À medida que as temperaturas globais aumentam e a escassez de água se agrava, uma tinta desenvolvida com base na nanoengenharia por investigadores na Austrália pretende dar resposta a ambos os problemas - com uma simples pincelada
NOTA DO EDITOR: “Call to Earth” é uma série editorial da CNN dedicada a abordar os desafios ambientais que o nosso planeta enfrenta, bem como as respetivas soluções. A iniciativa Perpetual Planet da Rolex estabeleceu uma parceria com a CNN para promover a sensibilização e a educação em torno de questões-chave de sustentabilidade e para inspirar ações positivas.
Para os cientistas da Universidade de Sydney, Chiara Neto e Ming Chiu, as pressões crescentes deram origem a uma ideia: um revestimento para telhados capaz de arrefecer os edifícios e recolher água do ar.
Esse trabalho deu origem à startup Dewpoint Innovations, fundada em 2022 com ambições que vão além da tinta refrigerante, visando uma reformulação mais ampla da forma como as infraestruturas são concebidas: se os telhados de toda uma cidade pudessem refletir o calor e recolher água, poderiam tornar-se parte da solução climática.
Num mundo em que o clima está a aquecer, as cidades estão a tornar-se “armadilhas de calor”. O betão e os telhados absorvem a energia solar, fazendo subir as temperaturas, o que dá origem ao chamado efeito de ilha de calor urbana - em que as cidades registam temperaturas mais elevadas.
Esse é o primeiro desafio que a Dewpoint Innovations pretende enfrentar: “A nossa tinta irá reduzir significativamente a carga térmica que o sol exerce sobre as cidades”, começa por explicar Chiu, co-inventor e diretor de tecnologia da Dewpoint Innovations.
Para conseguir esse efeito, os nanomateriais especialmente concebidos recorrem a um processo denominado “arrefecimento radiativo passivo”, que reflete a maior parte da energia solar e liberta calor de volta para o céu - permitindo que as superfícies dos telhados se mantenham mais frescas do que o ar circundante, sem consumo de energia.
A tinta branca comercial comum reflete cerca de 70% a 80% da luz solar incidente, refere o Baohua Jia, professor e especialista em nanotecnologia da Universidade RMIT, em Melbourne, Austrália, que não tem qualquer ligação à Dewpoint Innovations.
O revestimento da Dewpoint demonstrou uma refletância solar de até 96% num ensaio ao ar livre com a duração de seis meses, cujos resultados foram divulgados em 2025. Essa maior refletividade significa que foi absorvido menos calor, mantendo as superfícies dos telhados até 6 graus Celsius (11 graus Fahrenheit) mais frias do que o ar circundante e reduzindo a transferência de calor para o interior dos edifícios.
Num ensaio de campo de três meses realizado em Sydney no final de 2023, a tinta para telhados da Dewpoint manteve-se até 30 graus Celsius mais fria do que um telhado escuro normal - o que se traduz numa redução estimada de até 34% no consumo de energia para refrigeração doméstica.
Para Jia, estes resultados apontam para um potencial mais vasto. Ela acredita que o revestimento para telhados da Dewpoint oferece uma forma escalável de mitigar o efeito de ilha de calor urbana. “Esta tecnologia tem o potencial de reduzir drasticamente as temperaturas ambientais urbanas, aliviar o stress térmico e diminuir a dependência do ar condicionado, tornando-a uma ferramenta concreta para a adaptação climática em áreas urbanas densas”, afirma.
Água a partir do ar
“Uma das propriedades surpreendentes de uma superfície que se mantém a uma temperatura mais baixa, enquanto o resto do ambiente fica cada vez mais quente, é que isso também favorece a condensação da humidade presente no ar nessa superfície”, aponta Perzaan Mehta, diretor-executivo da Dewpoint, à CNN.
É o mesmo processo básico que faz com que se forme água no exterior de um copo frio.
Embora ainda se encontrasse em fase de desenvolvimento, nos primeiros ensaios, o sistema demonstrou ser capaz de recolher 74 litros (19,5 galões) de água por dia a partir de um telhado com 200 metros quadrados (2 153 pés quadrados). Metha diz que esta é, aproximadamente, a quantidade consumida num duche de cinco minutos em zonas onde a água é mais abundante.
Não pode substituir totalmente o abastecimento de água de uma casa, mas Mehta acredita que pode servir como fonte complementar: “Vai ajudar a aliviar a pressão, mas não é a solução milagrosa.”
Através da modelação dos dados recolhidos até ao momento, a Dewpoint descobriu que é necessária uma humidade relativa mínima de cerca de 70% para que a recolha de água funcione - tal como a que se verifica em zonas costeiras e tropicais, como Singapura ou a Bacia Amazónica na América do Sul.
