Este homem e a sua cadela passaram sete anos a caminhar pelo mundo

CNN , Tamara Hardingham-Gill
10 jul, 12:00

Poucas pessoas se aventuram a caminhar pelo mundo inteiro, muito menos são as que conseguem realmente completar a viagem.

A 21 de maio de 2022, Tom Turcich, de New Jersey, tornou-se a 10ª pessoa a alcançar este feito notável, enquanto a sua companheira de quatro patas Savannah foi a primeira cadela a fazê-lo.

A dupla foi saudada com uma enorme celebração no regresso a casa, na qual participaram muitos dos amigos e familiares de Turcich, juntamente com outros simpatizantes da sua jornada.

O momento triunfante trouxe o fim de uma viagem de sete anos, 48.000 quilómetros, que ele tinha passado ainda mais tempo a planear.

“Foi muito surreal”, conta Turcich à CNN Travel a partir da casa dos seus pais em Haddon Township. “Eu imaginei como seria o final durante muito tempo. E quando isso aconteceu, havia pessoas a fazer fila nas ruas e a caminhar comigo.”

“A principal emoção era apenas de alívio. Esta viagem tinha dominado a minha vida durante 15 anos, e foi espantoso ser finalmente capaz de terminar esta etapa.”

Caminhada inspiracional

Tom Turcich, de New Jersey, e a sua cadela Savannah passaram sete anos juntos a caminhar pelo mundo.

A inspiração para a viagem surgiu após um dia triste em 2006, quando a sua amiga de longa data Ann Marie morreu num acidente de jet ski com apenas 17 anos.

“Para mim [a sua morte] teve um efeito muito esclarecedor”, explica ele. “Ela era uma pessoa muito melhor do que eu. E apercebi-me de que eu ia morrer [um dia] e que isso podia acontecer a qualquer momento. Então comecei a reavaliar tudo.”

Turcich, que foi comparado a Forrest Gump, a personagem que Tom Hanks interpretou no filme de 1994, decidiu que precisava de viagens e aventuras na sua vida e começou a estudar todos os diferentes meios que podia usar para fazê-lo.

Depois de ler sobre Steven Newman, referenciado nos Recordes Mundiais do Guinness como a primeira pessoa a dar a volta ao mundo, e o caminhante aventureiro Karl Bushby, que tem circum-navegado o globo a pé desde 1998, Turcich decidiu-se a concretizar este desafio.

“Pareceu-me que [caminhar] seria a melhor maneira de compreender o mundo e de ser forçado a conhecer novos lugares”, afirma. “Não queria apenas ir a Paris e Machu Picchu, queria realmente compreender o mundo e ver como as pessoas vivem no dia-a-dia.”

Assim que se decidiu a cumprir este objetivo, Turcich começou a planear a rota, tentando, em simultâneo, angariar fundos para as suas viagens.

Conseguiu poupar o suficiente para se aguentar cerca de dois anos na estrada, trabalhando durante o verão enquanto estava na faculdade, e voltando a viver em casa dos seus pais depois de se formar.

Contudo, pouco antes da sua partida, o proprietário de uma empresa local, Philadelphia Sign, tomou conhecimento dos seus planos e decidiu patrocinar a sua viagem.

“Ele [o empresário] por acaso conhecia Ann Marie e a sua família”, revela. “E quis apenas apoiar-me de alguma forma.”

Quase nove anos após ter tido esta ideia pela primeira vez, Turcich deu o primeiro passo da sua caminhada à volta do mundo.

Partiu a 2 de abril de 2015, pouco antes do seu 26º aniversário, empurrando um carrinho de bebé com equipamento para caminhadas, um saco-cama, um portátil, uma câmara DSLR e uma caixa de plástico, que utilizava para armazenar a sua comida.

Turcich diz ter traçado a sua rota com dois fatores principais em mente -- queria “chegar a todos os continentes e viajar com o mínimo possível de problemas burocráticos.”

“Pensei que seriam cerca de cinco anos e meio”, diz ele. “E isso provou-se ter sido bastante acertado no que diz respeito à caminhada propriamente dita.”

Companheira fiel

A dupla num campo de laranjeiras em Valência, Espanha, em 2018.

A viagem inteira acabou por demorar sete anos, principalmente devido a dois atrasos significativos. O primeiro ocorreu quando Turcich adoeceu com uma infeção bacteriana, da qual levou vários meses a recuperar, e o segundo foi devido à pandemia de Covid-19.

Ele sofreu inevitavelmente vários altos e baixos pelo caminho, incluindo ter sido convidado para casamentos locais tanto na Turquia (ou Türkiye) como no Uzbequistão, e terem-lhe apontado uma faca enquanto esteve no Panamá.

