O embaixador dos EUA em Itália está a atravessar o Mediterrâneo num iate de 450 milhões

CNN , Barbie Latza Nadeau, da CNN; Becky Anderson
27 ago, 19:11
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Uma mansão flutuante tornou-se casa diplomática e está a fazer um périplo por alguns dos locais mais icónicos do sul da Europa

Tilman Fertitta, o embaixador dos EUA em Itália, quer que todos vejam que tem uma cozinha muito normal. É um espaço informal, um local onde uma pessoa comum pode entrar para comer um pouco de carne de taco fria que sobrou de um recipiente de plástico, como está a fazer agora. "Não comi nada durante todo o dia", confessa.

Fertitta sublinha que é, na verdade, invulgar a simplicidade da cozinha, tendo em conta que faz parte do seu iate de 450 milhões de dólares (cerca de 390 milhões de euros), o Boardwalk. O embaixador, um bilionário texano de 69 anos, insistiu em instalá-la para que a família do dono do iate tivesse um lugar para se reunir, talvez preparar uma omelete. "Os grandes barcos nunca têm cozinha para a família", diz.

Isto acontece perto do final de uma extensa visita guiada à enorme e reluzente embarcação. Embarcámos durante uma das últimas paragens de um cruzeiro diplomático pela costa italiana, organizado pelo enviado da administração Trump. A viagem de verão, que começou em junho, incluiu escalas na Sicília, Veneza e Sardenha.

Hoje estamos num dos maiores portos marítimos de Itália, o Porto de Livorno, a cerca de 320 quilómetros de Roma. O embaixador e a sua comitiva chegaram atrasados ​​de um fim de semana na glamorosa Portofino, na Riviera Italiana, depois de uma forte tempestade ter atrasado a viagem do iate de 116 metros de comprimento e seis andares (sete, se contarmos com o pequeno deck de observação).

Fertitta, que ocupa a 109.ª posição na lista Forbes 400 dos americanos mais ricos, fez fortuna no negócio da hotelaria e do entretenimento. O seu projeto de verão com o Boardwalk tem como objetivo fortalecer as relações diplomáticas entre os EUA e a Itália, desempenhando o papel de anfitrião acessível na impecável mansão flutuante.

Almofadas perfeitamente fofas no interior extravagante do Boardwalk (Salvatore Laporta/KONTROLAB/LightRocket/Getty Images)
Almofadas perfeitamente fofas no interior extravagante do Boardwalk (Salvatore Laporta/KONTROLAB/LightRocket/Getty Images)

Antes da mais recente receção da série, barulhentos aspiradores da Dyson recolhem os destroços da tempestade, enquanto marinheiros com uniformes náuticos a condizer recolocam as decorações que tinham sido guardadas durante o temporal, numa coreografia que parece meticulosamente planeada nos bastidores. Ao longo da tarde, vemos corrimãos cromados a serem polidos, almofadas ajeitadas, tapetes vermelhos estendidos — tudo isto enquanto o leal segundo oficial de Fertitta, Carter Skains, garante que as nossas curiosas câmaras não se focam nas poças de água deixadas pela tempestade.

Enquanto o embaixador, a sua mulher Lauren Ware Fertitta e a sua filha de cinco anos, Elle, terminam a conversa connosco na cozinha, os convidados começam a chegar: oficiais militares americanos, fardados, de bases próximas; autoridades governamentais regionais e líderes empresariais italianos, em elegantes trajes casuais e roupas de linho, na esperança de atrair investimento americano.

Uma vez a bordo, os convidados saboreiam ovos recheados e bolas de mozzarella e tiram selfies em frente a uma das duas piscinas do iate antes de se alinharem para uma fotografia oficial com o embaixador.

Entre a inveja e a admiração

Tudo é intencional no iate de Fertitta, a começar pela lareira, que os visitantes veem primeiro: uma foto emoldurada em prata dele num abraço bipartidário, ombro a ombro, com os antigos presidentes americanos Bill Clinton e George Bush, pai. Exemplares do seu mais recente livro, “Shut up and Listen” ("Cala-te e ouve", em tradução livre), estão estrategicamente posicionados, mas não há muitas bandeiras americanas dentro do iate, exceto as bandeirinhas vermelhas, brancas e azuis nos corrimãos exteriores.

Fertitta afirma ser politicamente conservador. Os registos mostram que fez donativos ao ex-presidente norte-americano Joe Biden, mas não na mesma medida em que apoiou candidatos da família Bush, também texana, e mais recentemente Trump, que conhece há quase 25 anos. Acolheu “a maioria” dos presidentes americanos desde Clinton nas suas casas, mas as afiliações políticas continuam a ser subjetivas.

“Se recuarmos no tempo e analisarmos Bill Clinton naquela época, ele teria sido um conservador”, diz. “Sabe, a política provavelmente foi longe demais em ambas as direções, mas estou feliz com o que o nosso presidente fez e penso que ele fez com que todos na Europa percebessem a importância da NATO.”

