Confesso que vi a indicação de Tiago Antunes para Provedor de Justiça com naturalidade e até com algum entusiasmo. Trabalhei com ele, conheço o seu percurso e sei, por experiência direta, aquilo que muitos agora fingem ignorar: estamos a falar de um jurista sólido, conhecedor do Estado, da Constituição e do funcionamento da justiça. Um político que nunca se deixou levar nem condicionar por lógicas ou pressões partidárias. Desafio, aliás, quem quer que seja a apontar uma crítica séria às suas capacidades técnicas ou políticas com base em factos – não em perceções.
Será um exercício difícil ou mesmo impossível. Mas não me interpretem mal: este texto não é uma defesa de Tiago Antunes, é mesmo uma crítica àquilo que a política tem de pior.
O momento mais claro deu-se na audição parlamentar de Tiago Antunes, pouco depois da sua indicação para Provedor de Justiça. E chegou pela voz do insuspeito Rui Rocha, que criticou Tiago Antunes por, pasme-se, estar alegadamente associado à blogosfera pró-Sócrates. O ex-líder da Iniciativa Liberal que atualmente procura conforto nas visualizações do TikTok e que cresceu a medir a sua popularidade nos likes que ia somando precisamente no espaço digital, surgiu como o cavaleiro redentor que vinha devolver bom senso e a dignidade ao mundo inteiro.
Não apresentou uma prova, não trouxe um facto, não construiu um argumento verificável. Limitou-se a fazer uma associação entre Tiago Antunes e o “pior do socratismo”, dizendo, no essencial, que estava “convencido” de que o ex-secretário de Estado teria sido um escriba subordinado ao ex-primeiro-ministro socialista. Factos? Zero. Provas? A convicção de Rui Rocha. Uma imagem criada com base em perceções e não em factos.
E, no entanto, bastou. Em poucos dias, um nome discreto, que nunca moveu grandes paixões nem ódios, passou a carregar um peso político que ninguém conseguiu concretizar. E foi aqui que surgiu a segunda narrativa: a de que o próprio PS estaria desconfortável com o nome.
Ora, convém parar um segundo para perceber o absurdo. Durante dias, Tiago Antunes não era um nome que causasse grandes emoções porque não era próximo do PS e ninguém o apreciava ou deixava de apreciar particularmente. Mas, de repente, começou a ser apresentado como uma personalidade tão próxima do PS e dos seus líderes que estava contaminado por osmose. Encerrava o “pior do socratismo”. E isso gerava, escreveu-se, um desconforto enorme no PS.
Em que ficamos, afinal?
Ou Tiago Antunes é demasiado próximo do PS – ao ponto de encarnar os seus piores fantasmas – ou é alguém que o PS nem reconhece como seu. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo. Mas também não precisam de ser: o objetivo nunca foi esclarecer, foi criar ruído suficiente para fragilizar.
Quem conhece minimamente o funcionamento dos governos sabe, aliás, o quão absurda é esta lógica de culpas por associação aplicada a adjuntos e assessores. Talvez diga mais sobre quem a utiliza do que sobre quem é visado – nomeadamente sobre uma certa dificuldade em perceber como funciona o poder para lá da superfície e do dedo no ar.
Chegou-se, portanto, à votação com a narrativa montada para o chumbo e para a repartição de culpas que naturalmente se lhe seguiria. Tiago Antunes passou de jurista reputado a político desconhecido e daí para um socrático empedernido que manobrou sempre nas trevas do papão socialista.
Mas os factos, os teimosos e pesados factos, desfizeram a encenação: 104 votos a favor, muito para lá dos 58 deputados socialistas. Ou seja, não foi o PS que falhou. Foi quem ajudou a criar o ambiente – amplificado depois por fugas seletivas e leituras convenientes – para, no momento decisivo, poder recuar já com o terreno preparado. Primeiro insinuou-se. Depois, deixou-se correr. No fim, colheram-se os frutos.
E assim se rejeitou um nome qualificado. Não por aquilo que fez, mas por uma narrativa construída a partir do vazio.
Porque hoje já não é preciso demonstrar nada – basta sugerir, insinuar, deixar no ar. E, pelos vistos, isso chega para desqualificar alguém e desaproveitar um bom quadro. É a tal política do pê pequeno. Ou será a Pequenez do pê grande?