Ator britânico tem uma carreira marcada pelo ecletismo
Tim Curry, o ator inglês que se tornou um ícone de culto graças às suas prestações em "The Rocky Horror Picture Show", "Clue" e na minissérie "It", faleceu. Tinha 80 anos.
A polícia foi chamada para investigar a morte de um homem de 80 anos numa morada em North Hollywood às 23:20 desta terça-feira, informou o Departamento de Polícia de Los Angeles.
O Corpo de Bombeiros de Los Angeles confirmou ainda que as equipas de emergência acorreram a uma ocorrência médica na mesma morada nesta terça-feira, às 22:42, para um homem adulto que foi declarado morto.
A causa imediata da morte ainda não foi esclarecida. Em 2012, Curry sofreu um AVC e enfrentava problemas de saúde desde então.
Ator de personagens clássico, Curry interpretava frequentemente britânicos arrogantes, vilões astutos (interpretou o diabo mais do que uma vez) e parceiros atrapalhados.
Exigiu atenção assim que apareceu no ecrã como Frank N. Furter em "Rocky Horror" (1975), caminhando ousadamente entre fileiras de acólitos e rasgando um robe para revelar um espartilho e meias. O seu Senhor das Trevas, do filme de fantasia "Legend" (1985), tinha cornos gigantes e uma cara vermelha como um tomate, mas foi a prestação descontraída de Curry, repleta de ameaça, que elevou o papel a algo mais do que uma caricatura.
Curry tinha o distanciamento de um ator profissional — e a discrição de um inglês — em relação aos papéis que interpretava. Ao descrever Pennywise, o palhaço demoníaco que interpretou em "It" (1990), talvez a criação mais assustadora de Stephen King, disse à revista Fangoria: "Basicamente, ele é completamente irredimível; é o tipo de sujeito totalmente sem charme".
Quanto a Frank N. Furter, o "doce travesti da Transilvânia Transexual", Curry era igualmente distante, lembrando-se do adorado papel com "tolerância divertida".
Contou ao programa "Fresh Air" da NPR, em 2005, que o papel carismático foi um desafio a superar.
"[Era] tão fora do comum, tão meio escandaloso, que fiquei bastante quieto durante algum tempo, só para garantir que as pessoas compreendiam — que aquele não era necessariamente quem eu era", disse.
Início e ascensão
Timothy James Curry nasceu a 19 de abril de 1946, em Grappenhall, Inglaterra, a cerca de 48 quilómetros do interior de Liverpool. O pai do ator era capelão da Marinha Real Britânica, e Curry cresceu em várias cidades do mundo antes de a sua família se estabelecer em Plymouth, na costa sul de Inglaterra, depois de o seu pai ter sofrido um acidente vascular cerebral. Quando tinha 12 anos, o pai faleceu, acontecimento que o abalou profundamente.
Foi um "enorme ponto de viragem na minha vida", disse ao programa "The View", em 1997. "De repente, estás dois anos mais velho do que todas as outras crianças".
A sua família mudou-se para Londres, e Curry decidiu tornar-se ator, graduando-se em teatro em 1968. O seu primeiro papel profissional foi numa produção de "Hair".
Depois de uma variedade de outros papéis — recorda-se de ter interpretado vários deles, nem todos com sucesso, num teatro de 60 lugares enquanto lutava para sobreviver — foi escolhido pelo escritor Richard O'Brien para o novo "Rocky Horror Show" de O'Brien em 1973. Como convinha à paródia dos filmes de terror e ficção científica dos anos 50, Curry interpretaria originalmente Frank N. Furter, um cientista louco com sotaque alemão.
Mudou de ideias um dia, enquanto andava de autocarro e ouviu uma mulher com sotaque da alta sociedade. Acabou por basear a voz espirituosa de Frank N. Furter na sua mãe — e na Rainha Isabel. Os figurinos também evoluíram, com o espartilho a vir de uma peça de Jean Genet na qual tinha atuado anteriormente.
A produção tornou-se um grande sucesso nas suas versões em Londres e Los Angeles, embora tenha fracassado na Broadway. Nessa altura, porém, a versão cinematográfica já tinha sido lançada.
