"A mensagem é que não há mensagem": diário detalha sinais de alerta e obsessões violentas do atirador de Minneapolis

CNN , Casey Tolan , Curt Devine , Allison Gordon , Audrey Ash , Rob Kuznia , John Miller e Nina Subkhanberdina
29 ago 2025, 14:31
Tiroteio em escola em Minneapolis (AP)

Robin Westman, que em adolescente foi suspenso após falar sobre tiroteios escolares, voltou uma década depois à Escola Católica Annunciation, em Minneapolis, para concretizar essas fantasias: matou duas crianças durante uma missa e feriu outras 18 pessoas

Quando era adolescente, Robin Westman afirmou ter sido suspenso depois de discutir tiroteios em escolas com colegas de turma - escrevendo mais tarde, num diário, que esse episódio tinha sido a origem de uma profunda obsessão por atiradores em massa.

Uma década depois, o jovem regressou à Escola Católica Annunciation e concretizou essas fantasias sombrias, matando duas crianças durante uma missa na manhã de quarta-feira e ferindo outras 18 pessoas.

Enquanto Minneapolis tenta lidar com o impacto do ataque, as autoridades analisam a escrita desordenada de Robin Westman - que o atirador partilhou em vídeos no YouTube, programados para serem publicados sensivelmente à mesma hora do massacre - em busca de um motivo.

Uma análise da CNN internacional a dezenas dessas páginas - a maioria escrita em caracteres cirílicos para disfarçar o conteúdo perturbador - levanta questões sobre se as pessoas próximas de Robin Westman ignoraram sinais de alerta que poderiam ter impedido a compra do vasto arsenal usado no ataque.

Mesmo enquanto planeava meticulosamente o ataque - escrevendo ainda na semana passada sobre visitas à igreja, desenhando esquemas do interior e testando armas - o jovem também deixou transparecer um desejo de ser apanhado. Depois de descrever um familiar que teria comentado sobre uma "energia negra" que o rodeava, escreveu: "ENCONTREM-ME, ESTOU A IMPLORAR POR AJUDA, ESTOU A GRITAR POR AJUDA".

As autoridades confirmaram à CNN internacional, na quinta-feira, que Robin Westman tinha visitado recentemente a igreja da Annunciation, fingindo interesse em retomar a fé católica. No diário, descreve como observava maçanetas, calculava a melhor forma de trancar as vítimas lá dentro e anotava a localização dos professores.

Embora a polícia tenha classificado os seus textos como um "manifesto", a análise da CNN internacional concluiu que as anotações manuscritas são menos uma declaração de propósito ou uma proclamação política coerente e mais um fluxo desordenado de consciência, revelador do estado mental perturbado do atirador.

"Isto não é um ataque à igreja ou à religião, essa não é a mensagem", escreveu Robin Westman. "A mensagem é que não há mensagem".

Uma captura de ecrã de um vídeo do YouTube publicado há quatro anos, obtida pela CNN internacional, mostra Robin Westman.

As entradas no diário oferecem um retrato perturbador e detalhado dos pensamentos privados do atirador. O jovem descreveu os esforços para evitar ser detetado, escrevendo em caracteres cirílicos como uma espécie de "cifra", caso alguém encontrasse o caderno.

"Eu só quero mesmo um sítio para colocar os meus pensamentos", explicou Robin Westman. "Não posso falar com um terapeuta ou com a família porque serei imediatamente denunciado e colocado numa lista de vigilância".

Segundo o diário, Robin Westman sofria de depressão e, durante anos, lidou com pensamentos suicidas e homicidas.

"Tenho uma família que me ama e uma boa rede de apoio, pessoas que querem ver-me prosperar", escreveu. "Por alguma razão, o facto de ter uma vida bastante boa e o facto de querer matar pessoas nunca fizeram sentido para mim".

"Em todas as escolas por onde passei, em algum momento tive a fantasia de fazer um tiroteio na escola", acrescentou. "Até em todos os empregos".

Segundo Westman, tudo começou com o incidente no sétimo ano. Não está claro em que escola estudava nessa altura - um antigo colega disse à estação local KSTP que o futuro atirador frequentou o sétimo ano numa escola em Saint Paul e recordou comportamentos perturbadores, incluindo elogios de Robin Westman a Hitler.

Nessa altura, de acordo com uma entrada do diário, Robin Westman perguntou a uma colega: "Se houvesse um tiroteio na escola, onde te esconderias?" Mas, depois de a estudante ter contado aos adultos, o jovem foi suspenso durante uma semana, lê-se no diário.

"Basicamente prometi que não queria dizer nada com aquilo", escreveu, acrescentando: "Não me lembro de alguma vez ter falado com um terapeuta".

Quatro antigos colegas que frequentaram a Escola Católica Annunciation com Robin Westman, no oitavo ano, disseram à CNN internacional que não se recordam de o futuro atirador ter feito comentários violentos ou de ter tido problemas disciplinares nessa altura. Acrescentaram que teria assistido à missa de quarta-feira juntamente com os outros alunos da escola.

