Trabalhar enquanto se estuda pode abrir portas. Mas, para muitos, essas portas só se abrem depois de anos a viver sempre a correr atrás do tempo. São os casos de Jaden, Gabriela, Madalena e Ana
Trabalham oito horas, saem a correr para as aulas e regressam a casa quando o dia já devia ter terminado. Pelo meio, acumulam prazos, testes, relatórios e a sensação constante de que o tempo nunca chega para tudo. São cada vez mais os jovens a conciliar trabalho e estudos - por escolha, por necessidade ou por receio de ficar para trás. Entram mais cedo no mercado de trabalho, ganham experiência antes do diploma e constroem currículo enquanto ainda estão na faculdade. Mas essa vantagem não nasce apenas da ambição. Em muitos casos, nasce da pressão.
Em toda a Europa, mais de um quarto dos jovens entre os 15 e os 29 anos trabalham e estudam ao mesmo tempo, segundo dados da Eurostat. Em Portugal, a realidade é menos expressiva: 12,3%. Ainda assim, a tendência mostra que os salários baixos, as dificuldades de entrada no mercado de trabalho e a perceção crescente de que um diploma já não chega levam muitos a antecipar a entrada na vida ativa para ganhar experiência, criar contactos e não ficar para trás numa corrida cada vez mais exigente.
"Dar 100% a ambos… isso não consigo"
Jaden Gomes tem 23 anos e faz parte desta geração que decidiu não esperar. Quando surgiu uma oportunidade na área da comunicação, ainda a meio do mestrado em Gestão Estratégica das Relações Públicas, não hesitou. Não precisava de trabalhar, mas pareceu-lhe o momento certo para começar, confessa à CNN Portugal. Quis antecipar-se, ganhar experiência e perceber como funcionam as coisas fora da teoria.
Hoje, os dias seguem um ritmo que deixa pouco espaço para pausas. Trabalha até ao final da tarde e, às 18:00, segue diretamente para as aulas. Chega, senta-se e tenta "mudar o chip" - do trabalhador para o estudante. As aulas prolongam-se até perto das 23:00. Quando regressa a casa, o dia ainda não acabou: há trabalhos para adiantar, leituras por fazer e, mais recentemente, uma tese que exige foco contínuo. No dia seguinte, recomeça tudo.
"É difícil conciliar, mas não é impossível", afirma. Ao longo dos meses, foi encontrando formas de gerir o tempo, de organizar tarefas e de perceber onde pode ceder. Ainda assim, reconhece o limite: "Dar 100% a ambos… isso não consigo. Acabo por me focar mais num do que no outro e, obviamente, isso já teve impacto nos dois."
Essa impossibilidade sente-se no corpo. Depois de um dia inteiro de trabalho, entrar numa sala de aula não é apenas uma mudança de espaço, é um esforço de concentração que exige energia que já não é muita. Há dias em que as ideias custam mais a fixar, em que a atenção se dispersa, em que o cansaço pesa mais do que a motivação. E depois há a tese, que não se faz em intervalos nem com pressa.
"É extremamente exaustivo. Fazer uma tese é um trabalho altamente racional, altamente pensativo. Depois de oito horas de trabalho é preciso outro nível de motivação", admite. Uma motivação que, muitas vezes, não vem de fora, mas de uma ideia persistente de futuro - de que este esforço vai compensar.
O impacto faz-se sentir sobretudo na vida pessoal. "Acabo por não ter tanto tempo para passar com os amigos e com a família. Às vezes consigo estar com eles uma vez por mês. Outras vezes muito menos do que isso... É uma gestão difícil nesse sentido", explica.
A experiência de Jaden encaixa naquilo que a psicóloga Ana Isabel Lage Ferreira descreve como uma transição acelerada para a vida adulta. Trabalhar enquanto se estuda pode ser uma forma de crescimento, mas o contexto em que acontece é determinante. "Não é a mesma coisa quando existe escolha e quando existe necessidade", esclarece.
No caso de quem opta por trabalhar, com algum suporte familiar, a experiência pode ser estruturante, ajudando a desenvolver autonomia e responsabilidade. "Quanto mais diversas as relações e os contextos, mais oportunidades de desenvolvimento. Uma coisa é estar em contacto com colegas ou pares que sempre conheci, que têm a mesma idade e os mesmos desafios que eu, outra é estar num contexto onde tenho de lidar com pessoas mais velhas, com pessoas mais novas, com pessoas mais difíceis. Isso vai apelar a esta ativação de competências ou de dimensões que à partida não estariam ativas", sublinha a psicóloga.
