Está no ar a tracking poll para a segunda volta das eleições presidenciais. No primeiro dia, António José Seguro começa destacado à frente. Mas há muito para ver: incluindo as intenções dos que na primeira volta votaram Cotrim, Mendes e Gouveia e Melo.
Se as eleições se realizassem hoje, 60,9% dos eleitores votariam António José Seguro, 26,5% votariam André Ventura, 5,3% votariam branco ou nulo – e 7,3% dos eleitores estão ainda indecisos.
Estes são os resultados sem distribuição de indecisos do primeiro dia da tracking poll da segunda volta das presidenciais, realizada pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN, a partir de 608 entrevistas realizadas a 24, 25 e 26 janeiro, com uma margem de erro máxima de 4,06% (ver ficha técnica em baixo).
Com dois candidatos, a distribuição de indecisos deixa de ser neutra: qualquer modelo empurra artificialmente um e penaliza o outro. Sem histórico de segundas voltas, optámos assim por mostrar os resultados diretos.
Favoritismo claro para Seguro
Uma coisa é a intenção de voto, outra a opinião sobre quem ganhará. “Independentemente do seu voto, que candidato pensa que ganhará a 2ª volta das eleições presidências 8 de fevereiro?” A esta pergunta, 91% respondeu Seguro, contra apenas 7% que respondeu Ventura:
Sentimentos positivos prevalecem: só 6% vota em protesto e 4% por revolta
A tracking poll coloca diversas perguntas à amostra. Entre elas, questiona-se o sentimento associado ao voto. Os sentimentos positivos prevalecem.
40% dos eleitores associam o seu voto a “responsabilidade”, a que se somam 23% que respondem “estabilidade” e 18% a “esperança”. Só 6% associa o voto a “protesto” e 4% a “revolta” e 3% a “medo”. Baixa intensidade tem a associação a “mudança”: apenas 1%.
Seguro mais forte nas mulheres, Ventura mais alto nos homens
Se nas eleições votassem apenas mulheres, António José Seguro teria 68,7% dos votos e Ventura 19,9% (sem distribuição de indecisos). Já se votassem apenas homens, o vencedor seria o mesmo, mas com menos distância: Seguro teria 52,1% e Ventura 34%.
Outra tendência é a etária: quanto mais velhos são os eleitores, mais António José Seguro sobe: acima dos 55 anos, o candidato teria 67,4%, contra 22,6% de Ventura. Seguro vence em todas as idades, mas com menos fulgor nos mais novos: teria 54,6% entre os 18 e os 34 anos, contra 28,9% de Ventura.
Já nas classes sociais, Seguro vence em todas mas é mais forte nas classes altas, enquanto Ventura é mais forte nas mais baixas.
O quadro seguinte resume as estratificações. E mostra que há mais indecisos entre os mais jovens:
Muitos votam num por estarem contra o outro
André Ventura tem mostrado que quer fazer desta segunda volta uma eleição entre a direita e o socialismo. Deixou-o claro logo na noite de 18 de janeiro, depois de saber os resultados da primeira volta.
Na tracking poll, no entanto, não se revela uma divisão representativa entre esquerda e direita, existindo sim uma divisão entre os dois candidatos, já que a taxa de rejeição de ambos é elevada.
Tanto António José Seguro como André Ventura têm votantes convictos, mas têm também muitos eleitores cuja decisão se faz de um mal menor.
De acordo com o primeiro dia da tracking poll, 36,4% das pessoas que vão votar António José Seguro tomaram essa decisão para evitar que seja o outro candidato o eleito. Serão os casos das dezenas de pessoas que assinaram uma carta de não-socialistas que apoiam o candidato apoiado pelo PS.
Em sentido contrário, também há várias pessoas que vão escolher votar em André Ventura para impedir uma vitória do outro candidato. Dos inquiridos que vão votar no candidato apoiado pelo Chega, 26,5% decidiram pela opção de “voto para impedir ou outro candidato”.
Quanto à mobilização pela positiva, António José Seguro terá 61,3% dos seus eleitores a votar “a favor do candidato”, enquanto André Ventura terá 67,4%.
Esta mesma divisão nota-se também na firmeza de voto dos eleitores. É que quase nenhuma das pessoas que está decidida admite ainda vir a trocar de ideias até 8 de fevereiro.
Balança a favor de Seguro, mas com muitos indecisos para convencer
Foi o presidente do PSD que afirmou com clareza, em pleno Parlamento, que o espaço do partido não estava representado nesta segunda volta. De acordo com Luís Montenegro, isso justificava a ausência de um apoio declarado, uma vez que a corrida era entre o “espaço à esquerda” e o “espaço à direita” do partido.
Só que há mesmo muito eleitorado “órfão” da primeira volta que não quer deixar de tomar uma posição dia 8 de fevereiro, sendo que todos esses votos são claramente decisivos para ajudar a desempatar.
De acordo com a tracking poll, aqueles que votaram João Cotrim de Figueiredo, Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes têm uma tendência clara, ainda que uns mais que outros.
| Candidato | AJS | AV | B/N | Indecisos | Total |
| Seguro | 99,6% | 0,4% | 0 | 0 | 100% |
| Ventura | 2,6% | 95,3% | 0,5% | 1,6% | 100% |
| Cotrim | 53,7% | 6,6% | 19,9% | 19,8% | 100% |
| Gouveia e Melo | 76% | 11,5% | 4,2% | 8,3% | 100% |
| Marques Mendes | 68,5% | 9% | 4,5% | 18% | 100% |
| Outros | 81,8% | 3% | 9,1% | 6,1% | 100% |
| Total | 60,9% | 26,5% | 5,3% | 7,3% | 100% |
É junto dos eleitores do candidato que na primeira volta foi apoiado pela Iniciativa Liberal que há mais indecisão. Apesar de a maioria admitir que vai votar António José Seguro, muitos estão indecisos e alguns admitem mesmo votar em branco ou nulo.