O inesperado sucesso de "Rocky Horror" mudou a vida de Curry. Lembrava-se de relaxar à beira de uma piscina em Hollywood e de se perguntar como lidar com a fama.
"Estava hesitante, pois se resultasse, poderia ser uma imagem difícil de me livrar", disse em 1975.
Mas, durante algum tempo, o sucesso foi limitado. Los Angeles adorou o filme, mas o resto do país não, e ameaçou afundar-se sem deixar rasto até ser repetido como filme da meia-noite no Waverly Theatre, em Nova Iorque. Em breve, todo o país estava cheio de cinemas a exibir "Rocky Horror" à meia-noite, com espectadores fantasiados que gritavam as falas e atiravam torradas para o ecrã. As exibições semanais continuam em muitas cidades do mundo até hoje.
Nas quatro décadas que se seguiram, o filme nunca desapareceu. (O musical está atualmente em exibição na Broadway, com o ator Luke Evans a receber uma nomeação para um Tony pela sua interpretação de Frank-N-Furter.) Até a Princesa Diana era fã do original e pediu para conhecer Curry numa ocasião. Curry perguntou-lhe se tinha visto o filme.
“Ah, sim. Completou a minha formação”, respondeu.
Para além de Rocky Horror
Curry, no entanto, tinha terminado com Frank. Além de uma entrevista para uma estação de TV universitária em 1975, mal falou sobre o filme durante mais de duas décadas.
Questionado na altura se estaria interessado numa sequela, desconversou. “Não comigo no elenco”, disse. (Houve uma espécie de sequela, “Shock Treatment”, em 1981, e, fiel à sua palavra, Curry não participou.)
Nas décadas seguintes, Curry foi um artista formidável, tanto no palco como no ecrã. Após o fiasco de “Rocky” na Broadway, regressou diretamente aos palcos, protagonizando “Travesties”, de Tom Stoppard, tanto em Londres como em Nova Iorque. Lançou alguns álbuns de música pop, tendo tido um sucesso moderado com "I Do the Rock" em 1979.
E teve papéis importantes em algumas obras populares, incluindo o mordomo Wadsworth em "Clue" (1985), que se tornou outro clássico de culto; "Legend", a fantasia sombria de Ridley Scott protagonizada por Tom Cruise; "It", considerado uma das melhores adaptações de Stephen King; e um arco narrativo na influente, embora pouco vista, série "Wiseguy".
A sua capacidade para interpretar vilões valeu-lhe muitos fãs, entre os quais Meredith Vieira, que o entrevistou no programa "The View", em 1997.
"Se fosses o diabo, eu pagaria para ir para o inferno", referiu a profissional.
Curry também trabalhou com dobragens. A sua interpretação da obra "Desventuras em Série", de Lemony Snicket, valeu-lhe uma nomeação para um Grammy, e deu voz a Darth Sidious na série de TV "Star Wars: The Clone Wars".
Mas os palcos continuaram a atraí-lo, incluindo participações em "O Meu Ano Favorito" e "Um Conto de Natal". Em 2005, Curry assumiu o cobiçado papel de Rei Artur em "Monty Python's Spamalot", baseado em "Monty Python em Busca do Cálice Sagrado". O musical foi um enorme sucesso, recebendo 14 nomeações para os Tony e vencendo na categoria de melhor musical. Curry e o seu colega de elenco, Hank Azaria, foram nomeados para melhor ator em musical, mas não venceram.
Talvez, se Curry tivesse interpretado um vilão no musical, tivesse tido mais hipóteses. Abraçou o estereótipo dos atores britânicos — “Eric Idle e eu temos uma saudação. Apertamos as mãos e dizemos: ‘mordomos e vilões’”, contou a Vieira — e deliciou-se com os papéis.
“O facto é que os vilões são sempre muito mais bem escritos do que os bons, e são irresistíveis de interpretar, porque são muito mais divertidos”, disse na entrevista ao programa “The View”.
David Mack, Zoe Sottile e Dan Heching, da CNN, contribuíram para esta reportagem
