Desde que assumiu o poder, em 2012, Xi tem enfatizado cada vez mais a necessidade de "sinicizar" a religião e, segundo os críticos, intensificado os esforços para reprimir a dissidência e apertar o controlo sobre as minorias étnicas da China, particularmente no Tibete e na vizinha região de Xinjiang
Dharamshala, Índia — Choegyal Dawa não conseguiu conter a emoção ao dar de caras com uma imagem que não via exposta abertamente desde a sua infância: um retrato do Dalai Lama, o líder espiritual do budismo tibetano.
"Fiquei tão emocionado que me desmanchei a chorar", conta Choegyal ao ver o grande retrato – cuja exposição é proibida na China – num centro para novos refugiados tibetanos em Katmandu, capital do Nepal, no início deste ano. "Foi aí que senti que tinha chegado a um lugar seguro, que estava livre."
Esta foi a primeira vez que o jovem de 25 anos deixou a China – a primeira etapa de uma viagem que o tornou um dos poucos tibetanos a fugir do país para o exílio nos últimos anos.
A sua história é um raro relato em primeira mão sobre o amadurecimento na região do Tibete numa altura em que a área foi transformada pelas políticas do líder chinês Xi Jinping — e enquanto um novo ponto de tensão surge em torno da futura sucessão do Dalai Lama, atualmente com 91 anos.
Desde que assumiu o poder, em 2012, Xi tem enfatizado cada vez mais a necessidade de "sinicizar" a religião e, segundo os críticos, intensificado os esforços para reprimir a dissidência e apertar o controlo sobre as minorias étnicas da China, particularmente no Tibete e na vizinha região de Xinjiang.
A China formalizou agora esta iniciativa numa nova e abrangente lei de unidade étnica, que entrou em vigor a 1 de julho. Pequim afirma que as regras visam "forjar um forte sentido de comunidade para a nação chinesa". No entanto, os grupos de defesa dos direitos humanos argumentam que aprofundam a assimilação forçada e o apagamento das línguas, além de aumentarem os riscos para quem defende as minorias, mesmo no estrangeiro.
Um dia após a entrada em vigor da lei, um ativista tibetano morreu depois de ter ateado fogo ao próprio corpo em frente à sede das Nações Unidas, em Nova Iorque – um ato extremamente raro perante a crescente preocupação da comunidade tibetana no exílio sobre o impacto das políticas de Pequim nas futuras gerações de tibetanos.
O Partido Comunista Chinês, oficialmente ateu, insiste também que detém, sozinho, a autoridade para decidir quem sucederá ao atual Dalai Lama. Choegyal partilhou a sua história com a CNN – e optou por usar o seu nome verdadeiro – para relatar detalhadamente as mudanças que testemunhou na região do Tibete ao longo da sua vida.
Teme que a sua geração seja a última na China a ter o tipo de oportunidade que ele teve para estudar formalmente a história, a língua e a cultura tibetanas ao longo da sua formação – uma mudança que, segundo ele, está já a criar uma rutura geracional.
"A geração mais velha não consegue comunicar com a mais nova agora. Se os avós querem contar histórias sobre o Tibete ou as suas próprias histórias, os jovens não conseguem compreendê-las", diz Choegyal. "Estão completamente desconectados."
O seu relato coincide com a documentação de investigadores e grupos de defesa dos direitos humanos sobre uma reformulação governamental, em curso há anos, na educação das crianças tibetanas – incluindo uma crescente ênfase na língua chinesa em detrimento da tibetana, algo formalizado na nova lei da unidade étnica.
Milhares de tibetanos costumavam fugir da sua terra natal todos os anos, segundo os especialistas, mas são poucos os que atualmente partem. Entre 2020 e 2025, menos de 90 tibetanos foram acolhidos como refugiados na Índia, adianta à CNN a Administração Central Tibetana, o governo tibetano no exílio.