Mas mesmo aí há limites. "O problema é quando deixa de haver equilíbrio", avisa ainda.
E o equilíbrio, neste tipo de rotina, é frágil. Gabriela Costa, 21 anos, conhece bem essa fragilidade. Começou a trabalhar ainda antes de terminar a licenciatura, quando surgiu um estágio numa agência de publicidade. Não quis esperar pelo diploma. Parecia-lhe mais importante começar já, ganhar terreno, não ficar para trás. O estágio transformou-se em trabalho, e o trabalho acumulou-se com uma pós-graduação que decidiu fazer mais tarde.
"Há alturas em que consigo conciliar, mas com privação de sono. Outras vezes, simplesmente não dá, então tenho de abdicar de noites de sono, de fins de semana. Às vezes estou no trabalho a fazer coisas da faculdade ou estou na faculdade a fazer coisas do trabalho. Outras vezes tenho de faltar a algumas aulas", conta à CNN Portugal.
A cabeça oscila entre tarefas, responsabilidades e prazos, sem nunca desligar completamente. E depois há o mais difícil de explicar: a ausência de pausas. "Já tive meses sem um único dia de descanso", admite.
A vida pessoal vai ficando para trás. Os planos com amigos são cancelados, os momentos em família tornam-se raros, o tempo livre transforma-se num conceito distante. "Sou conhecida como a pessoa que nunca tem tempo."
Ainda assim, reconhece benefícios. Trabalhar enquanto estuda obrigou-a a desenvolver competências como gestão de tempo, resistência ao stress e multitasking. "Como trabalho na área que estudo, consigo aplicar o que aprendo. Isso acaba por ser uma vantagem", afirma.
Do lado das empresas, o percurso de Gabriela e de Jaden é valorizado. Para José Pestana, Business Unit Manager do Shared Service Center da Randstad Portugal, um jovem que consegue conciliar trabalho e estudos traz consigo um conjunto de competências que não se aprendem na universidade. "É um atestado de experiência", considera. Mais do que o conteúdo do trabalho, é o que ele revela: capacidade de organização, gestão de tempo, resistência à pressão. "Para as empresas, alguém que escolhe (ou precisa de) conciliar os estudos e o trabalho já deu também provas extra de agilidade."
Num mercado onde muitos candidatos têm formações semelhantes, essa experiência pode fazer a diferença. "Entre dois candidatos com qualificações idênticas, o empregador tende a escolher quem já teve contacto com o mercado. No ambiente corporativo atual, onde a mudança é a única constante, ter alguém que já treinou a capacidade de foco e é capaz de equilibrar múltiplas prioridades é um ativo valioso. Esse candidato traz consigo já noções de compromisso profissional", acrescenta o especialista.
Mesmo quando o trabalho não está diretamente ligado à área de estudo, continua a ser valorizado: "As empresas valorizam estas competências transversais porque se a técnica se ensina, a postura e a capacidade de lidar com o público ou trabalhar em equipa são muito fruto da experiência prática."
"Ando sempre a correr"
Madalena Pedro, 21 anos, trabalha em gestão de redes sociais, uma área onde os horários nem sempre são previsíveis. Há semanas mais leves, mas há outras em que o trabalho se aproxima de um horário completo, mesmo sendo, à partida, parcial.
"Sinto que ando sempre a correr e existe uma pressão extra para cumprir os prazos", conta.
O tempo deixa de ser suficiente e passa a ser algo que se gere ao minuto. Para dar resposta a tudo, Madalena explica que faz ajustes constantes: dorme menos, acorda mais cedo e aproveita cada intervalo para adiantar tarefas.
O cansaço acumula-se e, ao final do dia, a diferença é evidente. "Sinto-me muito mais cansada do que se tivesse só aulas", afirma. Ainda assim, está a trabalhar na área em que estuda, a ganhar experiência direta, a construir um percurso que faz sentido para si. Essa coerência ajuda a manter a motivação, mesmo quando o ritmo se torna difícil de sustentar, admite.
Segundo Ana Isabel Lage Ferreira, alterações no sono, irritabilidade, isolamento e dificuldade em concentrar-se são indicadores de que a exigência ultrapassou a capacidade de adaptação dos jovens. "Quando começa a comprometer o bem-estar, é sinal de que algo não está equilibrado." E essa linha nem sempre é fácil de identificar, sobretudo quando há pressão constante para continuar. "A partir do momento em que começam a perder interesse pelas atividades do trabalho ou pelas atividades da faculdade, que começam a sentir-se mais isolados, menos envolvidos com as coisas à sua volta, esse é o limite."
