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Pode um movimento fictício de manipulação de massas ser um perigo real? "A Onda" é um alerta sobre a vulnerabilidade humana às ideologias extremistas

29 mar, 15:00
Todd Strasser (DR)

Livro de Todd Strasser vai ser publicado pela primeira vez em Portugal e aborda temas como manipulação de massas, conformismo e perda de identidade individual, mostrando como a necessidade de pertença pode sobrepor-se ao pensamento crítico

"Hoje, um dos meus alunos fez-me uma pergunta à qual eu não soube responder. E acho que nunca vi a resposta escrita em lado nenhum." A frase é de Ben Ross, professor de História que decide demonstrar aos seus alunos os mecanismos psicológicos que levaram à ascensão do nazismo. Criando “A Onda”, um movimento fictício com regras rígidas, saudação especial e forte sentido de pertença, Ross pretende ensinar uma lição prática. Mas aquilo que seria um exemplo prático rapidamente foge ao controlo, com os estudantes a desenvolverem comportamentos agressivos, intolerantes e até persecutórios em relação aos colegas que resistem à pressão do grupo.

O romance de Todd Strasser, escrito em 1981 sob o pseudónimo Morton Rhue, foi inspirado num caso real ocorrido nos anos 60 nos Estados Unidos - a “Terceira Onda”, um ensaio conduzido em 1969 pelo professor Ron Jones, na Califórnia, com o objetivo de provar que mesmo sociedades democráticas não estão imunes ao fascismo. No livro, o autor mostra como um grupo de jovens pode ser rapidamente seduzido por ideologias autoritárias quando esta se apresenta de forma organizada, convincente e apelativa.

Strasser constrói a história com um ritmo intenso, mostrando, de forma quase clínica, como a disciplina, o sentimento de pertença e a pressão social podem manipular indivíduos.

"Sabes, querida, eu pensei que eles iam detestar aquilo, receber ordens e serem obrigados a sentar-se direitos e a declamar respostas. Em vez disso, reagiram como se tivessem estado toda a vida à espera de uma coisa assim. Foi estranho", assume o professor após a primeira aula em que mostra aos alunos como funciona o autoritarismo - sem, no entanto, confessar que também se tinha entusiasmado com a aula.

O primeiro alerta estava dado, com a mulher a alertar que Ben criou "um monstro" e que isso mostra que o autoritarismo não surge apenas em momentos de crise extrema - pode começar de forma subtil e até aparentemente inofensiva.

O movimento criado por Ben Ross rapidamente ganha um símbolo, lemas - "Força através da Disciplina" e "Força através da Comunidade", uma saudação - a mão em forma de concha bate no ombro, e até cartões de membros. 

Os alunos mudam quase de personalidade - o mais introvertido passa a participar e até a mãe se mostra admirada com a mudança - e isso levanta questões entre alguns pais, professores e alunos.

O movimento ganha dimensões que o professor não previu, os alunos viram-se uns contra outros por considerarem que só quem está dentro da "Onda" é que é igual e "especial" e o sentimento de medo espalha-se entre os que não querem fazer parte do movimento. A semelhança com o movimento criado por Adolf Hitler é real e não tinha sido prevista pelo professor. 

Apesar dos avisos, Ben Ross resiste em parar o movimento porque quer "pressionar" os alunos "até perceberem". "Posso estar a ensinar a estes miúdos a lição mais importante das suas vidas", chega mesmo a afirmar à mulher.

No entanto, dois dos alunos conseguem mostrar-lhe que "a Onda foi longe demais". "De repente, sinto-me sozinho. É como se todos os meus amigos fizessem parte de um movimento louco e eu fosse um excluído só porque me recuso a fazer como eles", afirma um deles.

Depois de vários avisos, o movimento acaba por acabar com o professor a dar realmente a "lição mais importante" ao lembrar os alunos que "o fascismo não é uma coisa que os outros fizeram, está aqui, em todos nós".

A obra - inspirada numa história real - funciona como um alerta de que a ideologia extremista não é apenas uma realidade histórica distante, mas um fenómeno que pode emergir em qualquer contexto, especialmente entre jovens em busca de identidade e propósito. 

O livro, que foi adaptado a um filme alemão homónimo em 2008 e contou com a realização de Dennis Gansel, é publicado pela primeira vez em Portugal a 1 de abril pela Editorial Presença.

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