Grupos de extrema-direita lançaram uma ação contra jovens imigrantes que vivem em Torre Pacheco, que fica perto de Múrcia (Espanha), depois de um homem de 68 anos ter sido agredido. A comunidade ainda convocou uma manifestação pacífica mas os acontecimentos acabaram por se descontrolar, o que levou a confrontos violentos entre ambos os lados. Pergunta 1: há risco de imitação em Portugal?; pergunta 2: como é que a polícia portuguesa pode monitorizar esse risco - anulando-o?
O que se está a passar em Torre Pacheco "não traz risco para Portugal", começa antes de tudo por assegurar Hugo Costeira, ex-presidente do Observatório de Segurança Interna. O também especialista em cibersegurança acredita que a probabilidade de ocorrer algum tipo de fenómeno de replicação em solo luso é muito baixo - ou mesmo nulo -, porque "os portugueses, em termos sociais, não estão tão extremados como em Espanha ou noutros países da Europa, onde a situação é claramente preocupante".
"O grande fenómeno a este nível que nós temos em Portugal e que pode realmente espoletar uma situação destas é sempre 'o pior das claques de futebol'", refere, dizendo que em Portugal "este tipo de incidentes não tem acontecido". "Acho que não é preocupante e não vejo forma disso acontecer em Portugal desta forma, a não ser que realmente haja agressões de caris sexual e alguém mais afoito, antes da polícia chegar, possa levar isso a peito e fazer alguma justiça", teoriza.
Grande parte da revolta que levou o caos às ruas de Torre Pacheco foi potenciada nas redes sociais. Mas como conseguem as autoridades monitorizar - não as redes sociais normais, mas apps encriptadas em dois pontos, ou seja, no emissor e no receptor -, como o Telegram, Signal ou WhatsApp? Hugo Costeira recorda que é uma das áreas em que tem mais anos de experiência e, apesar de demonstrar vontade de dar uma resposta mais alargada e completa, lembra que "estaria a dar inputs técnicos que são importantes para quem faz a monitorização das redes sociais, mas também são importantes para quem é monitorizado". Ainda assim, o especialista em cibersegurança garante que "hoje em dia há ferramentas no mundo das forças de segurança e dos serviços de informação que podem perfeitamente detetar todo o tipo de discurso, identificar perfis e identificar os responsáveis por esses perfis, entrar dentro dos grupos e extrair todo o tipo de informação e mais alguma que se queira".
"A questão é nem todos os Estados têm capacidade financeira, muitas vezes, para adquirir determinado tipo de software", sendo que já não estamos a falar de softwares como o Pegasus - que ficou famoso após uma investigação de um consórcio de jornalistas ter exposto que a ferramenta tinha mais de 50 mil telemóveis como potenciais alvos -, explica Hugo Costeira. Agora "já estamos a falar de ferramentas até mais avançadas e úteis do que essa e que realmente podem ser usadas nas redes sociais para a deteção e prevenção de uma série de fenómenos, desde a radicalização até atos criminosos ou terroristas".
O ex-presidente do Observatório de Segurança Interna garante que esta monitorização hoje em dia "não é nada difícil de fazer", primeiro porque agora "há mil programas" e segundo porque "o avanço da inteligência artificial" agilizou a capacidade de processamento de dados. E como está Portugal em relação ao resto da Europa neste campo? "Andamos ali pela metade, mas mais perto da cauda da Europa."
Os portugueses "são tipos muito pacatos"
Portugal, ao contrário de Espanha ou França, não tem esta tendência para ser palco deste tipo de ocorrências. "Temos tido muitas manifestações e são sempre pacíficas e ordeiras, com muito raras exceções", recorda Hugo Costeira, alertando que há uma questão que levanta "alguma preocupação": a intolerância religiosa.
"Recordo-me de ver um vídeo aqui há uns meses, creio que na zona do Porto, de alguém a tentar destruir uma cruz cristã num cemitério e essas são as intolerâncias que normalmente levam a conflitos indesejáveis. É bom que quem seja de cá perceba que temos de aceitar as religiões dos outros, mas quem vier para cá tem de ter noção de quem somos e qual é a nossa matriz religiosa - que tem de ser respeitada."
Hugo Costeira considera que os portugueses "são tipos muito pacatos" e que isso é uma "vantagem social" quando comparados com espanhóis ou franceses, onde "há realmente fenómenos que se agudizaram" e que se podem "perfeitamente transformar rapidamente em algum complicado". A exceção é mesmo a religião: o especialista alerta que, em certas pontos de Portugal, os cidadãos podem reagir intempestivamente se "símbolos religiosos cristãos/católicos forem, por exemplo, assaltados, derrubados, sujados ou manchados".
Hugo Costeira sublinha que "estas ocorrências [como em Torre Pacheco] causam-nos preocupação, causam-nos repulsa, mas é tudo muito circunscrito àquele local". "A polícia perdeu o controlo e depois, nestas situações, há sempre quem viva destas situações porque há oportunistas que gostam da violência. E, se calhar, oportunistas que até nem tinham nada que ver com aquilo, até geograficamente."
Hugo Costeira lembra ainda que "a priori, os grupos de extrema-direita estão naturalmente monitorizados e isso é certamente algo que está a ser analisado" pelas autoridades espanholas. Resta saber quando e se será tornado público.