"O que eu recomendo é que façam sempre uma avaliação o mais realista possível de todas as coisas que querem fazer, porque se vão trabalhar a tempo inteiro e estudar a tempo inteiro então também se calhar não podem ter uma vida pessoal a tempo inteiro porque a certa altura o número de horas do dia não chega. Portanto, façam uma avaliação realista do que é que podem pôr em pausa para depois poderem estar mais confortáveis com as decisões que tomam. Se não estiver a correr bem não considerem isso necessariamente como, ‘eu não consigo e estou a falhar’. Pensem antes ‘não, isto está a ser demais, calma, vou pensar melhor em vez de manter um ritmo que é prejudicial para o meu bem-estar’", sugere a psicóloga.
Quando não há escolha
Para alguns jovens, no entanto, não há espaço para escolha. Ana Lopes - que preferiu usar um nome falso por receio de represálias - começou a trabalhar quando as despesas começaram a acumular-se. Hoje concilia um emprego em vendas com um mestrado em design, numa rotina que descreve como possível, mas longe de ideal.
Apesar das dificuldades, Ana reconhece o impacto positivo da experiência. Sente que aprendeu a comunicar melhor, a lidar com diferentes tipos de pessoas, a resolver situações inesperadas "que de outra forma não tinha conseguido". Mas não a romantiza. "Se houver necessidade, claro que sim. Mas se houver estabilidade… talvez não valha a pena."
O maior obstáculo, diz, tem sido no contexto académico. Enquanto do lado profissional encontra alguma flexibilidade para ajustar horários e gerir imprevistos, no contexto académico essa margem parece mais reduzida. E a falta de adaptação não se resume aos horários. Às vezes, surge em pequenos episódios que acabam por marcar a experiência. "No trabalho são compreensivos. Na faculdade, é o contrário. Sinto até que há um pouco de discriminação por quem trabalha."
"Houve casos em que os trabalhadores-estudantes foram todos colocados no mesmo grupo porque ninguém queria trabalhar connosco”, conta.
A perceção de que têm menos disponibilidade acaba por pesar na forma como são vistos pelos colegas e, por vezes, nas expectativas de alguns professores.
"Há professores que esperam que dêmos 24 horas sobre sete dias da semana à sua unidade curricular, como se não tivéssemos trabalho nem vida pessoal nem sequer outras disciplinas. Não têm essa sensibilidade para com os alunos. Aliás, às vezes até fazem certos comentários desagradáveis", lamenta. "Sendo que o mestrado ainda é de um valor elevado, não faz sentido não terem qualquer tipo de preocupação ou sensibilidade com trabalhadores-estudantes e ainda nos discriminarem."
Gabriela Costa já se sentiu vítima do mesmo. "Para quem estuda à noite deveria haver mais compreensão. Às vezes marcam faltas mesmo sabendo que a pessoa vem diretamente do trabalho. E, muitas vezes, os trabalhos são marcados com timings muito apertados ou há alterações de última hora. Isso não permite qualquer flexibilidade para quem trabalha o dia inteiro", acrescenta a jovem, que considera que o Estatuto do Trabalhador-Estudante, regulamentado pelo Código do Trabalho, não protege os alunos destas situações.
Também Jaden Gomes identifica esse desajuste entre o modelo académico e a realidade de quem já está no mercado. "Ao ser um curso pós-laboral presume-se que esteja focado em trabalhadores-estudantes, em pessoas que já estão inseridas no mercado de trabalho, mas que querem efetivamente saber mais e estudar mais, mas não me parece que esteja adaptado para esse perfil. Ao contabilizar faltas e permitir várias entregas e trabalhar ao mesmo tempo não está, de todo, equilibrado nesse sentido."
O jovem acredita que a solução vai além de ajustes pontuais. "Temos mesmo de trabalhar em legislação a nível nacional que defenda os trabalhadores-estudantes", defende. "Nem toda a gente tem oportunidade de fazer um mestrado e muitos fazem-no nestas condições, com custos elevados. Portanto, esses cursos têm de ser ou desenhados a que seja adequado para que um estudante possa fazer ambas as coisas ou tem de haver maior apoio em termos de ação social."
