Esta tinta pode arrefecer a sua casa e recolher água do ar

CNN , Michelle Cohan
9 ago, 16:00
University of Sydney researchers Chiara Neto and Ming Chiu have developed a cooling paint that can reflect the majority of incoming sunlight and reduce how much heat buildings absorb. Dewpoint Innovations
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À medida que as temperaturas globais aumentam e a escassez de água se agrava, uma tinta desenvolvida com base na nanoengenharia por investigadores na Austrália pretende dar resposta a ambos os problemas - com uma simples pincelada

NOTA DO EDITOR: “Call to Earth” é uma série editorial da CNN dedicada a abordar os desafios ambientais que o nosso planeta enfrenta, bem como as respetivas soluções. A iniciativa Perpetual Planet da Rolex estabeleceu uma parceria com a CNN para promover a sensibilização e a educação em torno de questões-chave de sustentabilidade e para inspirar ações positivas.

 

Para os cientistas da Universidade de Sydney, Chiara Neto e Ming Chiu, as pressões crescentes deram origem a uma ideia: um revestimento para telhados capaz de arrefecer os edifícios e recolher água do ar.

Esse trabalho deu origem à startup Dewpoint Innovations, fundada em 2022 com ambições que vão além da tinta refrigerante, visando uma reformulação mais ampla da forma como as infraestruturas são concebidas: se os telhados de toda uma cidade pudessem refletir o calor e recolher água, poderiam tornar-se parte da solução climática.

Num mundo em que o clima está a aquecer, as cidades estão a tornar-se “armadilhas de calor”. O betão e os telhados absorvem a energia solar, fazendo subir as temperaturas, o que dá origem ao chamado efeito de ilha de calor urbana - em que as cidades registam temperaturas mais elevadas.

Esse é o primeiro desafio que a Dewpoint Innovations pretende enfrentar: “A nossa tinta irá reduzir significativamente a carga térmica que o sol exerce sobre as cidades”, começa por explicar Chiu, co-inventor e diretor de tecnologia da Dewpoint Innovations.

Para conseguir esse efeito, os nanomateriais especialmente concebidos recorrem a um processo denominado “arrefecimento radiativo passivo”, que reflete a maior parte da energia solar e liberta calor de volta para o céu - permitindo que as superfícies dos telhados se mantenham mais frescas do que o ar circundante, sem consumo de energia.

Os investigadores testaram quatro painéis pintados - preto, branco, refletor e com a tinta da Dewpoint - ao longo de três meses, monitorizando a temperatura, as condições atmosféricas e outras variáveis num telhado da Universidade de Sydney. Dewpoint Innovations

A tinta branca comercial comum reflete cerca de 70% a 80% da luz solar incidente, refere o Baohua Jia, professor e especialista em nanotecnologia da Universidade RMIT, em Melbourne, Austrália, que não tem qualquer ligação à Dewpoint Innovations.

O revestimento da Dewpoint demonstrou uma refletância solar de até 96% num ensaio ao ar livre com a duração de seis meses, cujos resultados foram divulgados em 2025. Essa maior refletividade significa que foi absorvido menos calor, mantendo as superfícies dos telhados até 6 graus Celsius (11 graus Fahrenheit) mais frias do que o ar circundante e reduzindo a transferência de calor para o interior dos edifícios.

Num ensaio de campo de três meses realizado em Sydney no final de 2023, a tinta para telhados da Dewpoint manteve-se até 30 graus Celsius mais fria do que um telhado escuro normal - o que se traduz numa redução estimada de até 34% no consumo de energia para refrigeração doméstica.

Para Jia, estes resultados apontam para um potencial mais vasto. Ela acredita que o revestimento para telhados da Dewpoint oferece uma forma escalável de mitigar o efeito de ilha de calor urbana. “Esta tecnologia tem o potencial de reduzir drasticamente as temperaturas ambientais urbanas, aliviar o stress térmico e diminuir a dependência do ar condicionado, tornando-a uma ferramenta concreta para a adaptação climática em áreas urbanas densas”, afirma.

Água a partir do ar

“Uma das propriedades surpreendentes de uma superfície que se mantém a uma temperatura mais baixa, enquanto o resto do ambiente fica cada vez mais quente, é que isso também favorece a condensação da humidade presente no ar nessa superfície”, aponta Perzaan Mehta, diretor-executivo da Dewpoint, à CNN.

É o mesmo processo básico que faz com que se forme água no exterior de um copo frio.

Embora ainda se encontrasse em fase de desenvolvimento, nos primeiros ensaios, o sistema demonstrou ser capaz de recolher 74 litros (19,5 galões) de água por dia a partir de um telhado com 200 metros quadrados (2 153 pés quadrados). Metha diz que esta é, aproximadamente, a quantidade consumida num duche de cinco minutos em zonas onde a água é mais abundante.

Ming Chiu, diretor técnico da Dewpoint Innovation, a aplicar tinta num painel para testes na Universidade de Sydney. Dewpoint Innovations

Não pode substituir totalmente o abastecimento de água de uma casa, mas Mehta acredita que pode servir como fonte complementar: “Vai ajudar a aliviar a pressão, mas não é a solução milagrosa.”

