O Tinder é só para sexo? Histórias de mulheres que encontraram o amor mas escondem por preconceito

21 mai, 18:00
Aplicação de encontros (Getty Images)

As aplicações de encontros tornaram-se para muitos solteiros a única solução para conhecer pessoas durante os confinamentos. Mas nestas app's ainda se vive um preconceito em especial do sexo feminino, adiantam duas especialistas da área da sexualidade. A CNN Portugal falou com três jovens que, apesar dos obstáculos, conseguiram encontrar um parceiro e levar a relação do mundo virtual para o real

Os portugueses estavam em confinamento devido à covid-19 quando Joana Silva, então com 26 anos, decidiu instalar a aplicação de encontros Tinder. A engenheira, de Gaia, procurava uma relação séria, mas não acreditava encontrar um “match” tão depressa e que estivesse ali tão perto, da outra margem do rio Douro.

“Instalei a aplicação Tinder quando houve o “lockdown”, em março de 2020, por estar aborrecida. Não podia ir trabalhar, não saía com amigos”, conta, adiantando que antes já tinha tido uma experiência com a mesma aplicação, mas desistira."Da outra vez instalei por sugestão de amigas. Senti-me desconfortável e o Tinder fazia jus à fama que tinha: as pessoas só estavam lá para encontros e sexo fáceis”, diz.

Recorrer a estas plataformas não é pacifico e até é alvo de algum preconceito. "A forma socialmente mais aceite para conhecer alguém é o encontro cara-a-cara", começa por explicar Ana Carvalheira, professora investigadora no ISPA – Instituto Universitário, considerando que as pessoas se sentem mais legitimadas a escolher alguém pessoalmente, mesmo que o propósito seja "one night stand" (uma única noite de sexo).

"As mulheres - e também alguns homens - têm vergonha porque não querem parecer desesperadas. Quem vai à procura de amor, não quer ser visto como alguém à procura de sexo - o que é legitimo - mas quem vai à procura de uma relação amorosa não quer ser confundido", explica a doutorada em psicologia da sexualidade.

Mas desta segunda vez Joana encontrou mesmo o amor. Entre os vários rapazes com quem começou por conversar, um chamou-lhe a atenção. Trocaram mensagens durante quase dois meses,  o suficiente para a engenheira perceber que partilhavam os mesmos objetivos de vida.

Estão juntos há quase dois anos, tendo, apesar do risco de contacto pela covid-19, começado a sair durante a pandemia, numa perspetiva de os encontros casuais evoluírem para uma relação. Nunca houve uma conversa a esse nível, mas Joana sentia que não se tratava de algo meramente físico 

“Senti que estava implícito que ia evoluir para algo mais porque falávamos muito num futuro a dois: o que queríamos fazer, que queríamos viajar juntos, quais os nossos objetivos de vida. Uma semana depois de nos conhecermos, desinstalámos a app e dois meses após vários encontros, pediu-me em namoro”, recorda, revelando que o facto de ter conhecido Rodrigo na app nunca os levou a desconfiar das intenções um para com o outro.

“Sentes que eu não sou de confiança?”, perguntou certo dia Joana ao namorado, que lhe garantiu que na perspetiva dele não tinha mudado rigorosamente nada. "Foi como se nos tivéssemos conhecido na escola ou na universidade”, remata a Jovem.

Ana Carvalheira explica que estes como todos os outros casais passam pelo processo natural do que é o início do estabelecimento de qualquer relação, seja de longa ou curta duração.

"Qualquer app de encontros permite que se conheça pessoas que, de outra forma, nunca se encontrariam. A partir do momento em que estão cara a cara, tornam-se responsáveis pelo que vai acontecer a seguir, e isso depende delas. Podem ter sexo, podem não ter, podem casar, podem não se voltar a ver", explica a especialista.

Madalena, de 25 anos, também instalou o Tinder por causa da clausura forçada pela pandemia, a principal “culpada” pelo aumento de utilizadores destas apps.

A influencer, de Lisboa, conta que foi no primeiro confinamento que decidiu aderir ao este método virtual. “Instalei por curiosidade, estava aborrecida”, recorda. 

