek Tik, considerado um dos saqueadores mais prolíficos do Camboja. “Se não fosse ele, teria sido outra pessoa. Não creio que qualquer um de nós possa afirmar com certeza o que faria ou deixaria de fazer naquelas circunstâncias.”
Seguir o rasto
A história de Toek Tik só veio a público graças a Bradley Gordon, advogado norte-americano radicado no Camboja que passou grande parte dos últimos 14 anos a investigar a pilhagem do património cultural Khmer.
O interesse surgiu após ler um artigo de opinião publicado pela CNN, em 2012, sobre as chamadas “antiguidades de sangue” do Camboja. Gordon foi contratado como consultor para o Ministério Público do Distrito Sul de Nova Iorque, que investigava então uma peça ligada a Latchford. Começou a visitar aldeias próximas dos templos juntamente com colegas do escritório de advogados que dirige em Phnom Penh.
Chocado com a dimensão da pilhagem ocorrida ao longo do século XX, sentiu posteriormente a obrigação de prestar apoio jurídico gratuito ao Ministério da Cultura do Camboja, que o nomeou oficialmente para essa função em 2018. “Senti que era a coisa certa a fazer”, defende Gordon, que atualmente representa os interesses do governo cambojano junto de museus e colecionadores estrangeiros.
À procura de testemunhos de quem tivesse assistido aos acontecimentos, a equipa de Gordon localizou Toek Tik, com quem o advogado estabeleceu uma relação de confiança e acabou por convencer a prestar declarações oficialmente. Ao longo de horas de entrevistas e visitas a templos, o antigo traficante relatou em pormenor as suas atividades. Gordon cruzou esses relatos com o inventário de Latchford e concluiu que Toek Tik reconhecia muitas das peças registadas nos livros do negociante porque tinha sido ele próprio a arrancá-las das paredes dos templos ou dos pedestais de pedra onde estavam colocadas.
Ao aperceber-se dos danos que tinha causado, Toek Tik acreditava que tinha um "karma muito negativo" e que devia revelar tudo o que sabia "para o melhorar", explica Gordon, acrescentando: "No fim da vida, fez algo extraordinário. Podemos perdoar-lhe os crimes? Não. Mas podemos tentar compreender porque é que certas coisas aconteceram." Toek Tik, que nunca chegou a ser formalmente acusado de qualquer crime, manifestou "arrependimento" ao New York Times antes de morrer, afirmando: "Quero que os deuses regressem a casa."
Gordon trabalhou com arqueólogos para associar estátuas a locais específicos saqueados por Toek Tik, mapeando as redes de pilhagem. O trabalho de investigação no terreno ajudou as autoridades norte-americanas a construir o processo contra Latchford. Mas as acusações contra o negociante estavam relacionadas tanto com a forma como vendeu as peças como com o modo como estas tinham sido obtidas.
Latchford, cidadão tailandês naturalizado que também usava o nome Pakpong Kriangsak, construiu cuidadosamente a sua credibilidade, abrindo uma galeria no centro de Banguecoque em 1974. Na década de 1980, doou artefactos Khmer ao British Museum e ao Met, que na altura estava a expandir de forma agressiva a sua coleção de arte asiática. Entre as peças estavam a cabeça de um buda em pedra do século X e duas figuras ajoelhadas que ficaram conhecidas por ladearem a entrada das galerias dedicadas ao Sudeste Asiático no Met.
Campbell defende que as doações de Latchford ajudaram a reforçar a sua credibilidade enquanto especialista, ao associarem o seu nome a algumas das mais prestigiadas instituições do mundo. Isso, por sua vez, tranquilizava futuros compradores quanto à origem legítima dos artefactos. O Met era a "mais poderosa ferramenta de marketing" de Latchford, escreve o autor.
Num comunicado enviado à CNN, o Met afirma que "continua empenhado em colaborar com a Tailândia e o Camboja no estudo das obras que integram a coleção do museu". Referindo uma iniciativa de investigação sobre a proveniência das peças lançada em 2023, o museu acrescenta que, desde então, tem dedicado "recursos significativos" a uma "análise aprofundada da sua coleção", sublinhando: "O Met tem um longo e bem documentado historial de colaboração com os países de origem sempre que surgem questões sobre o historial de um objeto." O British Museum não respondeu ao pedido de comentário da CNN.
