Porque é que o T-rex tinha braços tão pequenos? Um novo estudo pode finalmente ter a resposta

CNN , Jacopo Prisco
10 jun, 16:00
T-rex
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Os braços minúsculos do T-rex podem ter sido o preço a pagar por uma cabeça gigantesca e uma mordida devastadora. Um novo estudo conclui que a evolução favoreceu crânios mais robustos em detrimento dos membros anteriores em vários grupos de dinossauros predadores

Os cientistas podem finalmente ter resolvido o enigma dos braços pequenos do Tyrannosaurus rex, que sempre se destacaram como a característica mais estranha de um dos dinossauros mais poderosos de sempre, dando origem a piadas e a mais de um século de debate sobre a sua função e história evolutiva.

Com cerca de 90 centímetros de comprimento, os braços do T-rex tinham menos de um terço do comprimento das suas pernas e pareciam visivelmente desproporcionados num corpo que podia ultrapassar os 12 metros de comprimento nos maiores exemplares adultos.

O T-rex era apenas um de muitos dinossauros carnívoros com braços diminutos e, ao longo dos anos, os cientistas apresentaram várias teorias para explicar a função destes membros anteriores, incluindo segurar ou imobilizar presas e impressionar potenciais parceiros durante o acasalamento. Estudos mais recentes sugeriram que os braços se tornaram menores para reduzir o risco de serem mordidos durante frenesis alimentares, enquanto uma teoria mais antiga defende que são simplesmente vestigiais - não tinham qualquer função prática e, por isso, encolheram. No entanto, não existe consenso.

Agora, um novo estudo publicado recentemente na revista Proceedings of the Royal Society B pretende resolver o debate de uma vez por todas. Com base numa análise de 85 espécies de dinossauros, o estudo concluiu que os braços pequenos foram uma compensação evolutiva causada pelo crescimento de outra parte do corpo que passou a consumir mais recursos - o crânio.

"Se és um dinossauro com um crânio extremamente robusto, é muito provável que tenhas membros anteriores muito pequenos", explica Charlie Roger Scherer, doutorando no Departamento de Ciências da Terra da University College London e principal autor do estudo. "E não importa realmente quão grande és - podes pesar uma tonelada ou dez toneladas. Se tens um crânio forte, vais ter braços relativamente pequenos."

O grande crânio do T-rex poderá ser a razão pela qual os seus membros anteriores encolheram até atingirem dimensões tão reduzidas. (Eric Lalmand/Belga Mag/AFP/Getty Images)

A razão é que "a evolução não gosta de ter tudo ao mesmo tempo", afirma Scherer, porque tende a dar prioridade a uma característica em detrimento de outra. "Se queres concentrar-te em usar a cabeça para derrubar presas de grande porte, provavelmente não vais querer investir muito esforço em manter braços longos com garras, porque não vais precisar deles. Assim, a evolução acaba por dizer: 'Já não precisamos dos braços, por isso vamos reduzi-los e investir mais energia em manter o crânio forte e usá-lo como arma principal.'"

Investigações anteriores já tinham sugerido uma ligação entre a redução dos membros anteriores e o aumento do tamanho dos crânios em dinossauros carnívoros, mas, segundo Scherer, este é o primeiro estudo a identificar esta tendência em cinco grupos diferentes de dinossauros e a fornecer suporte estatístico à teoria.

Uma arma principal

Para chegar a esta conclusão, os investigadores mediram os membros anteriores e os ossos do crânio das 85 espécies analisadas, recorrendo tanto a fósseis como a dados disponíveis na literatura científica.

Também desenvolveram uma nova forma de quantificar a robustez dos crânios, analisando fatores como o tamanho global, a forma como os ossos se encaixavam e a força da mordida. Isso permitiu-lhes ordenar todos os crânios numa escala. Sem surpresa, o T-rex obteve a pontuação mais elevada, seguido do Tyrannotitan, outro enorme carnívoro que viveu no que é atualmente a Argentina durante o Cretácico Inferior, cerca de 30 milhões de anos antes do T. rex.

Além dos tiranossaurídeos, o grupo que inclui o T-rex e os seus parentes, os investigadores encontraram a correlação entre crânios grandes e robustos e membros anteriores reduzidos em outros quatro grupos de dinossauros - ceratossaurídeos, megalossaurídeos, abelissaurídeos e carcharodontossaurídeos - todos grandes carnívoros bípedes. As espécies identificadas viveram em todo o mundo desde o início da era dos dinossauros, no Triássico, até ao final do Cretácico, quando o impacto de um grande asteroide exterminou a maioria dos dinossauros não aviários - um período de cerca de 180 milhões de anos.

