Queria ser uma boa esposa, apoiar o marido e ter os seus filhos. Mas o peso do sistema, o controlo, a submissão ao marido e à igreja, além das exigências impostas às mulheres e às crianças, tornaram-se insuportáveis
Katie não nasceu no seio de uma vida de "tradwife" fundamentalista ["esposa tradicional", na tradução, mas que representa um estilo de vida em que mulheres jovens optam por assumir papéis de género típicos da década de 1950]. Mas acolheu esse papel à medida que a sua família se tornava mais conservadora na igreja cristã.
“Estava completamente envolvida”, conta à CNN. “Adorava a minha vida. Estava muito feliz e sentia-me muito realizada.”
Queria ser uma boa esposa, apoiar o marido e ter os seus filhos — isso fazia sentido para ela. Mas o peso do sistema, o controlo, a submissão ao marido, ao pastor, à igreja, a Jesus Cristo e a Deus, além das exigências impostas às mulheres e às crianças, ameaçavam esmagá-la.
Vinte anos depois, Katie está agora a “desconstruir” a sua antiga vida e crenças, um processo de examinar — e muitas vezes desmantelar — doutrinas religiosas que antes aceitava. Está a encontrar o seu próprio caminho, mas preocupa-se com as mulheres que sentem que não conseguem sair do sofrimento.
Diz que quase foi destruída por um sistema fundamentalista que prometia a benevolência de Deus, mas a levou para perto do inferno.
Tornar-se fundamentalista
Katie, que pediu para não ter o apelido divulgado por razões de privacidade, nasceu no Texas, no coração do chamado “Bible Belt” [ou "Cinturão Bíblico", uma região caracterizada por um fervoroso fundamentalismo religioso], no sul dos Estados Unidos. Era a primeira filha de dois pais licenciados que, segundo ela, eram cristãos culturais e frequentavam uma igreja não denominacional na zona de Dallas.
Quando começou a ter problemas de atenção no 2.º ano (diz que viveu durante décadas com TDAH - Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade - não diagnosticado), a mãe decidiu retirá-la da escola pública e educá-la em casa.
Aos 9 anos, a família mudou-se para o sul, perto de Austin, onde a mãe continuou a ensinar Katie e os irmãos mais novos. “Ela procurava muito uma comunidade e amizades, e encontrou isso em círculos mais conservadores”, recorda.
A mãe encontrou apoio e recursos junto de outras famílias que praticavam ensino doméstico e, lentamente, a família entrou no mundo do fundamentalismo.
Katie diz que havia um forte ênfase na modéstia, na pureza e na deferência das raparigas, bem como na aprendizagem de tarefas domésticas para que um dia fossem boas donas de casa — e ela abraçou esse ideal.
Na adolescência, dava aulas de costura a raparigas mais novas. Os pais não a proibiam de ouvir rádio, mas ela própria não queria ouvir a música pop da altura. Ouvia repetidamente uma cassete do livro “I Kissed Dating Goodbye”, de Joshua Harris, que defendia honrar Deus mantendo a pureza antes do casamento.
Usava os argumentos que aprendia para explicar aos outros, na vizinhança, porque não namorava.
“Queria ser capaz de falar sobre isso e de o articular. Havia esta pressão para que as raparigas fossem puras. Falava-se muito sobre como os rapazes lutam contra a luxúria, e queríamos cuidar dos nossos irmãos cristãos e não levá-los a cair.”
Vivia numa bolha, diz, mas não escondida do mundo. Era apenas um mundo do qual não queria fazer parte.
Se um rapaz quisesse conhecê-la melhor, a resposta era: “Fala com o meu pai”. Um jovem, criado numa comunidade menonista, fez exatamente isso — e foi assim que ela entrou num namoro supervisionado com vista ao casamento.
"Queria ter filhos imediatamente"
Não foi amor à primeira vista. Por isso, Katie decidiu jejuar e rezar durante uma semana para perceber se Deus queria que avançasse para um namoro com vista ao casamento. “Porque eu não me sentia necessariamente atraída por ele, mas ele ama Deus e é muito simpático. E o meu pai aprovou-o.”
Ao fim de cinco dias de jejum, diz que começou a ter crises emocionais e a chorar compulsivamente. Ainda assim, saiu da experiência com a sensação de que aquele namoro correspondia à vontade de Deus.
No início, o casal estava sempre acompanhado por uma terceira pessoa. E mesmo quando passaram a poder estar sozinhos, Katie garante que nunca pensou em quebrar as regras. “Não demos as mãos até nos casarmos. Não nos beijámos até nos casarmos”, afirma. “Estávamos os dois de acordo.”