Junto desse espaço, e depois das declarações de voto de nomes como Carlos Guimarães Pinto, Mário Amorim Lopes e até da presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão - que deixou claro que o partido não apoia ninguém - a favor de António José Seguro, quase metade dos eleitores não está decidido a votar em nenhum dos candidatos.
Se olharmos apenas ao número de indecisos, que são 19,8%, isso significa, numa conta direta que tem em conta os votantes de João Cotrim de Figueiredo na primeira volta, que cerca de 180 mil pessoas ainda podem balançar o seu voto.
A dúvida é menor nos candidatos abaixo. No caso de Henrique Gouveia e Melo, que teve parte da campanha marcada por várias críticas a André Ventura - e que até teve apoiantes como Isaltino Morais em bate-bocas diretos com o candidato apoiado pelo Chega -, cerca de três quartos dos eleitores devem transferir o voto para António José Seguro.
Curiosamente, este é um eleitorado onde há maior divisão entre candidatos. Se há mais gente a apoiar António José Seguro em relação aos eleitores de João Cotrim de Figueiredo, também há mais pessoas a transferirem o voto para André Ventura.
O que há menos nos eleitores de Henrique Gouveia e Melo são pessoas que vão votar branco ou nulo ou que ainda estão indecisas sobre o que fazer a 8 de fevereiro. Excluindo os próprios António José Seguro e André Ventura, o eleitorado do almirante é mesmo o que parece ter a coisa mais resolvida.
Quanto a Luís Marques Mendes, provavelmente o grande derrotado da noite de 18 de janeiro, espera-se uma grande transferência de voto para António José Seguro. A isso não será indiferente a declaração de voto do candidato, que acabou por pender para o antigo secretário-geral socialista.
Ainda assim, é nos eleitores que votaram Luís Marques Mendes na primeira volta e que estão indecisos que ainda pode haver uma surpresa. Quase 20% dessas pessoas não sabem em quem vão votar a menos de duas semanas da segunda volta.
Há no PS quem vote em Ventura (e socialistas no Chega)
A primeira parte não é surpresa. A esmagadora maioria dos eleitores de António José Seguro são pessoas que votaram no PS nas legislativas de 2025 e a também esmagadora maioria dos votos de André Ventura são pessoas que votaram Chega há menos de um ano.
É no resto que está a diferença, claro, com o eleitorado da Aliança Democrática (AD), que venceu essas eleições, a revelar-se decisivo para desempatar a segunda volta. Aí, e de acordo com a tracking poll, grande parte vai pender para o lado de António José Seguro, ainda que 13,1% das pessoas decida votar André Ventura, exatamente a mesma percentagem de indecisos.
A tendência “segurista”, se assim o podemos dizer, acentua-se entre quem votou noutros partidos, em branco ou nulo nas últimas legislativas. Desses eleitores, 71,9% vai mesmo votar António José Seguro e apenas 10% vai por André Ventura, havendo ainda 11,2% de pessoas indecisas.
Nota ainda para uma pequena curiosidade. É que há quem tenha votado PS e Chega nas últimas legislativas e vá mudar o seu sentido de voto. São poucos, mas existem, conforme podemos confirmar no gráfico.
| AJS | AV | B/N | Indecisos | Total | |
| AD | 65,1% | 13,1% | 8,7% | 13,1% | 100% |
| PS | 97,9% | 0,5% | 0% | 1,6% | 100% |
| Chega | 5% | 92,3% | 1,7% | 1% | 100% |
| O+B/N | 71,9% | 6,9% | 10% | 11,2% | 100% |
| Total | 60,9% | 26,5% | 5,3% | 27,3% | 100% |
Ficha técnica
Durante 3 dias (24, 25 e 26 janeiro de 2026) foram recolhidas diariamente pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF e JN um mínimo de 202 a 203 entrevistas (dependendo dos acertos das quotas amostrais) de forma a garantir uma sub-amostra diária representativa do universo eleitoral português (não probabilístico). Foram tidos como critérios amostrais o Género, 3 cortes etários e 20 cortes geográficos (Distritos + Madeira e Açores). O resultado do apuramento dos 3 últimos dias de trabalho de campo, resultou numa amostra de 608 entrevistas que para um grau de confiança de 95,5% corresponde a uma margem de erro máxima de ±4,06%.
A seleção dos entrevistados foi realizada através de geração aleatória de números de “telemóvel” mantendo a proporção dos 3 principais operadores móveis. Sempre que necessário foram selecionados aleatoriamente números fixos para apoiar o cumprimento do plano amostral. As entrevistas são recolhidas através de entrevista telefónica (CATI–Computer Assisted Telephone Interviewing).
O estudo tem como objetivo avaliar a opinião dos eleitores portugueses, sobre temas relacionados com as eleições Presidenciais, nomeadamente os principais protagonistas, os momentos da campanha bem como a intenção de voto dos vários candidatos. Foram realizadas 1245 tentativas de contacto, para alcançarmos 608 entrevistas efetivas, pelo que a taxa de resposta foi de 48,84%.
A distribuição de indecisos é feita de forma proporcional.
A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva. A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC- Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.