As autoridades chinesas dificultaram a obtenção de passaportes, e as fronteiras terrestres – submetidas a um forte aparato de segurança há mais de uma década – continuam praticamente intransponíveis ou demasiado perigosas. Melhores perspetivas económicas podem também estar a reduzir os incentivos para partir.
Paralelamente, a vigilância digital limitou a capacidade das pessoas para trocar informações com o exterior a partir das regiões tibetanas na China. Estas áreas incluem não só a Região Autónoma do Tibete (a nível provincial), mas também partes de províncias vizinhas, como Sichuan, a terra natal de Choegyal.
Choegyal conseguiu sair de avião, munido de documentos de viagem, no início deste ano. Chegou primeiro a Katmandu — onde se sentiu visível e diferente pela sua aparência tibetana —, mas entrou no país sem problemas.
Nas semanas seguintes, com o auxílio de um centro de acolhimento, seguiu viagem rumo à Índia, chegando finalmente à cidade de Dharamshala.
Choegyal relatou a sua história à CNN a partir daquela cidade, que tem sido o centro da causa tibetana desde que o 14.º Dalai Lama fugiu da sua terra natal e aí estabeleceu um governo no exílio, há mais de seis décadas.
‘Os tibetanos devem aprender tibetano’
Esta não foi a primeira tentativa de fuga de Choegyal.
Na sequência dos protestos generalizados contra o domínio chinês em todo o Tibete, em 2008, Choegyal, então com 8 anos, tentou escapar do país e seguir os passos do pai e do tio, que tinham partido na altura dos distúrbios, segundo o próprio.
No entanto, foi capturado pela patrulha fronteiriça chinesa na região de Shigatse, no Tibete, enquanto fazia a perigosa viagem a pé até à fronteira com o Nepal, acompanhado por um guia.
Enquanto o guia conseguiu escapar, Choegyal relatou ter estado detido durante cerca de um mês e ter passado por interrogatórios antes de ser levado para uma prisão local, onde permaneceu durante seis meses – sendo a única criança detida e impedida de contactar com a sua família.
A CNN não conseguiu verificar o seu relato de forma independente, mas há muito que grupos de defesa dos direitos humanos e ativistas relatam que aqueles que são apanhados a tentar sair do Tibete sem autorização oficial enfrentam longos períodos de detenção e maus-tratos.
A CNN contactou o Departamento de Trabalho da Frente Unida da China, o organismo responsável pela implementação das políticas de Pequim para o Tibete, para solicitar uma posição.
Após regressar a casa, Choegyal recomeçou a sua vida e os seus estudos no seu condado natal, Drago (Luhuo, em chinês), situado nas vastas pradarias e montanhas de uma região tibetana de Sichuan, no extremo sudeste do planalto do Tibete-Qinghai.
Choegyal – um jovem de postura séria, mas que sorri com facilidade – conta que, quando ingressou na escola nessa altura, em 2011, pôde estudar a língua e a cultura tibetanas, frequentando escolas fundadas por monges.
"Nessa altura, o meu professor dizia: 'Nós, tibetanos, devemos aprender tibetano... precisamos de proteger a nossa própria cultura'", recorda sobre a sua escola primária, que servia centenas de alunos locais, tanto do condado onde vivia como das redondezas.
No ensino secundário, frequentado numa importante instituição tibetana na província de Qinghai, Choegyal relatou que as autoridades educativas realizavam inspeções aleatórias para verificar o que os alunos liam e "se o conteúdo estava relacionado com o Dalai Lama ou com a política tibetana", diz.
Ainda assim, Choegyal e os seus colegas estudavam a história das dinastias tibetanas, a lógica, os sistemas filosóficos, a poesia, a linguística e a astrologia – disciplinas fundamentais na tradição budista tibetana.
Nos últimos anos, porém, viu as portas a este tipo de educação fecharem-se. O controlo da sua escola primária foi assumido pelo Estado em 2021, conta, enquanto a sua escola secundária foi encerrada em 2024.