A psicóloga clínica Maria Joana Almeida garante que as apps tiverem um papel importante na pandemia, ao facilitarem a vida aos solteiros e às pessoas mais sozinhas. "O ir a restaurantes, sair à noite ou conhecer amigos de amigos deixou de ser possível”, sublinha.

Madalena não tinha expectativas. "Sabia de outros casos de relações que começaram no Tinder, mas não esperava que me acontecesse a mim, até conhecer o Frederico.”O casal conheceu-se em abril de 2020 e durante cerca de dois meses foram mantendo o contacto só através da aplicação.

Do Tinder passou para a vida "real", mas pelo meio Madalena assume que, apesar de ter percebido o que sentia, tinha receio de arriscar. “Começámos a perceber que queríamos estar juntos mais vezes e falar todos os dias", relata a influencer, explicando que agiu sempre de forma mais “defensiva”, para não se magoar por estar a conhecer alguém através da aplicação.

“Nunca tinha conhecido alguém pelo Tinder. Não tínhamos amigos em comum, nem sabia sequer se estava preparada, mas acabou por se tornar inevitável”, relata Madalena, que aponta a distância como um dos principais fatores que causaram algum atrito no início da relação, uma vez que Frederico é da Batalha. 

Ao contrário de Joana, Madalena confessa que, no início da relação - que dura há ano e meio-  houve algumas dúvidas por se terem conhecido na internet. "Foi um problema porque sabíamos que nos tínhamos conhecido numa aplicação de dating, onde há outras pessoas também. Era um problema, mas depois deixou de ser tema”, explica, contando que o casal nunca abordou a questão de desinstalar a aplicação, que aconteceu naturalmente.

"As aplicações tiveram um papel muito positivo por permitirem encontros, uma gestão do risco pessoal, experimentar relações e ter comportamentos sexuais. Apesar da covid, algumas pessoas estavam dispostas a correr os mesmos riscos", nota a psicóloga clínica e terapeuta sexual Maria Joana Almeida. 

Carlota Barros tem 23 anos e estuda marketing. Confessa que sempre procurou uma relação, mas nunca acreditou que ia ser através do Tinder que ia encontrar o atual namorado.

“Havia essa esperança, mas o Tinder é super-associado a relações casuais e para sexo, não era algo que perspetivasse”, conta. A jovem estudante, de Aveiro, está com o namorado desde março de 2020. Não usam “rótulos”, mas têm um relacionamento sério.

“Quando entramos no Tinder, falamos com muitas pessoas. O meu namorado foi o primeiro com quem me encontrei pessoalmente. Fomos falando, analisando expectativas. Conversámos sobre o que cada um queria do outro. Ambos sabíamos que não queríamos só uma coisa casual. Para além da app, a nossa energia deu “match”, relata.

Conheceram-se na internet, mas não gostam que se saiba

"As redes sociais e as aplicações são um filtro, mas é pessoalmente que se vê o que se pode fazer e esperar do outro. E é aí que tudo começa", analisa Ana Carvalheira, que já em 2005 publicou a tese de doutoramento sobre relações interpessoais e comportamentos relacionais na Internet. 

As três jovens com quem a CNN Portugal conversou, falam abertamente sobre o assunto, as histórias são reais, mas os nomes não. Mostram-se bem resolvidas, mas a verdade é que são raras as vezes que confessam onde encontraram o amor. 

Joana, por exemplo, omite de quase todos os que a rodeiam que conheceu o namorado no Tinder.  "Digo que foi através de amigos em comum ou pelo Instagram, não me sinto à vontade para dizer a verdade", conta, revelando: "Aos meus pais nunca vou dizer a verdade".A engenheira assume, aliás, que “fica tensa” quando alguém pergunta ao casal diretamente onde se conheceram e que só as pessoas que lhe são mais próximas sabem a verdade.

Carlota também confessa ter "alguma vergonha" em dizer onde encontrou o amor. “Depende das pessoas com quem estou, mas geralmente não me sinto à vontade para dizer a verdade. A maior parte das vezes digo que o conheci através de amigos em comum", afirma, acrescentando que na perspetiva do namorado “não muda rigorosamente nada”. Para a jovem de 23 anos, não há dúvidas de que o preconceito acontece, particularmente em relação ao sexo feminino. "Quando se trata dos rapazes, ninguém vê mal nisso".