“Nos trópicos, o desempenho será muito melhor, e é aí que temos observado grande parte do interesse internacional nos nossos produtos”, diz Mehta.
Jia detalha que a captação passiva de água é uma das tendências mais empolgantes e em rápido crescimento no campo do arrefecimento radiativo. Embora o desempenho varie em função da humidade, do vento e da temperatura, afirmou ela, as otimizações contínuas no terreno estão a melhorar a consistência do rendimento hídrico, mesmo em regiões semiáridas.
A Dewpoint prevê que o seu sistema de captação de água seja utilizado de várias formas: a água poderá ser canalizada para sistemas de recolha de água da chuva já existentes, para fins de irrigação, ou ser filtrada para consumo e uso doméstico.
Para além das aplicações humanas, a tecnologia de refrigeração também poderá ajudar a proteger a vida selvagem, afirmou Chiu, reduzindo o stress térmico debaixo dos abrigos dos animais e fornecendo água durante os períodos de seca.
Entre 2019 e 2020, a seca e o calor extremo provocaram meses de incêndios florestais em toda a Austrália, devastando ecossistemas e afetando cerca de 80% da população. Durante a crise, as imagens de bombeiros a darem água a coalas desidratados ajudaram a moldar a visão de Chiu sobre a captação de água da atmosfera.
“Os sistemas de captação de água poderiam ser implementados como infraestruturas construtivas em locais remotos para gerar água a partir do ar, de modo a que a vida selvagem pudesse ter acesso a água potável quando precisasse e não a conseguisse encontrar em lado nenhum”, garante Chiu.
Idealizar cidades que combatem as alterações climáticas
“Há um futuro em que será possível comprar esta tinta e aplicá-la no telhado”, alerta Mehta.
A Dewpoint está atualmente a preparar-se para realizar ensaios mais abrangentes da sua tinta em telhados australianos e, potencialmente, no estrangeiro, com o objetivo de comercializar o produto para distribuição através da Haymes Paint, uma empresa de capital australiano.
Andrew Brewer, diretor de mercadorias e produtos do grupo Haymes Paint, afirma à CNN que a empresa está entusiasmada por lançar esta tecnologia sustentável no mercado.
Brewer observou que a barreira à entrada num setor já estabelecido pode ser difícil: “Os construtores de projetos optam, por defeito, por produtos conhecidos”, afirma, acrescentando que a adoção dependerá de um desempenho validado de forma independente, da justificação da poupança de energia face ao custo inicial e da compatibilidade com os métodos de aplicação padrão.
“A longo prazo, à medida que a sustentabilidade e a gestão térmica ganham importância na construção, prevemos um aumento da procura por produtos que contribuam para um efeito de arrefecimento”, destaca ainda Brewer.
Mehta explica que “em geral, prevemos que o preço se situe num nível semelhante ao das tintas funcionais, que tendem a ser 50 a 100% mais caras do que a tinta normal”, salientando que os preços serão específicos para cada mercado.
Estão a ser desenvolvidas outras tintas altamente refletoras e ultrabrancas para ajudar a arrefecer os edifícios e reduzir o consumo de ar condicionado. Os investigadores estão até a recorrer à aprendizagem automática para criar uma tinta de arrefecimento concebida com IA - que poderá permitir que os edifícios se mantenham entre cinco e 20 graus Celsius (41 a 68 graus Fahrenheit) mais frescos do que com a tinta tradicional durante a exposição ao sol do meio-dia.
Os produtos de arrefecimento por radiação continuam a enfrentar desafios como a durabilidade ao longo do tempo, o desempenho reduzido em dias nublados ou com condições meteorológicas variáveis, custos iniciais ligeiramente mais elevados e a falta de testes padronizados e de códigos de construção, afirmou Jia à CNN. Mas estas questões estão a ser ativamente abordadas, acrescentou ela, sendo que se espera que as melhorias nos materiais, na conceção e no fabrico tornem a tecnologia mais fiável e amplamente adotada.
À medida que a investigação e a industrialização avançam, Jia afirma que o domínio do arrefecimento radiativo passivo irá desempenhar “um papel cada vez mais essencial no arrefecimento das cidades, na redução das emissões de carbono e na garantia do abastecimento de água, tudo isto sem consumir energia preciosa nem depender de refrigerantes artificiais”.
A visão final da Dewpoint é ver a sua tinta tornar-se parte integrante do planeamento e desenvolvimento urbanos: “Acho que seria fantástico ver a Dewpoint como parte do conjunto de ferramentas de que os urbanistas e arquitetos dispõem no futuro”, culmina Mehta, “e que produtos como os nossos passassem a fazer parte do quadro regulamentar que define a forma como concebemos o planeamento das cidades.”