Agora, as crianças do seu condado de origem frequentam escolas públicas de ensino primário, onde o tibetano é ensinado como uma disciplina isolada, adianta. E em vez de ensinar a cultura tibetana, até o manual de língua tibetana glorifica o Partido Comunista e as suas forças armadas, diz.
Mudanças e encerramentos semelhantes foram documentados por observadores e grupos de defesa de direitos humanos, que afirmam que esta tendência mais ampla é impulsionada por uma mudança de política sob o comando de Xi – e pelo seu apelo para que o patriotismo seja incutido "em todos os tipos e níveis de ensino" no Tibete.
Nos últimos anos, Pequim expandiu rapidamente as exigências para que as escolas das regiões de minorias étnicas adotem o ensino principalmente em língua chinesa, começando já na educação pré-escolar. O encerramento das escolas tibetanas ocorreu em paralelo com um endurecimento nacional das regras para as escolas privadas em 2021.
Agora, a nova "Lei sobre a Promoção da Unidade e do Progresso Étnico" estabelece o mandarim como a "língua básica" nas escolas, apesar das leis de longa data que protegem o uso de línguas de minorias étnicas em regiões autónomas.
Os especialistas em direitos humanos das Nações Unidas afirmam ainda que um sistema de internatos na região pode ter como objetivo "assimilar os tibetanos". A maioria dos estudantes tibetanos – calcula-se que quase 1 milhão de crianças – estava em internatos, uma proporção muito acima da média do resto do país, segundo eles.
Questionado pela CNN sobre os internatos no ano passado, Xu Zhitao, vice-presidente da Região Autónoma do Tibete, afirma que todos os esforços do governo "garantiram efetivamente o direito das crianças tibetanas a receber uma educação de alta qualidade".
Pequim tem refutado repetidamente aquilo a que chama de "narrativa falsa" de que procura reprimir a identidade, a língua ou a religião tibetanas. O governo insiste que as suas políticas reconhecem e respeitam o património cultural tibetano e visam promover a estabilidade, a unidade étnica e a prosperidade partilhada. Segundo Pequim, a lei da unidade étnica ajuda a garantir a igualdade e a apoiar o desenvolvimento económico.
Algumas famílias tibetanas podem apoiar o ensino da língua chinesa aos seus filhos, uma vez que esta é agora exigida nos exames de admissão às universidades da China – tornando-se um requisito para o sucesso no competitivo sistema educativo e no mercado de trabalho do país.
No entanto, Choegyal afirma que as mudanças tiveram um impacto devastador na ligação dos jovens tibetanos com a sua língua e cultura.
Segundo as suas estimativas, a maioria dos seus colegas na sua cidade natal que estão na casa dos 20 anos consegue falar tibetano, mesmo que se sintam mais confortáveis a falar chinês.
Mas apenas cerca de metade das crianças no início da adolescência e "muito, muito poucas" crianças mais novas conseguem falar a língua, devido à expansão do sistema educativo governamental, incluindo os internatos, adianta. "Quanto mais nova for a criança, menor será a probabilidade de ela falar tibetano."
Neste ambiente, acrescenta, parece “mais difícil aprender tibetano na região do Tibete do que (aprender) inglês”.
Uma terra-natal transformada
Estas rápidas mudanças na educação ocorrem numa altura em que Pequim se prepara para a futura sucessão do Dalai Lama, que completou 91 anos em julho.
O líder espiritual e Prémio Nobel da Paz afirmou que o seu gabinete terá autoridade exclusiva para identificar a sua reencarnação, que será encontrada fora da China. No entanto, espera-se que Pequim aproveite a ocasião para consolidar o seu controlo sobre o budismo tibetano ao nomear o seu próprio sucessor.
Há décadas que o Partido Comunista Chinês, no poder, lidera uma campanha contra o apoio ao Dalai Lama e o que considera ser o separatismo no Tibete, território tomado pelas suas forças na década de 1950.
Pequim nomeou os seus próprios monges de alto nível, manteve uma vigilância apertada e controlos sobre a expressão religiosa, além de enfrentar acusações de reprimir a dissidência pacífica e de forçar o realojamento em larga escala de tibetanos rurais e nómadas.
