Toulouse e a ode à paz: cidade do râguebi abraça o Mundo no Tour

Samuel Santos , Toulouse, França
22 jul 2025, 08:17

Na "cidade rosa", onde ainda se escuta o dialeto Occitano, o Tour descansou e desvendou a 11.ª etapa. A vida desenrola-se com calma e sobre duas rodas, com o futebol em segundo plano. O Maisfutebol viveu os bastidores desta etapa, entre petiscos, histórias, bandeiras e paixão pelo Tour

O relógio decalca as oito da manhã de quarta-feira e Toulouse acorda ao som de pássaros e bicicletas. Carros, nem ver. O horizonte é azul, verde, terracota e limpo. O asfalto está reservado para a 11.ª etapa do Tour de France, após o primeiro dia de descanso. Os prédios de tijolo terracota – construção milenar no sul de França – disfarçam-se de rosa, tingidos pelo sol.

A “cidade rosa” prepara-se para celebrar um hábito reforçado na pandemia, do quotidiano sobre duas rodas, de capacete e cabelos ao vento. Os efeitos estão à vista. Há dezenas de ciclovias e centenas de bicicletas públicas, com estacionamento garantido.

Em Toulouse, o ciclismo não reina – o trono é partilhado por râguebi e engenharia aeroespacial – mas a maior 'Volta' transforma a cidade num oásis de paz e confraternização, entre dezenas de bandeiras – de Portugal, Itália, Eslovénia, Eslováquia, Espanha, Grécia, Colômbia, País de Gales, Eritreia, Tunísia, Maurícia, Estados Unidos, Turquia, Alemanha, Canadá, Bélgica, Dinamarca, Noruega, França, entre outras.

Maisfutebol esteve em Toulouse graças à VELUX, patrocinadora do Tour de France. Aproveite para recordar a entrevista a Nélson Oliveira, de 36 anos, o único português em prova e «capitão» da Movistar.

A tranquilidade convida a passeios pelas margens do rio Garona, até à casa do Stade Toulousain, o clube mais querido na cidade. Fundado em 1907, o “ST” é o pináculo da paixão pelo râguebi. Num estádio de poucos luxos, o essencial está na entrada: palmarés, cronologia e homenagens.

Os 50 milhões de euros de orçamento estão reservados para o investimento em atletas de elite.

Palmarés do "ST", com um jogador a segurar Nice, deusa da vitória na mitologia grega. Esta deusa ajudou ao"batismo" da marca Nike.
Memorial aos sócios que combateram e morreram na primeira e segunda Guerra Mundial. Nenhum corpo regressou a França.
Em 2020, quase três mil sócios uniram-se para ajudar o clube, doando milhares de euros. Em troca, viram estas pequenas placas afixadas na entrada do estádio.
Escultura do norte-americano Nathan Sawaya, com mais de 18 mil peças de LEGO.

O Stade Toulousain é tricampeão francês em título – venceu 24 finais em 31 – e o emblema mais titulado na Taça dos Campeões Europeus, com seis conquistas. Todavia, este ano, o cetro continental caiu nas mãos do Bordeaux Bègles.

As cores do emblema remetem para as roupas escolhidas para os magistrados de Toulouse no século XIV.

O estádio de 19 mil lugares não tem bilhetes disponíveis desde 2021, o que obrigou a planos para a adição de cinco mil lugares. Por agora, o estádio de futebol do Toulouse, com capacidade para 33 mil adeptos, serve de alternativa.

O balneário é humilde e o único destaque pertence aos atletas que realizaram, pelo menos, 100 jogos pelo "ST".

«E o símbolo tem “ST” em referência ao nome do clube, certo?». Nada mais errado.

Em Toulouse foi edificada a “casa-mãe” dos dominicanos – o Convento dos Jacobinos – o maior templo em honra de São Tomás de Aquino, teólogo e filósofo italiano do século XIII. Nesta construção gótica – outrora refúgio das tropas de Napoleão – estão as relíquias do São Tomás de Aquino.

Todavia, a explicação para o emblema do Stade Toulousain não se esgota neste convento.