Vista de Trix, um dos esqueletos de T-rex mais completos do mundo, em exibição no Centro de Biodiversidade Naturalis, em Leiden, Países Baixos. (Dean Mouhtaropoulos/Getty Images)

A nova análise sugere que a redução dos membros não foi uma anomalia, mas sim uma característica evolutiva que ocorreu repetidamente em diferentes espécies sem parentesco próximo ao longo de um vasto período de tempo. O processo de redução variou entre os grupos: alguns dinossauros diminuíram primeiro o tamanho dos dedos, enquanto outros deram prioridade ao encurtamento do antebraço.

"Há sempre um fator comum por detrás disto", explica Scherer, "e esse fator é que todos caçavam animais que exigiam mais força para serem abatidos, razão pela qual desenvolveram crânios tão robustos."

À medida que as suas presas se tornavam maiores, estes animais responderam tornando a sua arma principal mais poderosa, desviando recursos dos braços e das garras. "Tudo era abordado de frente, por isso a cabeça era a parte do corpo que entrava em contacto com a presa", afirma Scherer. "Era a forma mais fácil de as derrubar, em vez de saltar à volta delas ou lutar usando as garras."

Ainda assim, os braços não eram completamente inúteis, segundo Scherer. "Obviamente serviam para alguma coisa, caso contrário não os teriam. Qual era exatamente essa função, não sei, mas espero que possamos descobri-lo com mais investigação."

Uma tendência generalizada

Os braços minúsculos do T-rex são amplamente conhecidos, mas fora da paleontologia muitas pessoas talvez não saibam que membros anteriores reduzidos eram comuns noutros dinossauros, segundo Stephan Lautenschlager, paleontólogo de vertebrados e professor sénior de paleobiologia na Universidade de Birmingham, em Inglaterra. Lautenschlager não participou no estudo.

"Nos animais, investir energia no crescimento de diferentes órgãos e partes do esqueleto é muito dispendioso. Se alguns órgãos, como os membros anteriores, desempenham um papel menos importante, pode ser mais vantajoso reduzir o seu tamanho e investir noutros órgãos", escreve Lautenschlager. "Grandes terópodes como o T-rex seguiram a estratégia mais eficiente ao investir principalmente na força da mordida e em mandíbulas robustas."

Os grandes herbívoros não seguiram esse caminho e mantiveram os seus membros anteriores longos, acrescentou, possivelmente porque esses membros eram importantes para agarrar vegetação e, em alguns casos, para se defenderem de predadores.

O T-rex era basicamente um enorme tubarão terrestre que fazia todo o seu trabalho com a gigantesca cabeça, como explica Steve Brusatte, professor de paleontologia e evolução na Universidade de Edimburgo, na Escócia, que também não participou na investigação.

"Quando analisamos a evolução dos tiranossauros ao longo do tempo, vemos as cabeças a tornarem-se maiores à medida que os braços se tornam menores, pelo que existiu algum tipo de compensação evolutiva, com a cabeça a assumir funções anteriormente desempenhadas pelos braços, como agarrar e matar presas", escreveu Brusatte.

"E parece que uma tendência semelhante ocorreu noutros grandes dinossauros carnívoros, pelo que foi um tema recorrente na evolução dos dinossauros: os grandes predadores aumentaram enormemente de tamanho, expandiram os seus corpos, desenvolveram cabeças gigantescas e deixaram os braços atrofiarem", acrescentou.

Andre Rowe, paleobiólogo e investigador sénior associado da Universidade de Bristol, em Inglaterra, concorda que a descoberta mais interessante do estudo é a amplitude desta tendência.

"Os tiranossauros costumam receber toda a atenção, mas alguns grupos, como os abelissauros, desenvolveram braços ainda mais reduzidos em relação ao tamanho do corpo", afirma Rowe, que também não esteve envolvido na investigação.

"O que torna isto particularmente fascinante é que nem todos os dinossauros predadores seguiram o mesmo caminho. Algumas linhagens mantiveram braços grandes e funcionais, enquanto outras desenvolveram cabeças enormes e membros anteriores minúsculos", acrescenta.

"Este estudo destaca até que ponto os dinossauros eram diversos e inovadores do ponto de vista evolutivo", conclui Rowe. "Eles desenvolveram repetidamente soluções muito diferentes para os mesmos desafios ecológicos, e essa é uma das razões pelas quais continuam a fascinar tanto os cientistas como o público."

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