Era uma época em que se faziam menos perguntas. E Latchford tinha respostas para aquelas que surgiam. Muitos compradores queriam garantias de que os artefactos tinham saído do Camboja antes da Convenção da UNESCO de 1970, que criou um enquadramento jurídico para os países recuperarem património cultural saqueado. Alegadamente, o negociante recorria a faturas, documentos de transporte e cartas falsificadas para tranquilizar os clientes. Na realidade, as exportações autorizadas foram tão limitadas na história moderna do Camboja que a ideia de um artefacto Khmer com origem legal é praticamente impossível, afirma Campbell. "Quase tudo é, por definição, saqueado", acrescenta.
Convenientemente, um empresário já falecido chamado Ian Donaldson surgia repetidamente a confirmar, através de cartas, que tinha adquirido as peças de Latchford fora do Camboja — em Hong Kong ou no Vietname — durante a década de 1960, antes da adoção da Convenção da UNESCO. Embora Donaldson tenha existido e tenha morrido em 2001, os investigadores norte-americanos alegam que essas cartas foram falsificadas por Latchford, referindo-se a Donaldson nos documentos judiciais como o "falso colecionador". Ainda assim, o esquema não era particularmente sofisticado porque, na altura, não precisava de o ser. "Não creio que ele esperasse que alguém investigasse isto", observa Campbell. "E porque haveria de investigar? Ninguém o tinha feito até então."
Onda de repatriações
Tudo mudou de forma drástica quando a Sotheby's retirou inesperadamente de leilão, a 24 de março de 2011 — precisamente no dia em que seria licitada — uma figura Khmer do século X.
Os investigadores federais alegaram que a versão apresentada por Latchford sobre a origem da estátua — segundo a qual esta teria saído do Camboja e já se encontraria em Londres no final da década de 1960 — era falsa. Na realidade, o artefacto em arenito, que representa Duryodhana, personagem da epopeia hindu, tinha sido saqueado em Koh Ker por volta de 1972, ou pouco depois, ou seja, após a decisiva Convenção da UNESCO.
Seguiu-se uma batalha judicial de dois anos, que terminou com um acordo entre as partes. Ao longo de todo o processo, a Sotheby's negou ter cometido qualquer irregularidade ou ter conhecimento da verdadeira origem da peça. Num comunicado enviado à CNN, a leiloeira afirma que "agiu de boa-fé" e em conformidade com os seus próprios "rigorosos padrões" durante todo o litígio. "Continuamos empenhados em assegurar uma diligência rigorosa, uma estreita cooperação com as autoridades policiais e uma gestão responsável do património cultural", acrescenta a Sotheby's.
A estátua foi devolvida ao Camboja. O caso estabeleceu um importante precedente jurídico, ao expor a forma como as falsas declarações de um único homem conseguiam propagar-se pelo mercado da arte. Separadamente da polémica em torno da estátua de Duryodhana, a Sotheby's colocou regularmente à venda peças do Sudeste Asiático sem informação sobre a sua proveniência, segundo um estudo revisto por pares, que concluiu que mais de 70% das 377 peças Khmer leiloadas pela empresa entre 1988 e 2010 não tinham qualquer historial de propriedade publicado. No comunicado enviado à CNN, a Sotheby's não comentou esta conclusão.
Numa altura em que o património cultural era cada vez mais analisado sob a perspetiva da justiça social, o caso Duryodhana também lançou um incómodo foco de atenção sobre os museus que tinham feito negócios com Latchford, direta ou indiretamente. Em maio de 2013, o Met devolveu as duas figuras ajoelhadas anteriormente referidas, que durante anos guardaram a entrada da ala dedicada à arte do Sudeste Asiático. Na altura, o museu afirmou, num breve comunicado, que tinha "recentemente tido acesso a nova investigação documental que não estava disponível quando os objetos foram adquiridos".
Depois da acusação formal e da morte de Latchford, outras instituições seguiram o mesmo caminho. As comportas abriram-se definitivamente. Nos últimos três anos, a National Gallery of Australia devolveu três esculturas em bronze que tinha comprado a Latchford por 1,5 milhões de dólares (cerca de 1,3 milhões de euros), enquanto o Denver Art Museum anunciou a repatriação de 11 peças ligadas ao negociante — incluindo várias identificadas pelo saqueador Toek Tik como objetos que tinha roubado. O Asian Art Museum, em São Francisco, na Califórnia, e o Norton Simon Museum estão entre outras instituições que também devolveram voluntariamente ao Camboja peças associadas a Latchford.
