Diretor português do maior festival de teatro do mundo diz que não colaboraria com um autarca do partido de Marine Le Pen em Avignon. Em entrevista à France Inter, Tiago Rodrigues defendeu que o festival deve continuar a ser um espaço de liberdade de criação e de expressão
A pergunta partiu de um caso recente em Castres, cidade do sul de França. A autarquia, governada pelo Reagrupamento Nacional, partido da extrema-direita francesa, retirou da programação municipal a peça Passaporte, do dramaturgo Alexis Michalik, sobre o percurso de um migrante eritreu.
O episódio foi levado a Tiago Rodrigues numa entrevista à rádio pública francesa France Inter. O encenador português, que desde 2022 dirige o Festival de Avignon, começou por corrigir uma interpretação que tem circulado em França: a de que abandonaria o festival se a Câmara de Avignon fosse conquistada pela extrema-direita. “Quero apenas corrigir, porque nunca disse que me recusaria a organizar o festival”, afirmou. O que disse, insistiu, foi diferente: “Não trabalharia com um eleito do Reagrupamento Nacional, presidente da Câmara de Avignon”.
O Reagrupamento Nacional é o partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella e tornou-se, nos últimos anos, uma das principais forças políticas francesas. Para Tiago Rodrigues, uma eventual vitória desse partido em Avignon não seria apenas uma mudança autárquica. Teria consequências diretas na relação entre a direção do festival e o poder político local. “A minha responsabilidade é defender a missão e os valores do Festival de Avignon”, afirmou o encenador. Esses valores, acrescentou, são “progressistas, republicanos e democráticos”. Por isso, defendeu que qualquer diretor do festival deve poder agir “em toda a liberdade” e recusar “trabalhar com a extrema-direita”.
A resposta surgiu a poucas semanas da 80.ª edição do Festival de Avignon, considerado o maior encontro de teatro do mundo. Criado em 1947 por Jean Vilar, o festival transforma todos os anos a cidade do sul de França numa capital temporária das artes performativas, com espetáculos, debates e encontros em salas, pátios, igrejas, escolas e outros espaços públicos.
Foi a partir dessa história que Tiago Rodrigues respondeu ao caso de Castres. Para o diretor português, Avignon deve estar disponível para acolher artistas que sejam alvo de cancelamentos ou pressões políticas. “Em Avignon podem vir, serão livres, terão toda a liberdade de tomar a palavra e de mostrar as suas bandeiras”, afirmou.
A palavra “bandeiras” já tinha surgido noutro momento da entrevista. O novo presidente da Câmara de Avignon, Olivier Galzi, criticou a presença de bandeiras palestinianas na edição do ano passado, em que o árabe foi a língua convidada. O autarca defendeu que a cultura deve unir e não dividir. Tiago Rodrigues respondeu que o Festival de Avignon continuará a ser “um lugar de liberdade de expressão” e “de liberdade de criação”.
Para o encenador, juntar públicos diferentes não significa evitar assuntos difíceis nem apagar divergências. “O Festival de Avignon é um lugar que junta, que une, mas não em torno de um pensamento único”, afirmou. O que deve reunir o público, defendeu, é também o desacordo, que descreveu como “um tesouro da democracia”.
Um país do teatro, com mais mulheres do que nunca
A ideia de Avignon como festival elitista também foi posta em causa na entrevista. Tiago Rodrigues respondeu com números e com o trabalho feito para lá das semanas do festival. A edição do ano passado teve 99% de ocupação — “restavam-nos alguns bilhetes numa gaveta que não conseguimos vender” — e, segundo o diretor português, um público “cada vez mais diverso”.
Tiago Rodrigues ligou esse crescimento ao serviço público da cultura em França, que descreveu como “absolutamente precioso” e “um farol para outros países do mundo”. Falou também do programa que tem levado jovens ao festival pela primeira vez. “Agora já são mais de dez mil jovens entre os 13 e os 19 anos que descobrem o festival”, afirmou. O objetivo, resumiu, é que possam dizer: “Isto também é para mim, pertenço a isto e isto pertence-me.”
Outra mudança está na programação. Pela primeira vez, há mais mulheres do que homens a dirigir espetáculos no Festival de Avignon: 27 em 47. O encenador português garantiu que o resultado aconteceu “sem esforço”, embora o festival siga desde 2023 um princípio de paridade. Depois deixou a escala histórica do atraso: “Ainda nos faltam pelo menos 80 Festivais de Avignon para criar o equilíbrio necessário.”
A edição deste ano abre no Pátio de Honra do Palácio dos Papas, o espaço mais simbólico do festival, com Maldoror, criação de Julien Gosselin a partir de Roberto Bolaño e Lautréamont. O espetáculo parte da fascinação pelo mal. Tiago Rodrigues aproveitou esse tema para explicar também uma ideia que atravessa o seu próprio teatro: “Tento propor um certo pessimismo na minha ficção para guardar o otimismo na vida.”
Avignon, acrescentou, cria uma relação pouco comum com o tempo. Há espectadores disponíveis para ver espetáculos de nove horas ou mais, algo improvável fora daquele contexto. “Quando se vem ao Festival de Avignon, viaja-se ao país do teatro”, afirmou. Era essa, recordou, a ideia de Jean Vilar: criar durante as férias “um país do teatro” onde o público pudesse entrar com outra disponibilidade.
No fim, Portugal apareceu na frase mais leve da entrevista. Tiago Rodrigues dizia que as pessoas viajam para Avignon como poderiam viajar para outro lugar e lembrou que também se pode viajar para Portugal “pela gastronomia, pelo clima, pelas praias, pela cultura”. “Sou português, portanto também proponho essa alternativa”, brincou.
Antigo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, Tiago Rodrigues tornou-se o primeiro português a dirigir o Festival de Avignon. O mandato foi prolongado até 2030.
Em França, além do trabalho como encenador e programador, tem assumido uma intervenção pública frequente sobre o papel da cultura, da criação artística e das instituições culturais num momento de crescimento eleitoral da extrema-direita.