Através da modelação dos dados recolhidos até ao momento, a Dewpoint descobriu que é necessária uma humidade relativa mínima de cerca de 70% para que a recolha de água funcione - tal como a que se verifica em zonas costeiras e tropicais, como Singapura ou a Bacia Amazónica na América do Sul.

“Nos trópicos, o desempenho será muito melhor, e é aí que temos observado grande parte do interesse internacional nos nossos produtos”, diz Mehta.

Jia detalha que a captação passiva de água é uma das tendências mais empolgantes e em rápido crescimento no campo do arrefecimento radiativo. Embora o desempenho varie em função da humidade, do vento e da temperatura, afirmou ela, as otimizações contínuas no terreno estão a melhorar a consistência do rendimento hídrico, mesmo em regiões semiáridas.

A Dewpoint prevê que o seu sistema de captação de água seja utilizado de várias formas: a água poderá ser canalizada para sistemas de recolha de água da chuva já existentes, para fins de irrigação, ou ser filtrada para consumo e uso doméstico.

Para além das aplicações humanas, a tecnologia de refrigeração também poderá ajudar a proteger a vida selvagem, afirmou Chiu, reduzindo o stress térmico debaixo dos abrigos dos animais e fornecendo água durante os períodos de seca.

Entre 2019 e 2020, a seca e o calor extremo provocaram meses de incêndios florestais em toda a Austrália, devastando ecossistemas e afetando cerca de 80% da população. Durante a crise, as imagens de bombeiros a darem água a coalas desidratados ajudaram a moldar a visão de Chiu sobre a captação de água da atmosfera.

“Os sistemas de captação de água poderiam ser implementados como infraestruturas construtivas em locais remotos para gerar água a partir do ar, de modo a que a vida selvagem pudesse ter acesso a água potável quando precisasse e não a conseguisse encontrar em lado nenhum”, garante Chiu.

Idealizar cidades que combatem as alterações climáticas

“Há um futuro em que será possível comprar esta tinta e aplicá-la no telhado”, alerta Mehta.

A Dewpoint está atualmente a preparar-se para realizar ensaios mais abrangentes da sua tinta em telhados australianos e, potencialmente, no estrangeiro, com o objetivo de comercializar o produto para distribuição através da Haymes Paint, uma empresa de capital australiano.

Andrew Brewer, diretor de mercadorias e produtos do grupo Haymes Paint, afirma à CNN que a empresa está entusiasmada por lançar esta tecnologia sustentável no mercado.

Brewer observou que a barreira à entrada num setor já estabelecido pode ser difícil: “Os construtores de projetos optam, por defeito, por produtos conhecidos”, afirma, acrescentando que a adoção dependerá de um desempenho validado de forma independente, da justificação da poupança de energia face ao custo inicial e da compatibilidade com os métodos de aplicação padrão.

“A longo prazo, à medida que a sustentabilidade e a gestão térmica ganham importância na construção, prevemos um aumento da procura por produtos que contribuam para um efeito de arrefecimento”, destaca ainda Brewer.

Num ensaio de três meses realizado em Sydney, a tinta para telhados da Dewpoint manteve a temperatura do telhado até 30 °C (86 °F) mais baixa do que a de um telhado escuro normal, reduzindo o consumo estimado de energia para refrigeração em até 34%. Dewpoint Innovations

Mehta explica que “em geral, prevemos que o preço se situe num nível semelhante ao das tintas funcionais, que tendem a ser 50 a 100% mais caras do que a tinta normal”, salientando que os preços serão específicos para cada mercado.

Estão a ser desenvolvidas outras tintas altamente refletoras e ultrabrancas para ajudar a arrefecer os edifícios e reduzir o consumo de ar condicionado. Os investigadores estão até a recorrer à aprendizagem automática para criar uma tinta de arrefecimento concebida com IA - que poderá permitir que os edifícios se mantenham entre cinco e 20 graus Celsius (41 a 68 graus Fahrenheit) mais frescos do que com a tinta tradicional durante a exposição ao sol do meio-dia.

Os produtos de arrefecimento por radiação continuam a enfrentar desafios como a durabilidade ao longo do tempo, o desempenho reduzido em dias nublados ou com condições meteorológicas variáveis, custos iniciais ligeiramente mais elevados e a falta de testes padronizados e de códigos de construção, afirmou Jia à CNN. Mas estas questões estão a ser ativamente abordadas, acrescentou ela, sendo que se espera que as melhorias nos materiais, na conceção e no fabrico tornem a tecnologia mais fiável e amplamente adotada.

À medida que a investigação e a industrialização avançam, Jia afirma que o domínio do arrefecimento radiativo passivo irá desempenhar “um papel cada vez mais essencial no arrefecimento das cidades, na redução das emissões de carbono e na garantia do abastecimento de água, tudo isto sem consumir energia preciosa nem depender de refrigerantes artificiais”.

A visão final da Dewpoint é ver a sua tinta tornar-se parte integrante do planeamento e desenvolvimento urbanos: “Acho que seria fantástico ver a Dewpoint como parte do conjunto de ferramentas de que os urbanistas e arquitetos dispõem no futuro”, culmina Mehta, “e que produtos como os nossos passassem a fazer parte do quadro regulamentar que define a forma como concebemos o planeamento das cidades.”

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