Em 2023, dez anos depois de devolver as figuras ajoelhadas, o Met restituiu ao Camboja mais 14 peças da sua coleção. Desta vez, o museu explicou de forma mais detalhada a sua posição. De acordo com o diretor Max Hollein, o Met tinha estado "a trabalhar diligentemente durante anos" para "resolver as questões" relacionadas com obras de arte associadas a Latchford. "Este é um trabalho complexo que exige tempo e estamos empenhados em fazer o que está certo."
Os colecionadores multimilionários também enfrentaram uma pressão crescente — e visitas dos investigadores. Entre eles estava Jim Clark, cofundador da Netscape e um dos maiores clientes de Latchford, que, em 2022, entregou voluntariamente 35 peças do Sudeste Asiático da sua coleção de arte. Clark disse ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) que decidiu entregar as peças depois de os investigadores lhe terem apresentado provas dos alegados crimes de Latchford. No ano seguinte, a família do falecido multimilionário norte-americano George Lindemann concordou em devolver 33 peças Khmer, algumas das quais tinham despertado a atenção dos investigadores depois de aparecerem numa reportagem da Architectural Digest que mostrava os objetos a decorar a sua casa em Palm Beach. Nem Lindemann nem Clark, que se estima terem gasto mais de 30 milhões de dólares (cerca de 26 milhões de euros) nas peças que acabaram por entregar, foram identificados nos documentos do tribunal ou acusados de qualquer irregularidade.
Gordon estima que, pelo menos, 300 artefactos Khmer saqueados regressaram ao Camboja como resultado direto do trabalho da sua equipa. E acredita que conseguirá recuperar pelo menos mais uma centena este ano. (Recentemente, o Camboja concedeu ao advogado norte-americano a cidadania e uma distinção equivalente ao título de cavaleiro, em reconhecimento pelo seu trabalho.) Ainda assim, estes números representam apenas "a ponta do icebergue", afirma.
Nunca será possível saber quantos tesouros Khmer permanecem fora do Camboja, mas Gordon reuniu uma base de dados com cerca de 2.000 objetos em museus e "tantos ou mais" em coleções privadas. Calcula que, pelo menos, um quarto dessas peças tenha passado "de alguma forma" pelas mãos de Latchford. Na sua lista constam objetos expostos em cerca de uma dúzia de museus norte-americanos, incluindo alguns que já colaboraram anteriormente com os pedidos de repatriação feitos pelo Camboja. Gordon espera que o livro de Campbell "aumente a pressão sobre esses museus para fazerem o que está certo".
Continuam por responder muitas perguntas, incluindo a identidade das pessoas que faziam parte da cadeia criminosa entre saqueadores como Toek Tik e Latchford. "Quem eram as pessoas na Tailândia que faziam a ligação entre esse intermediário e Latchford?", questiona Campbell. "Nunca consegui obter respostas satisfatórias para isso."
O facto de Latchford ter morrido sem nunca ter comparecido em tribunal continua a ser uma profunda injustiça para Gordon. "Devia ter sido extraditado para Nova Iorque. Não me interessa se tinha 80 ou 85 anos, devia ter ido para a prisão." O advogado espera que surjam mais respostas a partir do "enorme número de pistas" contidas nas dezenas de milhares de emails, faturas, listas de clientes, inventários e fotografias que a filha de Latchford entregou ao Camboja após a morte do pai. "Acho que, se não tivéssemos esse arquivo, sentiria uma enorme amargura."
Gordon encontra também algum conforto em ajudar a devolver objetos sagrados a um país onde muitas pessoas não veem as estátuas religiosas apenas como representações de divindades, mas como verdadeiras encarnações vivas dos deuses. Em declarações à CNN, em 2021, após o anúncio de que a filha de Latchford iria devolver as obras de arte que herdara, a ministra da Cultura e das Belas-Artes do Camboja, Phoeurng Sackona, resumiu esse sentimento.
"A nossa cultura e as nossas estátuas não são apenas madeira e barro", sublinhou, acrescentando que o país pretende ampliar o Museu Nacional para acolher o crescente número de peças devolvidas. "Elas têm espírito e têm sentidos."
"The Man Who Stole the Gods", publicado pela Penguin, já está disponível.