Antes de iniciar a caminhada, Turcich tinha viajado muito pouco para além de visitar Inglaterra, Irlanda e País de Gales durante uma viagem de intercâmbio escolar, e tinha também passado férias no Canadá e na República Dominicana.

Também não tinha muita experiência em caminhadas, embora tivesse anteriormente completado uma caminhada de 10 dias com um amigo, bem como algumas caminhadas de fim de semana.

Na primeira etapa da viagem caminhou de New Jersey para o Panamá. Cerca de quatro meses depois, Turcich adotou a sua companheira de viagem, a cachorrinha Savannah, num abrigo de animais em Austin, Texas.

Embora inicialmente não tivesse qualquer intenção de adotar um cão, Turcich não conseguia relaxar, principalmente quando se deitava nos acampamentos, e acordava constantemente durante a noite convencido de que estava a ouvir “algo a aproximar-se.”

Sentiu que se tivesse ao seu lado um amigo felpudo que pudesse “manter-se atento” durante a noite, isso faria toda a diferença, e acabou por se provar ser verdade.

“Ela tem sido fantástica”, diz ele sobre Savannah. “É bom ter alguém com quem partilhar estes momentos.”

Quando chegaram ao Panamá, a dupla sobrevoou o Darien Gap, um trecho traiçoeiro da selva entre o Panamá e a Colômbia. Após esse primeiro ano na estrada, Turcich criou uma conta na plataforma de doações Patreon, para que os seus seguidores tivessem a opção de ajudar a financiar as suas viagens.

Grande parte do segundo ano foi passado a pé de Bogotá, Colômbia, até Montevideu, Uruguai, onde apanharam um barco para a Antártida.

Foi mais ou menos nesta altura que Turcich regressou brevemente a casa para adquirir a papelada necessária para viajar para a Europa com Savannah.

Depois de chegarem à Europa, a dupla atravessou a Irlanda e a Escócia, mas foram obrigados a fazer uma pausa prolongada quando Turcich ficou demasiado doente para continuar.

“Acabei por desistir quando lá estava [na Escócia] e fui para Londres”, diz ele, explicando que esteve dentro e fora do hospital durante semanas enquanto esteve no Reino Unido e acabou por regressar a casa aos EUA para recuperar.

Tempos difíceis

Turcich, que documentou a sua viagem no Instagram e no seu blog The World Walk, retomou a caminhada a partir de Copenhaga em maio de 2018, mas demoraria algum tempo até voltar ao seu eu habitual, tanto mentalmente como fisicamente.

“Quando se está a caminhar, e se passa todo este tempo sozinho, é preciso ser-se realmente uma boa companhia [para nós próprios]”, explica.

“Principalmente quando se está sempre exposto aos elementos. E por isso não foi nada divertido para mim.”

Embora Turcich admita que começou a questionar-se sobre se conseguiria continuar, diz que nunca considerou seriamente desistir.

“Sem dúvida que houve alturas em que eu estava simplesmente deprimido”, diz ele. “E pensava, 'O que estou a fazer aqui? Podia estar com a minha família e com os meus amigos, e em vez disso estou a caminhar com esta chuva fria na Alemanha.’”

“Mas não acredito que alguma vez tivesse desistido. Há oito anos que andava a pensar na caminhada, antes mesmo de a iniciar. Por isso, seria uma loucura desistir após alguns anos.”

Só depois de ter percorrido o Caminho de Santiago, uma peregrinação que engloba várias rotas em Espanha, França e Portugal, é que começou a sentir-se “plenamente recuperado” e pronto para mergulhar novamente na sua viagem.

Turcich e Savannah partiram então para o Norte de África, onde atravessaram Marrocos, a Argélia, onde houve uma escolta policial, e a Tunísia.

Daí, circularam por Itália, Eslovénia, Croácia, Montenegro, Albânia e Grécia. Depois da Grécia, seguiram para a Turquia, onde Turcich se tornou o primeiro cidadão individual a ser autorizado a atravessar a ponte do Bósforo a pé.

Depois viajaram para a Geórgia, situada entre a Rússia e a Turquia, nas montanhas do Cáucaso, e para o Azerbaijão, um país transcontinental situado na fronteira da Europa Oriental e da Ásia Ocidental, assim que a pandemia chegou. Isto acabou por fazer com que fossem forçados a permanecer no Azerbaijão durante pelo menos seis meses.