Convento dos Jacobinos, em Toulouse, referência na arquitetura gótica. Esta "palmeira" que ajuda a sustentar a única abóbada é uma das principais atrações. Na origem, o convento servia de local de decisão política.

A escassos quilómetros, na nave mais distante da Basílica de Saint-Sernin, um círculo revela a inscrição “ST”, em memória de São Tomás de Aquino, cujos restos mortais foram guardados neste lugar durante a Revolução Francesa.

Fachada da Basílica de Saint-Sernin, construída entre os século XI e XIV. Serviu de homenagem a São Saturnino de Tolosa, o primeiro bispo de Toulouse e morto pelos pagãos devotos a deuses romanos, no ano 257 depois de Cristo. O bispo, de acordo com os registos, insurgiu-se contra a morte de um touro, sendo preso e arrastado pelo animal, até a corda se partir.
Jardim da Basílica de Saint-Sernin.
A Rua do Touro, onde terá terminado o martírio de São Saturnino de Tolosa. As ruas estão assinaladas em francês e no dialeto Occitano, idioma românico falado no sul de França, norte de Espanha, Mónaco e em algumas cidades de Itália. De notar, no canto superior esquerdo, a Cruz Occitana, brasão dos condes de Toulouse. Se atentar na transmissão televisiva das etapas da última semana, por várias ocasiões são percetíveis bandeiras com a Cruz Occitana.

Entretanto, a caravana do Tour já alcançou o estádio do Toulouse – de futebol, décimo da Ligue 1 – a quatro quilómetros da Basílica de Saint-Sernin. Pés ao caminho, com a temperatura a dobrar os 30.ºC. Em contraponto, os locais estacionam as bicicletas e aproveitam as sombras no jardim adjacente à basílica para almoçar. Esta é a bitola que também domina a Biblioteca do Estudo e Património de Périgord e a Capela das Carmelitas.

Biblioteca do Estudo e Património de Périgord.
Biblioteca do Estudo e Património de Périgord.
A Capela das Carmelitas, construída no século XVII, foi um raro caso de sobrevivência à Revolução Francesa, que visou lugares de culto católico, face ao poder acumulado.
Capela das Carmelitas. Este lugar é gabado pelos «traços de Capela Sistina», em referência à existente no Vaticano.

«Nunca vi algo assim, o Tour está muito à frente»

Mapa para que te quero? A romaria revela a rota para o estádio, o espetáculo que antecede a 11.ª etapa. As dezenas de carros alegóricos de patrocinadores desfilam e distribuem brindes – alguns inesperados, como detergente para a roupa. Mas, esta é a festa do povo, adultos e crianças saltam e disputam os objetos. E a nuvem de bandeiras intensifica-se à medida que os autocarros estacionam no reduto do Toulouse, no futebol também conhecido por “TéFéCé”.

«Vuelta? Nunca vi algo assim, o Tour está muito à frente», comentam jornalistas espanhóis, que também lamentam o abandono de João Almeida, o «melhor gregário». Invejam o talento do “Bota Lume” e sublinham a escassez de astros espanhóis.

A conversa ibérica é interrompida por gritos. Aproxima-se o autocarro da UAE Emirates, sem João Almeida, com leões de peluche junto ao vidro e uma cortina que impede vislumbrar Tadej Pogacar e companhia.

Ainda que de cadeira de rodas e com um pé engessado, esta criança entrevista Clément Berthet, ciclista francês da Decathlon AG2R La Mondiale. Foi uma conversa programada pela organização do Tour e patrocinada pela marca que detém direitos sobre a camisola branca, da juventude.

Na área restrita a protagonistas do Tour, comunicação social e convidados – o “paddock” – o francês Julian Alaphilippe (Tudor Pro Cycling), de 33 anos, é o primeiro a ser brindado pela onda de aplausos, acenos, buzinas e até berros. Entre autógrafos, fotografias, cadernetas de cromos, entrevistas e croissants, é possível passear entre quase todos os atletas, que se perfilam para o arranque simbólico.