Xi chegou ao poder após os protestos de 2008 no Tibete e os distúrbios violentos em Xinjiang – outra região fronteiriça da China moderna onde as minorias étnicas há muito se ressentem do domínio de Pequim e testemunham uma forte repressão de segurança. Desde então, o líder chinês tem apresentado um esforço mais amplo para "integrar" os tibetanos e outros grupos étnicos na cultura chinesa dominante como algo fundamental para a segurança nacional.
Embora esta iniciativa inclua políticas como a redução da pobreza, a China também tem sido acusada de graves violações dos direitos humanos devido à alegada detenção em massa de uigures e outras minorias muçulmanas em Xinjiang. Pequim nega veementemente todas estas acusações.
Choegyal diz que também testemunhou o endurecimento da vigilância e a repressão do quotidiano dos tibetanos enquanto crescia.
O seu condado natal, Drago, tem um historial de resistência que obteve como resposta repressão policial e vigilância intensificada, segundo os investigadores – especialmente depois de o condado se ter tornado um foco de protestos durante as manifestações tibetanas de 2008.
Hoje, os residentes são frequentemente convocados para reuniões governamentais, onde recebem instruções sobre temas como a necessidade de ouvir o Partido Comunista e as razões pelas quais não devem enviar os seus filhos para escolas de mosteiros, relata Choegyal.
O jovem também diz ter testemunhado os resultados do que os investigadores apontam como uma repressão da identidade religiosa tibetana por volta de 2021, quando as autoridades demoliram locais, estátuas e objetos religiosos na região de Drago.
Uma grande estátua de Buda, bandeiras de oração e rodas de oração utilizadas em práticas devocionais foram todas removidas ou destruídas numa cidade do condado, diz – corroborando partes de uma repressão documentada num relatório de 2023 do grupo de investigação e defesa de direitos Tibet Watch.
Choegyal relata ter ouvido dizer que as pessoas que protestaram contra as demolições foram levadas para um "centro de reeducação" para "sessões de educação política" – sendo, por vezes, "punidas por mais de 20 dias".
O local sagrado onde se encontrava a estátua de Buda, à beira de um rio, foi pavimentado para dar lugar a uma pista de corridas, acrescenta, enquanto se construíam edifícios de vários andares onde antes existia uma escola monástica demolida.
Em maio, o governo local realizou uma corrida de cavalos na pista para celebrar o "progresso conjunto entre diferentes grupos étnicos", segundo um relatório dos meios de comunicação estatais.
A CNN analisou imagens de satélite que confirmam a construção de uma via semelhante a uma pista de corridas no antigo local da estátua de Buda – que, segundo Choegyal, tinha sido transferida para o interior de um mosteiro. O Tibet Watch também relata desenvolvimentos relacionados com o novo uso do local para corridas de cavalos.
O relatório de 2023 do Tibet Watch documenta ainda a utilização de um "centro de reeducação" no condado de Drago, na altura descrita por Choegyal. Os especialistas afirmam ser difícil documentar a frequência com que tais instalações ou práticas são utilizadas nas regiões tibetanas – e Choegyal diz não ter a certeza se o centro no condado de Drago ainda está em funcionamento.
Para Choegyal, deixar a sua terra natal, onde vivia sob restrições, e ir para Dharamsala foi como entrar num mundo novo, onde a sua cultura – e a celebração do seu líder espiritual – estão presentes em todo o lado.
Pouco depois de chegar à cidade, Choegyal conta que teve um encontro que foi o "mais precioso e inesquecível" da sua vida.
Aí, no complexo onde agora reside, o Dalai Lama recebeu Choegyal e ouviu a sua história. Depois, nas palavras de Choegyal, o líder espiritual acariciou-lhe a cabeça com compaixão.
"Eu disse-lhe: 'O senhor precisa de viver muito; os seis milhões de tibetanos das regiões tibetanas aguardam o seu regresso'."
