Mudança mínima em cirurgia a cataratas evitaria 13 toneladas de plástico por ano em Portugal

Agência Lusa , AM
22 nov, 09:53
Cirurgia ao olho (arquivo)

Em causa está um novo protocolo para “Redução de Resíduos na Cirurgia às Cataratas”, o que, nos hospitais do Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga, consistiu em eliminar uma série de utensílios descartáveis

O Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga (CHEDV) reduziu ao mínimo os consumíveis utilizados na cirurgia às cataratas, graças a um protocolo que, a replicar-se nos hospitais da rede pública nacional, evitaria 13 toneladas de plástico anualmente.

É essa a conclusão dos coordenadores da experiência conduzida ao longo de 2021 nos hospitais de Santa Maria da Feira e São João da Madeira, ambos no distrito de Aveiro, e distinguida este mês no Dubai como “um dos oito melhores projetos a nível mundial entre os cerca de 400 candidatos” aos prémios da Federação Internacional dos Hospitais.

Em causa está um novo protocolo para “Redução de Resíduos na Cirurgia às Cataratas”, o que, nos hospitais do CHEDV, consistiu em eliminar uma série de utensílios descartáveis que, “por tradição”, eram aplicados no doente para administração intravenosa de fármacos, mas, na prática, se revelavam desnecessários e redundantes.

Marcos Pacheco, coordenador do referido projeto e diretor do Serviço de Anestesiologia do CHEDV, explicou à Lusa que o procedimento adotado anteriormente implicava, para cada utente intervencionado, um kit de 136,7 gramas contendo saco de soro, sistema vertical de administração, torneira, prolongador, cateter, adesivo para fixação à pele e ainda paracetamol líquido – este último ao preço médio de 15 euros por dose. Com a alteração agora implementada, contudo, a intervenção passa a envolver apenas 47,7 gramas, já que a lista de consumíveis ficou reduzida a cateter, adesivo e um comprimido de paracetamol – que, no estado sólido, implica maior antecipação por ter que ser administrado 30 minutos antes da cirurgia, mas, em contrapartida, custa apenas 15 cêntimos.

Considerando o universo das 1.877 cirurgias às cataratas realizadas no CHEDV em 2021, essa alteração significa que, só numa cirurgia específica, os hospitais da casa obtiveram “exatamente os mesmos resultados clínicos” produzindo “menos 167 quilos de resíduos de plástico” do que em anos anteriores.

O anestesiologista Nuno Alçada, que trabalhou no mesmo projeto, admite que cortar 89 gramas em cada cirurgia pode não parecer muito impressionante, mas realça que o novo procedimento ganha uma outra dimensão se vier a ser replicado a nível nacional e internacional. O médico já fez as contas, aliás, e, com base em dados da Direção-Geral da Saúde e do serviço de estatística da União Europeia, adianta: “Só com a cirurgia às cataratas, em Portugal isto corresponderia a que os hospitais da rede pública produzissem menos 13.000 quilos de plástico por ano. Na Europa, com a mesma alteração, evitava-se o desperdício de 418.000 toneladas de plástico”.

Tendo nascido da intenção de diminuir custos financeiros da produção cirúrgica no CHEDV, o projeto “Redução de Resíduos na Cirurgia às Cataratas” acabou por focar-se apenas na vertente ambiental dessa intervenção específica – que foi a escolhida como objeto da experiência por ser “muito rápida”, com uma duração média de 15 a 20 minutos, e todos os anos se realizar “em grande volume”, sempre em regime de ambulatório.

Para Marcos Pacheco, a transformação operada foi “muito simples em termos logísticos”, mas “muito complicada em termos comportamentais” devido à dificuldade em cativar os profissionais de saúde para o processo e convencê-los da pertinência da mudança.

“É tudo uma questão de mentalidade e filosofia”, afirma Marcos Pacheco. “As pessoas estavam habituadas àquele procedimento, com o uso de todos aqueles objetos, e não questionavam se eles eram realmente necessários. Resistiram muito à mudança e a luta maior foi fazê-las ver como aquilo implicava tanto desperdício”, revela.

O anestesiologista acrescenta que a maioria dos profissionais abordados argumentava que “não se deve alterar o que sempre foi feito da mesma maneira” e não percebia que “a solução não está tanto em dar um passo de gigante quanto em somar muitos pequenos passos” no dia-a-dia.

“É por isso que o foco não deve ser na redução de custos financeiros, porque aí o profissional encara o seu esforço como algo que só leva a que o Estado retire dinheiro à Saúde para o aplicar noutras áreas; o ângulo deve ser na preservação do ambiente e do planeta, porque assim os médicos, os enfermeiros e todos os envolvidos percebem que estão a cuidar do que fica cá para os seus filhos e para as próximas gerações”, afirma.

Depois da apresentação do projeto “Redução de Resíduos na Cirurgia às Cataratas” no Dubai, os coordenadores do projeto já foram consultados com vista à replicação da experiência num hospital de Singapura e em unidades representadas pelo Grupo Português de Cirurgia Implanto-Refrativa.

O CHEDV também está a preparar idêntica alteração de protocolo “noutras cirurgias rápidas, frequentes e envolvendo apenas anestesia local”, como as destinadas à remoção de sinais dermatológicos e as relativas à Síndrome do Túnel Cárpico.

Esperando que o exemplo dos hospitais da Feira e São João da Madeira possa inspirar mais eficiência ambiental noutras unidades, Nuno Alçada aponta mais três dados estatísticos para salientar porque é que a redução de resíduos hospitalares é particularmente urgente: “O setor da saúde é uma das indústrias com mais rápido crescimento mundial, é responsável por quase 5% dos gases com efeito de estufa a nível global e, se fosse um país, seria o quinto maior poluidor do planeta”.

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