No entanto, a segurança aperta em redor dos autocarros de Emirates e Team Visma, sendo impossível alcançar os ciclistas, para desalento generalizado. Só é possível acenar às estrelas aquando da subida ao palco, a uma distância considerável.

Os bastidores do pódio e um invasor placado

À parte de tapas, sangrias, queijos e pratos típicos – carnes de porco e pato, e uma espécie de “dobrada” com feijão branco – a caravana do Tour percorre a cidade e generaliza o estado de apoteose. Os ciclistas pedalam sem piedade, banalizando a tarde de 35.ºC. Junto à meta há debates para todos os gostos, desde a prestação dos gregários à condição física de Jonas Vingegaard (Team Visma).

A duas horas do derradeiro sprint, uma bandeira do Varzim e da Póvoa de Varzim rouba as atenções. O dono, equipado com a camisola da Seleção Nacional, estende a bandeira com orgulho, encontrando espaço para se destacar.

Antes da azáfama da chegada, os convidados têm nova oportunidade de percorrer os bastidores, um sonho para qualquer aficionado. Há dezenas de cabos sobre o asfalto, pelo que todo o cuidado é pouco.

«Atentem na câmara sobre a linha da meta, está programada para armazenar cinco mil fotografias num segundo», relata o responsável pela visita guiada. Trata-se da famosa câmara do “photo finish”, decisiva para dissipar dúvidas quanto às classificações.

Enquanto os cães da polícia farejam o perímetro, somos conduzidos ao pódio, ao corredor de recuperação física e entrevistas, à zona de controlo antidoping e à sala de descanso, por norma não filmada. Ao Maisfutebol, o responsável explica que é priorizada a tranquilidade dos atletas.

Ou seja, esta metodologia contraria a lógica da “Cooldown Room” da Fórmula 1, sala na qual os telespectadores assistem às conversas entre pilotos.

Entrada para a referida sala de descanso, junto ao pódio.
A referida sala de descanso.

Há milhares de olhos colados nos ecrãs gigantes, quase ignorando novo desfile dos carros alegóricos, desta feita acompanhados por ciclistas amadores. Até que um grito generalizado instala a preocupação – Pogacar cai a quatro quilómetros da meta. Há mãos na cabeça, telemóveis ao ouvido e análises a quente. De seguida, um aplauso irrompe, enaltecendo a atitude de o pelotão esperar pelo astro esloveno.

«É o Tour! Isto sim são grandes atletas, grandes humanos. Bravo!», atira um desconhecido na multidão, em inglês, com sotaque mediterrânico. Maior emoção somente no sprint do norueguês Jonas Abrahamsen (Uno-X), estreante a vencer no Tour.

Antes, num raro momento de desorganização das centenas de seguranças e polícias armados, um manifestante saltou para a estrada. Seguiu-se a tremenda placagem aplicada pelo comissário Stéphane Boury, quiçá antigo atleta râguebi.

Pormenor na farda dos polícias.

A tarde de quarta-feira cai com bandeiras da Noruega a surgirem em bares e restaurantes – astuta jogada. A multdião migra – a pé ou de bicicleta – para o coração de Toulouse. Enquanto os edifícios continuam tingidos pelo sol, as ruas adquirem os tons das inúmeras bandeiras. É a festa do povo, todos diferentes e unidos pelo Tour.

A música sobe de tom, a temperatura estaciona nos 26.ºC e as esplanadas estão lotadas. Concretizados os sonhos, o “after” renova os ânimos, sem hora para terminar.

Capitólio de Toulouse.
Junto ao Capitólio está descrita a história de Toulouse, com menção natural ao râguebi.
No mesmo local há menções à engenharia aeroespacial e à presença da Airbus em Toulouse. Uma das principais fábricas desta multinacional foi inaugurada na cidade francesa em 1970. Nos arredores de Toulouse está localizado o Aeroscopia, um dos principais museus de aviação em França.

Naquela quarta-feira, Toulouse foi o epicentro do Mundo e do ciclismo. Por sinal, a capital de convívio, coexistência, respeito e paz.

Vive le Tour de France!

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