Robin Westman era "diferente" para um aluno do oitavo ano, recorda o antigo colega Mason Wille, "mas não lhe dei importância", acrescentando que Westman parecia dar-se bem com toda a gente.

Ao saber que era suspeito do ataque na Annunciation, Mason Wille disse ter ficado em choque: "Nunca poderia imaginar isto".

Nathan Bergstrom, outro antigo colega de turma, disse lembrar-se vagamente de que Robin Westman "às vezes ficava zangado, talvez mais do que um aluno normal ficaria", mas sem grandes incidentes. Na altura, contou, o jovem destacava-se por usar frequentemente Heelys - sapatos com uma roda incorporada na sola.

Uma quinta ex-colega, que pediu anonimato devido à sensibilidade da situação, afirmou recordar-se de a Annunciation ter tomado medidas disciplinares contra Robin Westman em certo momento, embora não soubesse os detalhes do que aconteceu.

"Houve algum drama em torno disso", disse. "Os alunos e os pais nunca chegaram a saber realmente o que tinha sido".

Vários antigos colegas lembraram-se ainda de Robin Westman andar frequentemente com um caderno - e uma das ex-alunas disse ter reconhecido a sua caligrafia nos vídeos publicados online.

Uma fotografia do anuário obtida pela CNN internacional mostra Robert Westman, mais tarde conhecido como Robin Westman, quando era aluno da Escola Católica Annunciation, em Minneapolis.

Depois de concluir o ensino básico na Annunciation, em 2017, o jovem frequentou pelo menos duas escolas secundárias em Minneapolis, incluindo uma escola preparatória privada só para rapazes, com modelo de ensino militar. Não é claro se Robin Westman chegou a concluir o ensino secundário.

Em 2019, a sua mãe apresentou um pedido legal para mudar o nome do atirador de Robert Paul Westman para Robin M. Westman, segundo documentos judiciais. O juiz que aprovou a petição, em janeiro de 2020, escreveu que Robin Westman "se identifica como mulher e quer que o seu nome reflita essa identificação".

O atirador não tinha qualquer registo criminal anterior, segundo a polícia e documentos judiciais.

O diário inclui reflexões sobre outros atiradores em massa e fantasias sombrias de Robin Westman a deleitar-se com a ideia de matar crianças e seguir os passos de assassinos como Adam Lanza, que em 2012 matou 26 pessoas - incluindo 20 crianças - na escola primária Sandy Hook, no Connecticut.

As entradas estão também repletas de insultos racistas e antissemitas.

No início deste ano, mesmo alimentando fantasias sobre violência em massa, Robin Westman descreveu ter decidido não levar a cabo um ataque para poupar sofrimento à família. Mas isso mudou nos últimos meses. Numa entrada mais recente, escreveu: "Eu não quero fazer esta m***, odeio-me. Não posso voltar atrás. Não consigo parar-me".

Robin Westman centrou-se na Annunciation – e especificamente na missa semanal de quarta-feira para toda a escola – depois de encontrar um horário escolar online, de acordo com o diário. No mês seguinte, descreveu uma visita de ensaio, indo à missa de manhã e testando portas.

A dada altura, mostrou-se surpreendido por a família não prever a violência que se aproximava.

"Sinto que a minha mãe teria percebido, devido ao meu passado conturbado com ameaças de violência", escreveu. "No outro dia, a minha madrasta… disse que conseguia sentir uma ‘energia negra’ à minha volta… se tu soubesses!"

A família de Robin Westman não respondeu aos pedidos de declarações feitos pela CNN internacional.

Uma captura de ecrã de um vídeo do YouTube obtida pela CNN internacional mostra um diagrama da Igreja Católica Annunciation desenhado por Robin Westman. 

A polícia continua a investigar onde o atirador obteve as armas usadas no ataque, que segundo as autoridades incluíam uma espingarda, uma pistola e uma caçadeira. Num dos vídeos publicados no YouTube no dia do massacre surgiam inscrições racistas e antissemitas pintadas num conjunto de armas.

No diário, Robin Westman menciona um plano para tentar comprar uma espingarda a um conhecido e chega a escrever que "devia ser mais difícil para pessoas como eu levar a cabo estes ataques".

O chefe da polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou numa conferência de imprensa na quinta-feira que as autoridades não têm conhecimento de qualquer diagnóstico de saúde mental ou internamento psiquiátrico anterior de Robin Westman que pudesse ter impedido a compra de armas de fogo.

As entradas do diário prolongaram-se até poucos dias antes do tiroteio. Numa delas, datada da semana passada, Westman descreveu planos para ir a um campo de tiro e contou ter visitado a Annunciation para “reconhecer o terreno uma última vez.”

Poucas páginas depois, Robin Westman rabiscou um diagrama do interior da igreja – com bancos, janelas e corredores assinalados – antes de esfaquear o desenho diante da câmara com uma faca.

“Fui à missa esta manhã”, escreveu, acrescentando que os professores “não estarão à espera de um ataque logo na primeira semana de aulas.”

E.U.A.

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