Este preconceito direcionado às mulheres, defende a terapeuta sexual Maria Joana Almeida, é "a desigualdade de género a fazer o seu papel por detrás dos comportamentos". 

“As mulheres, no campo da sexualidade, ainda são mais controladas. Assumir em público que se procura parceiros não é fácil,. E nestas apps é mais fácil encontrar um parceiro sexual do que o amor da nossa vida, mesmo que seja o que se procura", diz a especialista.

Já Madalena não sente qualquer vergonha em admitir à família e amigos onde conheceu o namorado, apesar de nunca o ter exposto nas redes sociais, veículo que usa para trabalhar, porque “ainda há quem julgue”. No seu caso, o Tinder não serviu apenas para encontrar o amor, pois também teve impacto na sua autoestima.

"Confesso que o Tinder deu um "boost" ao meu ego, à minha confiança, não deixamos de estar sempre à procura de validação", conta, lembrando o lado negativo: o constante julgamento pela aparência.

De acordo com Maria Joana Almeida, as motivações que levam as pessoas a usar as aplicações são várias e os objetivos diferentes."As pessoas procuram sentir-se desejadas, procuram sexo, podem procurar alguém para conversar por várias semanas ou para sempre", exemplifica, explicando que nas aplicações corre-se o risco de "desumanizar as relações”.

Mas há algumas vantagens em iniciar relações nestas plataformas digitais, sublinham as duas especialistas,. Uma é a de causar uma maior abertura e de a escrita permitir uma escalada de comunicação e de intimidade entre as pessoas.

“Na app não há tanta inibição, as pessoas sentem que podem dizer o que querem sem estar a ser alvo de tanto julgamento quanto seriam se estivessem a conhecer essa pessoa num bar, por exemplo", nota a terapeuta.

Truques para minimizar riscos

A menor inibição de não estar cara a cara tem o reverso da medalha: nunca se sabe se o perfil é real. “Uma das formas de prevenir é pedir as redes sociais. Por aí conseguimos ver, à partida, se a pessoa é real e se não está num relacionamento. Recebia alguns "unmatch" quando pedia", conta Joana, que explica que através da abordagem do outro é possível ir identificando "red flags" (bandeiras vermelhas) que indiciam que é melhor a conversa ficar por ali. 

A jovem de 28 anos garante que nunca se sentiu insegura por ter começado um namoro através daquela rede social. “A partir do momento em que decidimos que éramos exclusivos e saímos do Tinder, pronto”.

“A rejeição não acontece no Tinder. De cinco em cinco segundos, tens um match novo. Vai haver sempre alguém. Ter a certeza se aquela pessoa existe é que é problemático”, refere Carlota, que também concorda com o método de pedir as redes sociais a quem quiser conhecer pessoas através destas aplicações. "A intuição também ajuda muito a "filtrar", acredita.

Homens e mulheres nas aplicações de igual para igual?

A resposta à questão sobre se as mulheres e os homens estão em pé de igualdade nos sites de encontros é complicada e vai demorar muitos anos. Quem o diz é Ana Carvalheira, que explica que vão ser precisas mudanças sociais no sentido de uma maior liberdade para que as mulheres não sintam vergonha e se libertem. 

Lembrando que ainda há alguma resistência por parte das mulheres em aderir a estes métodos, a professora investigadora no ISPA – Instituto Universitário avisa que o importante é seguir o que se quer, sem medo: "Pode ser o amor, para uma relação de compromisso, pode ser o prazer sexual sem nenhum compromisso”.

Segundo a especialista em sexualidade, a sociedade ainda vive perante um “duplo padrão sexual”.“É duplo porque há diferenças. É suposto o homem ser mais ativo e a mulher menos ativa.”, explica Ana Carvalheira, revelando que este padrão tem vindo a alterar-se e que nos aproximamos de um período marcado por uma maior igualdade de género.

Nesse aspeto, a especialista considera mesmo que as aplicações de encontros contrariam o duplo padrão sexual, dando como exemplo a aplicação Bumble, em que só as mulheres podem começar uma interação com o “match:”.Apesar da evolução, a especialista considera normal que ainda haja embaraço e alguma vergonha por parte das mulheres que as utilizam. “O preconceito e a vergonha são um espelho do tal duplo padrão.

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