Com décadas de experiência nas forças de segurança e um papel central em políticas de imigração controversas, Homan assume agora a coordenação das operações do ICE em Minneapolis, num contexto de tensões políticas, disputas internas na administração e escrutínio público sobre a atuação federal
O “czar da fronteira” da Casa Branca que o Presidente Donald Trump está a enviar para Minneapolis, na sequência do tiroteio fatal que vitimou dois cidadãos norte-americanos, é um veterano das forças de segurança que tem defendido algumas das políticas de imigração mais controversas da administração Trump.
Trump disse, na segunda-feira, que ia enviar Tom Homan para o Minnesota após o tiroteio fatal de sábado, em que agentes federais mataram Alex Pretti, enfermeiro de cuidados intensivos em Minneapolis. O incidente agravou tensões e gerou críticas bipartidárias à forma como a administração Trump descreveu - sem apresentar provas - Pretti como alguém que pretendia cometer um ato de terrorismo doméstico e queria massacrar forças da autoridade. As autoridades federais recusaram-se, até agora, a divulgar publicamente detalhes críticos que sustentem a alegação de que um agente disparou em legítima defesa.
A decisão de enviar Homan para o Minnesota foi recebida com algum alívio por legisladores republicanos e responsáveis da Segurança Interna, uma vez que o “czar da fronteira”, de 64 anos, tem décadas de experiência nas forças de segurança. Iniciou a carreira como polícia em Nova Iorque, antes de se tornar agente da Patrulha de Fronteiras na Califórnia, em 1984. Homan liderou também os esforços de deportação do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE) durante a administração Obama.
Como diretor interino do ICE durante o primeiro mandato de Trump, Homan foi a face pública e um defensor vocal de algumas das políticas de imigração mais polémicas da administração, incluindo a separação de crianças e famílias que atravessavam a fronteira.
Num evento público, em setembro de 2017, afirmou que a sua agência iria deter imigrantes indocumentados que se apresentassem para cuidar das crianças, algo que administrações anteriores tinham evitado. Também se opôs de forma veemente às políticas de “cidades-santuário”, que limitam a cooperação das forças de segurança locais com os esforços federais de imigração.
Mas o envio de Homan para o Minnesota pelo presidente sugere também um possível afastamento das táticas mais duras usadas pelo alto responsável da Patrulha de Fronteiras, Gregory Bovino, e sublinha a disputa interna em curso na administração sobre a forma como está a ser executada a agenda de imigração do presidente.
A CNN noticiou, na segunda-feira, que Bovino e alguns dos seus agentes deverão deixar Minneapolis na terça-feira e regressar aos respetivos setores, segundo três fontes familiarizadas com as conversações. A Casa Branca afirmou que se espera que Homan passe a gerir as operações do ICE na cidade. Um responsável disse que a saída de Bovino foi uma “decisão mútua”.
Enquanto o estilo de atuação de Bovino tem sido apoiado pela secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, Homan tem, em geral, adotado uma abordagem mais rigorosa na aplicação da lei da imigração - procurando concentrar-se em ameaças à segurança pública e à segurança nacional. Trata-se de uma abordagem ligeiramente diferente das operações de grande escala que têm ocorrido em cidades de todo o país durante o segundo mandato de Trump.
Durante a campanha de 2024, Homan disse, numa entrevista ao programa “60 Minutes”, da CBS News, que a vasta campanha de deportações do presidente envolveria detenções direcionadas.
“Não vai ser — uma varredura em massa de bairros. Não vai ser a construção de campos de concentração. Li tudo isso. É ridículo”, afirmou então Homan, que também foi colaborador do Project 2025.
Mas, à medida que o Departamento de Segurança Interna ficou aquém das quotas internas de detenções de imigrantes, a agência alargou o seu foco para incluir operações generalizadas e abordagens em comunidades com elevada população imigrante. A agência tem afirmado poderes amplos de aplicação da lei de formas que não tinham sido tentadas por anteriores forças de segurança - incluindo um memorando interno que afirma que os agentes do ICE não precisam de mandados judiciais para revistar a casa de uma pessoa. Especialistas disseram à CNN que esta diretiva ignora salvaguardas fundamentais consagradas na Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos.
Embora Homan tenha, publicamente, estado alinhado com a administração Trump, tem havido conflitos internos entre fações que o apoiam e as que apoiam Noem. Segundo responsáveis norte-americanos, Homan e Noem, em geral, não têm falado um com o outro nos últimos meses.
Numa conferência de imprensa, na segunda-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que Homan passará agora a ser o “principal ponto de contacto no terreno em Minneapolis”, enquanto Bovino “continuará a liderar” a Patrulha de Fronteiras a nível nacional. Leavitt minimizou também qualquer aparência de conflito entre Noem e Homan.
“A secretária Noem é também responsável pela FEMA e estamos a sair de uma brutal tempestade de inverno que afetou centenas de milhares de americanos. O czar da fronteira Homan está numa posição única para largar tudo e ir para o Minnesota para continuar a ter conversações produtivas com responsáveis estaduais e locais”, disse Leavitt.
O líder da maioria no Senado, John Thune, elogiou a decisão de Trump de colocar Homan a supervisionar as operações de imigração no Minnesota, classificando-a como um “desenvolvimento positivo” que poderá levar a “baixar a temperatura e restaurar a ordem no Minnesota”.
“Ele sabe o que está a fazer. Percebe isto”, disse também à CNN um legislador republicano, acrescentando que Homan compreendia o sistema e como conduzir operações de aplicação da lei da forma “correta”. Aliados e conselheiros veem-no também como sendo “um adulto na sala”, disse uma fonte.
Homan tem estado sob algum escrutínio desde que assumiu o cargo atual. O New York Times noticiou, em setembro, que Homan foi gravado, em 2024, a aceitar um saco que continha 50 mil dólares em dinheiro por agentes do FBI disfarçados, numa investigação que o Departamento de Justiça da administração Trump acabou por encerrar.
Uma pessoa familiarizada com a operação disse à CNN que Homan aceitou o dinheiro como parte de uma operação encoberta e que estava a ser investigado por potencial suborno e outros crimes depois de ter concordado em ajudar os agentes disfarçados a obter contratos governamentais. Homan, por seu lado, afirmou que não “recebeu 50 mil dólares de ninguém”.
O Departamento de Justiça encerrou a investigação depois de Trump ter iniciado o seu segundo mandato no ano passado, devido a dúvidas de que os procuradores conseguissem provar que Homan tinha concordado com um ato específico em troca do dinheiro e porque não ocupava um cargo governamental na altura. A Casa Branca classificou posteriormente a investigação a Homan como “claramente política”.
Kaitlan Collins e Isabelle D’Antonio contribuíram para esta reportagem.