Através das redes sociais combinaram-se horas e locais para ir atrás dos imigrantes. Tudo com um objetivo: "Chegar o dia em que não vemos nenhum deles"
Foi apagado mas deixou a sua marca. Quem quisesse ingressar neste grupo, conseguia fazê-lo sem impedimentos. Bastava ter vontade de ir atrás dos imigrantes. Através do Telegram, o grupo “Deport Them Now Spain” incitava ao ódio e à violência contra os imigrantes, promovendo uma autêntica “caça” aos imigrantes, nomeadamente aos que chegam a Espanha vindos do Magreb.
Nas redes sociais espalham-se mensagens de ódio, marcam-se horas e locais para perseguir os imigrantes e até são partilhadas fotos de Hitler. Elementos de extrema-direita e de grupos extremistas convocaram uma manifestação para esta terça-feira, encorajada por círculos próximos do Vox, segundo o El País. A principal acusação é a de que o agressor do ataque ao homem de 68 anos na passada quarta-feira em Torre de Pacheco, na região de Murcia, é de origem norte-africana.
“As cabeças dos mouros vão rolar!”. “Mas há uma verdadeira caça para ser feita”. “Temos de os perseguir, temos de acabar com esta gentalha”. “Não posso esperar que eles venham e se sintam como reis”. Estas são algumas das muitas mensagens que circulavam no grupo de Telegram, entretanto apagado. Mais de 21 mil mensagens foram enviadas, todas de ódio contra os imigrantes.
Os utilizadores podiam escolher entre 17 chats diferentes, cada um com o nome de uma comunidade autónoma de Espanha. O grupo já contava com mais de 1.700 membros e cresceu a uma larga escala.
O de Murcia, região onde fica Torre Pacheco, cresceu rapidamente. “Foi assim que alguns JOVENS ESTRANGEIROS deixaram um morador de Torre Pacheco”, pode ler-se, citado pelo El País, numa referência ao ataque original.
Depois disso o caos instalou-se na cidade. As perseguições a imigrantes marroquinos decorrem desde a passada sexta-feira e grupos extremistas organizam-se e prepararam tudo para executar a "caça aos magrebinos", contando com as redes sociais como um forte aliado.
As dúvidas não os impedem. Mesmo que surja "mas como é que os queres apanhar? Não tens fotografias de quem são ou como são, pois não?", as respostas são imediatas: “Eu batia em toda a gente”; “Para atingir toda a gente”; "Diretamente. Sem fazer perguntas. Eles não olham para nada. Nós também não olhamos”.
Um dos utilizadores, ao mencionar o plano, diz que o objetivo é “chegar o dia em que não vemos nenhum deles”.
O Telegram emitiu esta segunda um aviso pelas 20:36. Depois disso o grupo que incitava à violência foi apagado.
Em consequência dos ataques e distúrbios causados já foram detidas pelas forças de segurança pelo menos 13 pessoas. Segundo o El País, o líder do grupo “Deport Them Now” está entre os detidos, acusado de um alegado crime de incitamento ao ódio.
Ainda de acordo com o El País, os dados do portal estatístico da região de Murcia revelam que a cidade de Torre do Pacheco conta com 40 mil habitantes, sendo que mais de seis mil são de origem africana, mais 400 do que em 2021. O Ministério do Interior disponibiliza também os últimos dados sobre a criminalidade na cidade não classificados por nacionalidade: 509 crimes entre janeiro e março, mais 20 do que no mesmo período de 2024.