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Economista. Comentador da CNN Portugal no espaço semanal "O Trigo do Joio"

A realidade completa: mais população, menos emprego

30 jun, 15:13
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Na semana passada, o país analista passou por mais uma comoção, devidamente ensaiada, perante a constatação de que afinal havia uma constelação de residentes em Portugal – 11,4 milhões –, que sendo maior do que o INE estimava até ao dia anterior – 10,7 milhões –, veio confirmar a realidade que outras fontes estatísticas há mais de 10 anos assinalavam.

Ainda assim, a “novidade” foi servida com pompa e circunstância, nas notícias, nos jornais e nas redes sociais. Este foi um momento de grande valia para o país, porque reconhecer o óbvio é sempre um passo em frente. Dos números divulgados pelo INE devemos reconhecer que temos um país maior, com mais pessoas a trabalhar, com mais jovens, se bem que não na mesma proporção e que conseguimos desta forma atenuar (não eliminar) os efeitos do inverno demográfico em que vivemos.

Um inverno consequência de uma taxa de fertilidade de 1,41 filhos por mulher – superior à média de 1,34 da União Europeia em 2024 – e de uma trajetória negativa que tem décadas em Portugal e que tardamos em inverter. Não conseguimos repor a população através do saldo natural (nascimentos – falecimentos).

Mas nem tudo foi publicitado. Por exemplo, o número de trabalhadores declarados à Segurança Social está em queda, é o que nos dizem os dados, em março eram menos 22 mil trabalhadores do que no final de 2025; e menos 47 mil do que em setembro. Desde 2013 que não tínhamos uma evolução tão negativa.

Isto são factos, vamos então às políticas.

Numa versão caseira do desastroso “take back control” do populismo britânico, temos assistido a uma diatribe política que insiste em dizer que conseguimos fazer uma espécie de fila de espera na fronteira e os seres humanos que quiserem trabalhar em Portugal são chamados por “número de senha”. Vilipendiou-se a “declaração de manifestação de interesse”, mesmo sabendo-se que brasileiros e cidadãos de países africanos de língua portuguesa tinham outras formas de participar no mercado de trabalho para além desse “expediente”. Convirá lembrar que estes representam 55% do total de estrangeiros residentes em 2025 e quase 60% do aumento desde 2021.

Atenta a evolução da economia e do mercado de trabalho em Portugal a única “declaração de manifestação de interesse” a que assistimos nos últimos anos foi o clamor de setores como a agricultura, construção e alojamento e restauração numa clara “manifestação de interesse” por ter trabalhadores para as suas atividades.

Estimo que dois terços do crescimento do volume de negócios nas empresas portuguesas esteja associado ao aumento (da mesma magnitude) do número de trabalhadores estrangeiros. Sem este contributo não teríamos tido convergência com a União Europeia; não teríamos as nossas cidades cuidadas como as vemos hoje; nem os nossos pais e avós com os cuidados na velhice que lhes conseguimos proporcionar.

Enganamo-nos (mais uma vez) se pensamos que esta é uma exclusividade de Portugal. Não é assim. Enganamo-nos se pensamos que somos o país da Europa com mais trabalhadores estrangeiros. Não é assim.

Do aumento de 12 milhões de empregos que ocorreu na área do euro desde a pandemia, 7 milhões são ocupados por indivíduos que trabalham num país diferente daquele em que nasceram. São 60%, uma proporção próxima da que temos em Portugal.

As aflorações marialvistas, com visões antiquadas e autoritárias da sociedade, acerca da afluência de pessoas de outras nacionalidades ao nosso mercado de trabalho estão bem retratadas na “Crónica” do José Cardoso Pires. Não são novas estas visões, um misto de intelectualidade e aparência, presentes nas caricaturas queirosianas de João da Ega e Dâmaso Salcede. Não se lhes conhece uma ideia para o país que consigam implementar. Não alcançaram nenhum dos objetivos a que se propuseram, mas falam muito.

Estamos inseridos num Mercado Único Europeu, estamos abertos ao mundo. Os nossos jovens hoje estudam na Universidade sem necessitar de sair da região onde vivem e daí abrem-se ao mundo, já qualificados e treinados. As nossas cidades romperam as suas “periferias”, já não estão fechadas ao país. Os suspiros que se ouvem não são pelo que se passa no país, mas por uma Lisboa, onde “o campo” apenas entrava para a assoalhada dedicada “à empregada” ou para a casa “da porteira”.

Na semana passada, o INE disse-nos que somos mais 635 mil do que nos dizia na semana anterior. Mas quem chegou tarde a esta realidade foi mesmo o INE e aqueles que teimavam em negar o aumento de um milhão de empregos em Portugal em apenas 10 anos. Todas as bases de dados onde estes dados foram confirmados ou infirmados já existem há muitos anos. Desde há vários anos, acompanhar o emprego pelos dados da Segurança Social foi mais próximo da realidade do que fazê-lo através do Inquérito ao Emprego. Digo-o com a “alma pesada” porque não deveria haver melhor fonte estatística do que o Inquérito, uma operação dispendiosa, onde são inquiridas dezenas de milhares de famílias todos os trimestres. Não foi assim nos últimos (muitos) anos e desperdiçámos esses dados, reconhecendo agora que não nos servirão de muito para conhecer o mercado de trabalho em Portugal.

O mais relevante do que o INE agora nos diz é que, finalmente, invertemos a decadência populacional.

Nos últimos 60 anos tivemos dois episódios particularmente negativos: a década de 60, que marcou o estertor do regime ditatorial; o período de ajustamento do início da segunda década do século XXI, quando assistimos à mais impressionante queda do emprego em Portugal.

Esta dinâmica mudou há quase 10 anos, quando em 2017 a sociedade, suportada numa economia que investia e crescia como não fazia desde a adesão à então CEE, inverteu o saldo demográfico.

Entretanto, temos que lidar com o presente. Isso é que costuma ser uma chatice para os populistas de serviço.

A Segurança Social, sempre ela, diz-nos que em março de 2026 temos quase menos 50 mil pessoas a trabalhar do que em setembro de 2025. Encadeámos dois trimestres negativos, com o emprego a cair.

Temos que recuar a 2013 para registarmos algo semelhante. Em plena crise financeira. Não parece grande companhia.

Esta evolução é relevante porque foi apresentada como uma decorrência da política de controlo do mercado de trabalho e da sociedade assumida pelo Governo. Este número é relevante porque replica em Portugal uma política que se mostrou inconsequente noutras sociedades, como a do Reino Unido.

Mas a maior relevância deste número é para os portugueses, porque significa que a economia está a desacelerar e que essa tendência já se faz sentir no mercado de trabalho. Também é relevante para o financiamento da Segurança Social e do Estado, porque o défice da Administração Central de 1,8% do PIB, qualquer coisa como 5,5 mil milhões de euros, já só é financiado com dívida e vai continuar a agravar-se se estas políticas se mantiverem. A promessa da redução de impostos é destruída com violência e frustração. Não colocamos apenas em causa as pensões de amanhã, colocamos em causa os investimentos de hoje e o financiamento do SNS.

Desde há muitos anos que não assistíamos a um Governo vangloriar-se por estar a destruir o futuro desta forma. Com vídeos. O que esperamos é que este momento não se repita e que a responsabilidade prevaleça. Porque sabemos ser essa a vontade de todos, incluídos aqueles que olham para a política como um jogo de aritméticas impossíveis.

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