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Como o Parlamento Europeu vê o TikTok, a rede social que "tirou" aos seus funcionários

22 abr 2023, 09:26
TikTok União Europeia (Getty Images)

Um mês depois da polémica decisão de retirar o TikTok a quem trabalha em Estrasburgo, a CNN Portugal foi perceber como uma rede social de vídeos, danças e piadas é vista pelos eurodeputados

O TikTok apaixonou as gerações sub-30, mas não só. Entre os mais de mil milhões de utilizadores da rede social de origem chinesa está a eurodeputada Maria da Graça Carvalho - é uma das mais velhas da delegação do PSD no Parlamento Europeu e a única que tem conta no TikTok, e usa - apesar das recentes restrições. 

“Fico surpreendida por ser a única. Não percebo porque os deputados não utilizam mais, para chegar aos mais jovens”, diz, em entrevista à CNN Portugal, no Parlamento Europeu.

Com entusiasmo e entre risos, Maria Graça Carvalho faz scroll no seu telemóvel, mostrando à CNN Portugal os vídeos a que acha piada. "Adoro os vídeos do Carlos Moedas. Tão engraçado!", diz a eurodeputada. Desde 20 de março que as instituições europeias impõem que esta rede social seja apagada de telefones de trabalho. “Os funcionários do Parlamento não podem ter TikTok nos dispositivos de trabalho e a internet do Parlamento não dá acesso. Maria da Graça Carvalho usa o seu telefone pessal e os dados móveis para o conseguir, conta, antes de se perder, ainda a sorrir, nos seus tiktoks.

“Sou político e os políticos têm de chegar às pessoas"

Nuno Melo, eurodeputado do CDS, também reconhece a importância do TikTok. “Tenho, porque sou político e os políticos têm de chegar às pessoas. Quem percebe de comunicação, entende que o TikTok é uma plataforma, hoje, relevante”. Apesar de gostar da rede social, o deputado garante que não tem a aplicação em nenhum dispositivo profissional e que só a utiliza quando volta a Portugal.

“Se o Parlamento Europeu informa sobre limites ao uso do TikTok, eu presumo que houve uma investigação de entidades que são competentes, que me levam a acreditar que o risco existe”, acrescenta Nuno Melo.

Paulo Rangel, do PSD, admite que a rede “usa e manipula dados, os armazena, os pode ceder a estados terceiros ou a entidades desconhecidas, sem dar garantias que respeita os princípios que regulam a utilização desses dados”. Desta forma, o eurodeputado concorda com a aplicação de medidas de proteção e segurança, admitindo que “não têm de ser eternas nem definitivas”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Mas o Parlamento Europeu quer abolir o TikTok para toda a gente?

Jaume Duch, diretor geral de comunicação do Parlamento, deixou algo muito claro: “Não estamos a banir ninguém de usar a app. Estamos a alertar para os perigos e a mover o governo chinês para respeitar as leis”, diz. 

Vários eurodeputados reforçam a ideia, igualmente, de que o objetivo nunca foi cancelar a aplicação. Marisa Matias garante que ainda recebem muitas denúncias até de outras redes, como o Facebook. “Há as questões da desinformação, da privacidade, dos dados. Acho que elas todas têm de ser mais reguladas do que aquilo que são, sem pôr em causa a liberdade de expressão”, explica a deputada do Bloco de Esquerda.

As preocupações da União Europeia estendem-se para além dos dados confidenciais nos dispositivos dos funcionários de instituições públicas, mas também ao cidadão comum, ainda que não possam controlar comportamentos pessoais.

“Temos de garantir que as novas gerações estejam num local protegido, em vez de serem abusados pelas plataformas, roubados de dados, terem falsas notícias e publicidades. Se há um setor de população que precisa de ser protegido é o das novas gerações”, afirma Jaume Duch.

Apesar de também defender que todas as redes sociais vivem de dados e precisam de ser reguladas, no PS, Maria Manuel Leitão Marques acrescenta um ponto à discussão.

