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"O meu amigo salvou-me porque se deitou em cima de mim, mas foi atingido": o que se sabe do tiroteio numa escola católica nos EUA

CNN , Chelsea Bailey
28 ago 2025, 09:04
Tiroteio em escola em Minneapolis (AP)
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Suspeito tem 23 anos e formou-se naquela escola em 2017

Uma inscrição acima das portas da Igreja da Anunciação, no sul de Minneapolis, proclama o seu santuário como “a Casa de Deus e a porta do Céu”.

Mas, na quarta-feira, a sensação de tranquilidade que os paroquianos e estudantes há muito encontravam no coração da igreja e da escola católica foi literalmente destruída quando um atirador abriu fogo através dos seus vitrais.

Weston Halsne, 10 anos, conta aos repórteres que estava sentado a dois lugares das janelas que rodeiam o santuário, celebrando a missa de início do ano letivo, quando os tiros começaram.

“Foi mesmo ao meu lado. Acho que fiquei com pólvora no pescoço”, diz “Inicialmente, pensei: ‘O que é isto?’ E depois ouvi novamente e corri para debaixo do banco.”

O aluno do quinto ano disse que cobriu a cabeça enquanto o amigo se atirava para cima dele.

“Ele salvou-me porque se deitou em cima de mim, mas foi atingido”, conta Weston, apontando para as costas, onde o menino foi atingido.

“Ele é muito corajoso, e espero que esteja bem no hospital.”

Pelo menos duas crianças foram mortas e outras 17 – incluindo 14 crianças e três paroquianos com cerca de 80 anos – ficaram feridas durante o que a polícia descreveu como um “ato deliberado de violência”.

O atirador, que morreu devido a um ferimento de bala autoinfligido, tinha comprado as armas “recentemente” e não parecia ter antecedentes criminais, segundo as autoridades.

“Podes só segurar a minha mão, por favor?”

Patrick Scallen ainda mora na casa onde cresceu, a cerca de um quarteirão da Annunciation. Scallen frequentou a escola quando era criança – assim como o seu pai – e conta à CNN que tem orgulho do legado centenário da igreja e da escola na comunidade.

Ainda esta manhã, Scallen diz que viu uma família com crianças que frequentam a escola.

“Naquele momento, pensei comigo para comigo: ‘Que coisa maravilhosa é a Anunciação’”, recorda.

Scallen estava a trabalhar na sua secretária no final da manhã, quando ouviu o que pareciam ser tiros. Saiu a correr em direção à escola.

“Estava estranhamente silencioso quando cheguei à igreja. Havia um carregador (de arma) na calçada e então as pessoas começaram a sair”, conta.

De repente, Scallen diz que viu três crianças que estavam “obviamente feridas”. Uma bala tinha atingido uma menina na testa. Outra menina tinha sido baleada no pescoço.

“Podes só segurar a minha mão, por favor?”, perguntou uma das meninas, segundo Scallen.

Embora estivessem em alerta e a conversar, Scallen disse que tentou garantir às crianças o máximo de conforto e tranquilidade até à chegada dos paramédicos.

“Eu só lhes dizia: ‘Vou ligar para a vossa mãe e o vosso pai, vou contar-lhes o que aconteceu. Vocês vão ficar bem’.”

Enquanto tentava processar o que tinham testemunhado, Scallen diz que as crianças começaram a fazer-lhe perguntas: “Porque é que isto aconteceu? Como é que isto pôde acontecer?”

Scallen, como muitos de nós, não tinha respostas.

Um ato de crueldade “além da compreensão”

Os sinos da igreja tocavam tristemente ao longe enquanto o chefe da polícia de Minneapolis, Brian O'Hara, descrevia a “tragédia inimaginável” numa conferência de imprensa realizada ao final da manhã.

O tiroteio começou pouco antes das 08:30, poucos minutos após o início de uma missa para marcar a primeira semana de aulas, indica O’Hara.

O suspeito, Robin Westman, de 23 anos, formou-se na escola primária Annunciation Catholic em 2017, segundo apurou a CNN.