Fertitta orgulha-se de, como o próprio diz, transitar com mestria “entre a inveja e a admiração” ao convidar pessoas para confraternizarem com ele a bordo dos seus navios em cada porto de escala: “Não o faço para me exibir. Faço-o porque funciona para as relações entre americanos e italianos e para a relação do embaixador Fertitta com todas as pessoas nestas pequenas cidades”.

A digressão, que terminará antes do Dia do Trabalhador (nos EUA, celebrado na primeira segunda-feira de setembro), foi recebida com aplausos e vaias ao atracar em mais de uma dezena de cidades portuárias italianas. Em Cefalù, na Sicília, percorreu as mesmas ruas que os seus antepassados ​​italianos e recebeu documentos de arquivo da cidade relacionados com a sua família. Em Veneza, recebeu a mesma saudação “No Kings” que Jeff Bezos recebeu quando se casou com Lauren Sanchez lá no verão passado.

O embaixador afirma não se deixar abalar pelas críticas. “Não me incomoda nada, porque protestar não me incomoda”, diz, sentado num dos grandes sofás de pele branca no convés principal do iate. “As pessoas perguntavam: ‘Vai cancelar?’ Nem pensar. Até falaria com os manifestantes. Não me importo de ouvir o que eles têm para dizer.”

Fertitta é o fundador da holding Landry’s, que detém centenas de restaurantes, hotéis e casinos nos Estados Unidos. No segmento de luxo do seu portefólio, o conglomerado detém o Morton’s The Steakhouse, o Mastro’s e o The Palm. Mas Fertitta também tem a sua influência em restaurantes casuais e familiares, como o franchising Rainforest Cafe e a Bubba Gump Shrimp Company. É proprietário dos hotéis e casinos Golden Nugget e da franquia Houston Rockets da NBA, além de ter apresentado um reality show chamado Billion Dollar Buyer.

Acredita que a sua perspicácia empresarial e o seu historial de sucesso fazem dele uma mais-valia para a missão diplomática do presidente Trump: "Sou um embaixador diferente, e eles adoram que eu tenha a capacidade de pegar no telefone, seja para assuntos políticos, empresariais ou de entretenimento, e colocar alguém na linha."

Fertitta está a financiar a viagem de verão com recursos próprios — com exceção da forte segurança, proporcionada pelo governo italiano por um valor não divulgado, o que tem causado estranheza e gerado manchetes por onde passa.

Tilman Fertitta a bordo do seu barco (Roberto Salomone/Bloomberg/Getty Images)
Tilman Fertitta a bordo do seu barco (Roberto Salomone/Bloomberg/Getty Images)
Manifestantes concentram-se em Veneza, em julho, durante um protesto contra a presença do iate de Fertitta (Lucrezia Granzetti/NurPhoto/Getty Images)
Manifestantes concentram-se em Veneza, em julho, durante um protesto contra a presença do iate de Fertitta (Lucrezia Granzetti/NurPhoto/Getty Images)

Fertitta afirma que proteger o embaixador americano ajuda a manter a equipa de segurança italiana ativa. “Lembrem-se, aqueles barcos estão lá fora a fazer alguma coisa, e aquelas pessoas também, e é um ótimo exercício para eles”, diz. “Porque às vezes protegem pessoas muito mais importantes do que eu, por isso estão a praticar bastante. Mas não tem sido nada de extraordinário ou invulgar... Esse é o trabalho da oposição, encontrar algo de errado nisto.”

Em muitos aspetos, o Boardwalk é a embaixada não oficial de Fertitta, tal como a propriedade Mar-a-Lago, na Florida, é a Casa Branca não oficial do presidente Trump. O objetivo declarado desta missão diplomática é o de reforçar os laços entre os povos italiano e americano, uma tarefa que foi recentemente desafiada durante a disputa entre o presidente Trump e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, uma antiga favorita de Trump e a única líder europeia presente na sua tomada de posse para o segundo mandato.

Fertitta desvaloriza a quezília entre o seu presidente e Meloni. Trump acusou-a de "implorar por uma selfie" em junho passado, durante a reunião do G7 em França, e sugeriu que precisava de uma ordem de restrição contra ela. "O presidente tem um grande sentido de humor, ok?", diz Fertitta. "E ele estava a usar o seu sentido de humor para falar sobre isso."

Fertitta concorda com o presidente Trump em tudo o que se espera de um embaixador americano, incluindo grandes questões de política externa, como a guerra no Irão e a postura de linha dura do governo em relação à imigração, que encontra eco nas próprias políticas internas de Itália. Afirma que espera poder trabalhar na disputa tarifária. Considera-se parte de um grupo de embaixadores não convencionais nomeados no segundo mandato de Trump, juntamente com Callista Gingrich na Suíça e Charles Kushner em França. "A Itália adora ter um embaixador com um pouco de prestígio, que consiga realizar coisas, que seja diferente e que tenha raízes italianas", diz.

As melhores flores de curgete fritas

Fertitta passou por cinco iates mais pequenos antes de encomendar este em 2022, com entrega prevista para esta primavera, ao estaleiro de Lürssen, com um século e meio de história. No interior, apresenta uma decoração eclética e moderna, escolhida pelo próprio Fertitta, com a orientação da designer de interiores Amy Halffman, que faleceu vítima de cancro no ano passado, aos 52 anos.