Percurso de volta a casa

“Depois, seguiu-se apenas uma espécie de espera até conseguirmos entrar em qualquer parte da Ásia Central”, afirma Turcich, que inicialmente tinha como objetivo viajar através do Uzbequistão, Quirguistão, Cazaquistão, Mongólia, antes de voar para a Austrália, e depois voltar para os EUA.

Infelizmente, as rigorosas restrições de viagem em vigor na altura fizeram com que Turcich tivesse de desistir dos seus planos de visitar a Austrália e a Mongólia - ambas as fronteiras foram fechadas a visitantes internacionais durante cerca de dois anos - juntamente com o Cazaquistão.

Depois de atravessar o Quirguizistão, um pequeno país da Ásia Central que faz fronteira com a China, ele e Savannah voaram para Seattle em agosto de 2021, e começaram a regressar a New Jersey.

De todos os lugares que atravessou, durante a viagem, Turcich diz que o Wyoming, o estado menos povoado dos EUA, foi o mais difícil.

“É um deserto”, diz ele, recordando como, juntamente com Savannah, caminhou durante um fim de semana inteiro sem verem sequer uma loja ou mesmo uma pessoa, antes de finalmente se depararem com uma pequena bomba de gasolina.

“Isso apanhou-me totalmente desprevenido. Voltei para os EUA a pensar: 'Estou de volta a casa. É um país tão desenvolvido. Isto vai ser facílimo.’ Mas teria estado bem melhor nos desertos do Chile ou do Peru.”

Durante a sua caminhada pelo mundo, a dupla atravessou seis continentes e 38 países no seu conjunto, passando a maior parte das noites a acampar.

Os Recordes Mundiais do Guinness estabelecem os requisitos para uma circum-navegação a pé, viajando 18.000 milhas (cerca de 30.000 quilómetros) e atravessando quatro continentes - um objetivo ultrapassado por Turcich.

Num dia normal, Turcich e Savannah caminhavam entre 18 e 24 milhas (cerca de 29 a 38 quilómetros).

“O problema é que a Savannah tinha sempre muito mais energia do que eu,”, diz ele. “Isto [andar de país em país] sempre foi a realidade dela.”

“Houve alturas em que estávamos a atravessar o deserto e eu caía de cansaço no fim do dia e ela vinha com um pau pedir-me para brincar.”

Quando regressaram definitivamente ao solo americano, Turcich estava mais ansioso do que nunca para completar a longa caminhada e voltar à vida normal.

“Sete anos é muito tempo”, diz ele. “Quando o fim estava à vista, mal podia esperar para estar de volta. Estava mesmo pronto para estar de novo com os meus amigos e família, e não ter de arrumar a minha tenda todas as manhãs.”

Permanecer num lugar

 

A família da sua falecida amiga Ann Marie estava entre aqueles que o saudaram na celebração do seu regresso a casa, e enquanto Turcich ressalva que não pode falar em seu nome, gosta, ainda assim, de pensar que a sua viagem e a atenção que lhe foi dada podem ter ajudado de alguma forma.

“Não o estava necessariamente a fazer por Ann Marie”, afirmou. “Mas ela foi o catalisador e a inspiração por detrás desta decisão.”

“A sua morte inspirou-me mesmo a viver. E uma vez terminada [a caminhada] quando estive com a sua família lá, à chegada, pareceu-me que eles também sentiram uma maior aceitação em relação à sua partida.”

Agora que está de volta à sua cidade natal, Turcich está a gostar de se voltar a encontrar com os seus amigos e passar tempo com a sua família, juntamente com a sua namorada, que conheceu durante a última parte da viagem.

Embora adorasse ir à Mongólia um dia, um dos lugares para onde não pôde viajar devido a restrições Covid-19, Turcich não tem qualquer intenção de levar Savannah com ele.

“O voo é estupidamente longo, e ela [Savannah] não quer saber da Mongólia”, diz ele. “Talvez cheguemos lá um dia, talvez não.”

Por agora, está concentrado em escrever um livro de memórias sobre a sua viagem, e Savannah está a adaptar-se a estar num só lugar.

“O meu pai leva-a a dar uma volta de quatro milhas (cerca de seis quilómetros e meio) ao rio todas as manhãs”, diz ele. “E isso ajuda a gastar alguma da sua energia. Quando volta, salta para o sofá e dorme uma sesta. Parece bastante satisfeita aqui.”

Quando lhe perguntam se está ansioso por voltar à estrada, Turcich diz que é a última coisa em que pensa neste momento. Na verdade, não tem planos de ir a lado nenhum durante muito tempo.

“Quero desfrutar da vida sem andar e mesmo sem viajar”, diz ele. “Estou bastante cansado disso agora. Só quero permanecer num só lugar e estabelecer uma rotina.”

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