E estava também pronta para o que vinha a seguir: “Queria ter filhos imediatamente.”
Engravidou durante a lua de mel e acabou por ter seis filhos. “Estive grávida e/ou a amamentar durante 13 anos”, conta.
O casal mudou-se para o Médio Oriente, onde trabalharam como pastor e esposa de pastor, apoiando comunidades expatriadas, aprendendo árabe e ensinando os filhos em casa.
E Katie continuava totalmente empenhada. “Antes dessa palavra existir, eu já era uma ‘tradwife’ entusiasta.”
Mas as pressões do trabalho, da família e das expectativas sobre como deveriam viver começaram a ter impacto — não apenas nela, mas também no marido. Katie diz que começou a ver o outro lado de ter os homens como autoridade máxima dentro de casa.
“Esta dinâmica que tínhamos, que funcionou razoavelmente bem durante muito tempo, começou a desintegrar-se. Ele estava cada vez mais stressado e não tinha ferramentas para lidar com isso”, explica.
Segundo conta, o marido tornou-se verbal e emocionalmente abusivo e o casamento entrou numa espiral descendente, mesmo enquanto ela tentava cumprir o que tinha aprendido: ser submissa e apoiar.
“Era o que eu achava ser o melhor caminho”, diz. “Pensava que estava a fazer o que devia para servir Deus e não percebia porque não resultava. Porque é que ele era tão cruel comigo? Porque é que isso não mudava o meu casamento?”
Começou a sentir os efeitos no corpo. “Comecei a ter ataques de pânico”, relata. “Lutei com depressão intermitente.” Procurou aconselhamento cristão, com o apoio do marido — que chegou a participar nas sessões.
Recorda que os conselheiros diziam ao marido que não era aceitável perder o controlo com a esposa, mas não apresentavam soluções nem o responsabilizavam. Ele arrependia-se, diz, mas não mudava de comportamento.
A sua perspetiva mudou quando uma amiga — também esposa de pastor — lhe enviou fotografias de páginas de um livro sobre as razões pelas quais alguns homens são abusivos.
“Li aquelas páginas e foi como nos filmes, quando a imagem se afasta e tudo fica em silêncio — foi um momento que mudou a minha vida.”
Foi o início do despertar — ou, como ela e outras ex-esposas fundamentalistas descrevem, o início da “desconstrução”.
Sair da religião para se encontrar
Hoje, com 39 anos, Katie está de regresso ao Texas com os filhos e o marido. De forma pouco comum nestas situações, diz que ele também conseguiu reconstruir a própria vida e mudar o comportamento ao longo de anos de conflitos, separações, terapia e, finalmente, cura.
Não é que haja algo de errado em ser mãe a tempo inteiro, sublinha — o problema é quando a escolha é retirada.
“Sabemos como isto evolui e como é quando se leva esta ideia, este ensinamento e esta teologia ao extremo. Nós vivemos isso, e é muito tóxico e muito prejudicial, especialmente para as mulheres, especialmente para as minorias.”
Katie, que votou em Donald Trump em 2020, mas não em 2024, diz que sente empatia por quem foi seduzido pelas promessas do sistema. “Estive envolvida durante grande parte da minha vida adulta. Percebo como era acreditar em tudo aquilo, e sei porque acreditava e como ainda assim me via como uma boa pessoa.”
Havia também um enorme medo de apostar numa vida diferente — uma aposta que, no seu caso, compensou.
“Saí da religião e, soa a cliché, mas encontrei-me. Encontrei paz, paz verdadeira. Todas estas coisas que nos prometiam dentro destes sistemas - paz, alegria, liberdade, ser uma boa pessoa - encontrei-as fora da religião”, afirma.
“Falam de deixar o cristianismo ou de desconstruir como se fosse um caminho escorregadio… começas a fazer perguntas e vais deslizar para o pecado. Eu comecei a fazer perguntas, comecei a deslizar, e do outro lado estava a liberdade.”
Ao olhar para a adolescente que foi, diz que nada do que lhe pudessem ter dito teria mudado a sua opinião. Estava certa do caminho que seguia.
Essa certeza desapareceu, mas encontrou comunidade em espaços modernos, como o TikTok, onde partilha reflexões, grandes e pequenas.
“Estou bem com o facto de não saber. E isso é enorme, quando passei a vida inteira a pensar que precisava de saber qual era a coisa certa. Agora penso: está tudo bem em não saber.”