As obras de arte mais valiosas da família Fertitta estão em Roma, na residência do embaixador, que têm vindo a renovar com o seu tempo e recursos próprios desde que Fertitta assumiu o cargo de embaixador em maio de 2025, e nas suas casas no Texas. Mas o navio conta também com muitas peças de vidro de Murano, incluindo a sua nova favorita: uma escultura de uma corrente de corda grossa chamada "Nem todas as correntes detêm", de Edgardo Osorio, adquirida este verão em Veneza.

Uma das poucas obras de arte que trouxeram do iate anterior para este é uma grande pintura vermelha de Craig Alan retratando Marilyn Monroe, com os seus caraterísticos grupos de pequenas figuras humanas. Há também uma escultura original em bronze de Estella Fransbergen no corredor que conduz à sala do piano.

Vista aérea do enorme iate Boardwalk durante uma paragem em Porto Cervo, na Sardenha (Emanuele Perrone/Getty Images)
Vista aérea do enorme iate Boardwalk durante uma paragem em Porto Cervo, na Sardenha (Emanuele Perrone/Getty Images)

O tenor italiano Andrea Bocelli, também velejador e amigo de Fertitta desde que se conheceram no mar no ano passado, tocou o piano de cauda branco do Boardwalk quando lá passou algumas noites antes. "Já tive muitas pessoas a tocar piano nos meus barcos e nas minhas casas, mas ele faz algo que faz com que o som seja melhor do que o de qualquer outra pessoa", diz Fertitta, mostrando um vídeo da atuação no telemóvel para comprovar o seu ponto. "Basta observar como as mãos dele se mexem. É incrível. É lindo e a voz dele está ótima agora. Tem um talento inacreditável. É ótimo tê-lo como amigo."

As duas piscinas, os dois heliportos, o putting green, o spa com marquesas de massagens para homens e mulheres e o cinema do Boardwalk transpiram uma estética de riqueza recente. O iate tem lustres extravagantes, acessórios brilhantes, um elevador de vidro e mais mármore e mosaicos do que a maioria das villas italianas. Mas, apesar de todo o brilho, há muitos sinais de uma casa de família: uma batedeira KitchenAid e um esterilizador de biberões, para os netos, estão em cima da bancada da cozinha. O frigorífico, mostra-nos, está cheio de sobras. O que originalmente foi projetado como biblioteca do iate foi reaproveitado como sala de jogos de Elle. Lauren Ware Fertitta diz que projetou pessoalmente a área de recreio para incorporar mais espaço de armazenamento, que, segundo ela, é incrivelmente escasso na enorme embarcação. "Nunca se tem espaço suficiente para guardar as coisas", explica-nos a mulher do embaixador.

Durante a visita guiada, Fertitta demonstra entusiasmo em levar a nossa equipa às entranhas do navio, guiando-nos pelas salas de máquinas polidas, totalmente visíveis através de vidros, e até à sala de brinquedos para adultos, repleta de lanchas, jet skis e o que parece ser um submarino furtivo, apelidado de "limusine" para transportar os convidados do iate até à costa.

Apesar dos apelos dos seus assistentes para que avisasse da nossa chegada, Fertitta está determinado a surpreender a tripulação. Um dos seus pilotos de helicóptero é apanhado a correr numa passadeira na academia da tripulação, que Fertitta descreve como "muito melhor do que a nossa lá em cima".

De seguida, abre a porta da cozinha industrial, onde a sua chef, Tammy Steiger, que cozinha para ele neste e nos seus outros iates há dez anos, está a dar os últimos retoques nos canapés para a receção que terá lugar muitos decks acima. Fertitta entusiasma-se ao descrever aquelas que são as “melhores flores de curgete recheadas que já provou”, antes de abrir os frigoríficos para nos mostrar a abundância de alimentos a bordo. Steiger, que está com ele há muito mais tempo do que ele é diplomata, minimiza o elogio, aparentemente divertido. A sua equipa de segurança, que nos segue pelo barco, demonstra cada vez menos divertimento.

Fertitta afirma que, apesar do seu amplo sucesso nos negócios, o embaixador dos EUA em Itália ambiciona o cargo há muito tempo, desde que descobriu mais sobre as suas próprias raízes italianas. A sua relação com o presidente Trump remonta a 1999, quando Fertitta desenvolveu um Rainforest Café no Trump Plaza Hotel and Casino. Mas diz que não era garantido que esta administração lhe concedesse finalmente o tão desejado cargo de embaixador.

“Ser embaixador exige que muitas coisas funcionem”, diz. “É preciso escolher o candidato certo. É preciso manter-se fiel a ele. Ele precisa de ser eleito na eleição geral e, depois, é preciso ter influência suficiente para conquistar o país que se quer e para que ele acredite que se fará um grande trabalho lá. É preciso ser um génio para conseguir um cargo tão importante como este. Diria que, mesmo sonhando alto, ganhei a lotaria.”

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