“O atirador aproximou-se pelo lado do edifício e começou a disparar com uma espingarda através das janelas da igreja em direção às crianças sentadas nos bancos durante a missa”, descreve O'Hara.

Westman estava armado com uma espingarda, uma caçadeira e uma pistola, segundo o chefe da polícia, que acrescentou mais tarde que as autoridades acreditam que as três armas foram disparadas.

Embora a investigação ainda esteja em curso, O'Hara afirma que a maior parte dos disparos parece ter ocorrido do lado de fora do prédio e que algumas das portas da igreja foram barricadas com tábuas de madeira do lado de fora.

“A crueldade e covardia de disparar contra uma igreja cheia de crianças é absolutamente incompreensível”, descreve O'Hara. Crianças de oito e 10 anos foram “mortas onde estavam sentadas, nos bancos da igreja”.

“Este ato deliberado de violência é apenas um sinal de crueldade que vai além da compreensão”, lamenta o chefe da polícia.

Os pais correram para o local de reencontro e abraçaram os seus filhos em lágrimas enquanto os acompanhavam para fora do recinto escolar. O tiroteio ocorreu após uma onda de falsos alertas de atiradores ativos em todo o país ter causado pânico no início do ano letivo.

Ao chegar ao local, o presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, correu para o santuário e foi visto mais tarde com a rezar nos degraus da igreja.

O presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey, senta-se nos degraus da escola da Igreja da Anunciação após o tiroteio na manhã de quarta-feira. Abbie Parr/AP

“Era a primeira semana de aulas – eles estavam numa igreja. São crianças que deviam estar a aprender com os seus amigos. Deveriam estar a brincar no recreio. Deveriam poder ir à escola ou à igreja em paz, sem medo ou risco de violência”, lamenta Frey.

Ir além de “pensamentos e orações”

A Annunciation arrancou o ano letivo esta semana sob o mote “Um futuro cheio de esperança”.

É uma referência a um versículo da Bíblia em que Deus é citado da seguinte forma: “Porque eu sei bem os planos que tenho para vós, planos de bem-estar e não de mal, planos de um futuro cheio de esperança.”

“Não há nada hoje que nos possa encher de esperança”, desabafa o diretor da Annunciation, Matthew DeBoer, numa conferência de imprensa na quarta-feira à tarde. “Nós, como comunidade, temos a responsabilidade de garantir que nenhuma criança, nenhum pai, nenhum professor tenha de passar pelo que passámos hoje — nunca mais.”

“Há um provérbio africano que diz: ‘Quando rezares, mexe os pés’. Por isso, imploro-vos”, apela DeBoer, com a voz embargada, “peço-vos que rezem, mas não se limitem às palavras.”

O governador de Minnesota, Tim Walz, também encoraja a comunidade – e a nação – a ir além dos clichés e agir para conter a violência armada nos Estados Unidos.

“Hoje é o dia de Minnesota”, declara Walz: “Peço a todas as pessoas em todo o país que estão a assistir para que nos mantenham nos seus pensamentos e orações, mas também para que nos mantenham nos pensamentos para a ação, na ideia de que podemos trabalhar juntos.”

Num vídeo publicado na página do Facebook da igreja, o padre Brian Park explica o simbolismo do quadro de vitral que derrama luz no santuário. Parte da cena retrata o Adão bíblico a tapar o rosto envergonhado pela “queda da humanidade”, que os católicos acreditam ter dado início a um período de sofrimento e morte.

Mas a Anunciação — que dá nome à igreja — celebra o momento em que a Virgem Maria foi informada de que se tornaria a mãe de Jesus. Para os católicos, explica Brian Park, isso simboliza que “o Senhor está contigo”.

A Virgem Maria agora contempla, da janela de vitral, a carnificina sem razão causada pelo homem, enquanto a Anunciação se junta agora às estatísticas de escolas devastadas pela tragédia tão comum da violência armada nos Estados Unidos.

“Não digam que agora se trata apenas de ‘pensamentos e orações’”, apela Frey, visivelmente emocionado, na manhã de quarta-feira. “Estas crianças estavam literalmente a rezar.”

Dakin Andone, John Miller, Mark Morales e Holmes Lybrand, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

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