“Todas as redes vivem de dados. A diferença do TikTok e das outras redes é que a propriedade do Tiktok é de uma empresa chinesa e, como é sabido, na China não há propriamente uma fronteira clara entre o que é uma empresa privada e o que é o Estado”

Surge então a questão: será que se o TikTok não fosse chinês não existiriam tantas preocupações?

Pedro Silva Pereira, eleito pelo PS, bate a mão na mesa e esclarece: “Não é do nosso interesse cortar relações económicas com a China”, diz à CNN Portugal.

Marisa Matias corrobora. Este não é um ataque ao país asiático, admitindo, novamente, preocupações com todas as redes sociais. Ainda assim, a eurodeputada não deixa de referir que poderá existir uma “mimicação” da decisão dos Estados Unidos, podendo ou não estar relacionada com a ligação à China.

Ao diretor de comunicação a pergunta gerou um desconforto notável na sua postura, mas depois de pensar uns segundos clarificou: “Não sei se vender a parte gerida pela China seria opção. Sei que há discussões, mas não sei as condições”. Ainda assim, Jaume Duch enfatizou que “por parte do Parlamento há muito interesse em ouvir o TikTok e, se a administração resolver os conflitos com a Europa, também vai resolver com o resto do mundo”.

Apesar da opinião favorável em relação à aplicação, Maria Graça Carvalho, do PSD, não deixa de também reconhecer os perigos da aplicação, principalmente para pessoas com acesso a dados confidenciais.

“Tudo o que no mundo físico é ilegal também é ilegal no online. As redes têm de obedecer à proteção de dados. Chinesa ou não chinesa, têm de seguir a lei, de forma a que os deputados possam continuar a utilizá-la".

Perder o TikTok é perder os jovens?

O facto de os funcionários do Parlamento estarem proibidos de usar a rede social chinesa tem consequências na comunicação política para os mais novos. Com eleições europeias à vista, em 2024, o assunto é ainda mais importante. 

Nas últimas eleições, em 2019, a percentagem de jovens a votar aumentou de 28% para 42%. Os números subiram, mas o diretor de comunicação admite que continuam abaixo dos níveis pretendidos. Jaume Duch acrescenta ainda que, com a idade de votar a diminuir em alguns países, “o Parlamento tem como objetivo alcançar os meios certos para chegar a esses mesmos jovens”.

Suspirando, o diretor admite: “Nós sabemos onde o nosso público está e não podemos estar onde o público está”.

Quem mais sente dificuldade são os assessores dos vários partidos que temem não conseguir cativar as novas gerações, a pouco mais de um ano do novo ato eleitoral.

Filipa Sobral, assessora do PCP, admite que “o TikTok tem um alcance que as outras não têm”. Da mesma opinião é Teresa Pinheiro Gonçalves, assessora de imprensa do eurodepurado independente Francisco Guerreiro, que lamenta a não utilização da rede, já que, na sua opinião, permite uma comunicação política “diferente e criativa, sem os comunicados de imprensa habituais”.

Quem não sente o lado negativo de não poder recorrer ao TikTok é o assessor da delegação do Partido Socialista, Luís Rego: “Está completamente fora dos nossos planos. Não vamos nessa onda. Não nos parece uma ferramenta apropriada. A linguagem do TikTok não se adequa à nossa comunicação”.

As visões dentro do Parlamento Europeu podem ser tantas quantas as do partidos que nela têm assento. Philip Shulmeister, da unidade de opinião pública do Parlamento, remata que “não há forma de ignorar a perceção pública”.

Como a rede social tem movido massas pelo mundo e mesmo tendo em conta os alertas de segurança, tanto os funcionários como os deputados do Parlamento Europeu concordam com a tese de que o TikTok veio para ficar, sendo apenas necessário que cumpra a lei para evitar mais conflitos com a Europa e outros países.

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