Dois homens entraram na praia mais conhecida de Sydney com duas grandes espingardas para espalhar o caos no primeiro dia de uma das mais importantes celebrações judaicas
Um “herói genuíno” evitou que tudo fosse muito pior quando a noite caía naquela que é, muito provavelmente, a praia mais famosa e mais frequentada de Sydney, na Austrália.
Nas imagens partilhadas nas redes sociais vê-se um homem com uma grande espingarda a atirar calmamente. Vindo de trás de um carro, um segundo indivíduo ataca-o, conseguindo manietar um dos dois terroristas - o incidente já foi declarado como ataque terrorista - que mataram pelo menos 15 pessoas que estavam na zona, onde se comemorava uma festa judaica.
A expressão “herói genuíno” é do primeiro-ministro de Nova Gales do Sul, o estado onde ocorreu a tragédia. O homem em causa, esse, é Ahmed al Ahmed, dono de uma frutaria que acabou ferido durante o ataque e está no hospital.
“É a coisa mais inacreditável que eu já vi, um homem a ir contra um homem armado que estava a disparar contra a comunidade e a conseguir desarmá-lo, colocando a sua própria vida em risco para salvar as vidas de muitos outros”, disse Chris Minns.
“Este homem é um herói genuíno e não tenho dúvidas de que há muitas, muitas pessoas vivas esta noite como resultado da sua bravura”, acrescentou.
Quantas pessoas terão sido salvas graças a este homem é difícil de dizer, mas o atirador parecia pronto para continuar a atirar de forma indiscriminada sobre as cerca de mil pessoas que estavam no local até que o cartucho de balas acabasse.
Depois disso haveria mais algo preparado, já que a polícia encontrou um explosivo improvisado no carro que pertencia ao atacante que foi morto.
Amy Gunia, que colabora com a CNN, estava no local. Tinha acabado de chegar a Sydney vinda de Hong Kong para umas férias em família com o marido e os dois filhos.
Bondi Beach estava cheia de pessoas, incluindo crianças e banhistas que aproveitavam as últimas horas de um dia de calor.
Amy e a família tinham acabado de jantar e estavam a regressar quando no ar começaram a soar uns incontáveis “pops”.
“Virei-me a pensar que podia ser fogo de artifício ou uma celebração qualquer”, conta.
Mas não. Eram os sons das espingardas disparadas por dois homens que decidiram atacar a comunidade em pleno dia, quase que fazendo tiro ao alvo.
“Estávamos com duas crianças nos carrinhos e vimos pessoas a correr para um pavilhão. Rapidamente tornou-se uma situação de pânico onde toda a gente estava a correr e os carros saíam o mais rápido possível - como que um pânico em massa”, descreve.
Amy ainda deu uns segundos para tentar perceber o que se podia estar a passar - “porque isto é a Austrália” -, mas acabou por fugir também quando viu que as pessoas não paravam de vir cada vez mais rápido.
Livraram-se dos sapatos que levavam e pegaram nos carrinhos para fugir dali o mais depressa possível com o objetivo de chegar ao alojamento que tinham alugado. Os dados do marido de Amy mostram que a corrida começou pelas 18:40 locais. Mais de uma hora depois ainda havia helicópteros no ar e o aparato era ainda maior.
Das dezenas de “pops” que Amy e a família ouviram, 11 resultaram em mortes. Um dos atiradores acabaria por ser também abatido, com o outro a acabar neutralizado pelas autoridades, encontrando-se detido em “condição crítica”. Um dos suspeitos já foi nomeado como Naveed Akram, homem de 24 anos que vive em Bonnyrigg, um subúrbio de Sydney.
À agência Reuters, um homem que se identificou como Marcus concretiza o momento: as dezenas foram "40 ou 50 tiros". "Estava a preparar-me para ir para casa e estava a arrumar a mala, os chinelos, pronto para apanhar o autocarro, e depois comecei a ouvir tiros", contou.
Começou de imediato a correr porque, admite, como todos os outros, também ele entrou em pânico. "Deixámos tudo para trás, os chinelos... tudo. Apenas corremos pela colina. Devo ter ouvido uns 40 ou 50 tiros", acrescentou.
O problema é que os números piores podem não ficar por aqui, já que 29 pessoas foram transportadas para o hospital, muitas delas com graves ferimentos de bala.
Belinda Clemens estava mesmo na praia e compra a teoria de Amy. Parecia de facto fogo de artifício.
Mas para esta mulher, que estava sentada nas rochas na parte norte da praia, rapidamente foi possível perceber que não era caso para celebrar, já que era um tiroteio que estava em curso.
Olhou para água e viu balas a atingir o mar enquanto fumo saía. Quem estava a tomar banho, conta Belinda, não teve opção senão refugiar-se indo ainda mais para fora da costa.
“Os nossos corações sangram com a comunidade judaica da Austrália”, afirmou Chris Minns, que não teve problemas em ver este ataque, que ocorreu no primeiro dia do Hanukkah, como um ataque dirigido contra judeus.
A solidariedade para com os judeus também foi rapidamente expressa pelo primeiro-ministro da Austrália. Anthony Albanese lamentou um crime “destinado a criar medo”, mas garantiu que todo o país “está com a comunidade judaica e os judeus australianos neste momento”.
O chefe do governo quer que todo o país condene “este ato de terrorismo” e mostre união numa altura sensível. “Hoje digo que há dias que rasgam a alma da nossa nação. Neste momento de escuridão, devemos ser as luzes uns dos outros”, pediu.