"Fui mordido por cães, quase morri nas minas de diamantes": a história de um contrabandista que se tornou lutador de artes marciais

CNN , Alima Williams
31 jan, 17:00
Themba Gorimbo, do Zimbábue, posa na balança durante a pesagem oficial do UFC 310 no UFC APEX em 6 de dezembro de 2024, em Las Vegas, Nevada. Jeff Bottari/Zuffa LLC/Zuffa LLC

Themba Gorimbo: de contrabandista de diamantes a lutador do UFC. "A minha vida é um filme"

Themba Gorimbo, lutador profissional de artes marciais mistas (MMA), anda a exibir sua intensa rotina de treino nas redes sociais e a lutar com lutadores de classe mundial para elevar as suas capacidades após uma derrota devastadora em novembro. A sua história da vida é um testemunho de perseverança e reinvenção após adversidades extremas.

Em 2023, aos 32 anos, Gorimbo fez história ao tornar-se o primeiro zimbabuano a vencer uma luta da Ultimate Fighting Championship (UFC) nos Estados Unidos. Mas nem o seu sucesso desportivo consegue apagar as memórias da sua infância dolorosa.

“Eu estava nos campos de diamantes no Zimbábue, a contrabandear diamantes, a vender diamantes, e a ser espancado pela polícia. Veja, eu tenho marcas de cães em todo o corpo. Fui mordido por cães, quase morri nas minas de diamantes", conta Gorimbo a Larry Madowo, da CNN, durante uma entrevista em Las Vegas.

Gorimbo lembra-se vividamente do dia em que os militares chegaram. Ele tinha 16 anos. Em outubro de 2008, mineiros que trabalhavam nas minas de diamantes de Marange, no leste do Zimbábue, foram alvo de um tiroteio.

As forças armadas do país lançaram uma operação brutal, apelidada de “Hakudzokwe” ou “sem retorno”, para assumir o controlo dos campos e banir os mineiros locais. “Foi difícil porque, meu, mesmo os tipos corajosos como eu, eu não queria estar lá porque uma pessoa corria, os soldados perseguiam-nos e, quando um soldado se cansava, outro soldado chegava".

"E quando essas pessoas ficavam cansadas, os helicópteros... sabes, meu, era assustador", relata.

De acordo com a organização Human Rights Watch, o ataque militar resultou na morte de mais de 200 pessoas ao longo de três semanas. O governo do Zimbábue negou que as suas tropas tenham cometido assassinatos em Marange.

Uma vida de dificuldades

A mãe de Gorimbo morreu quando ele tinha nove anos e o pai quando ele tinha 13, e ele dependia da bondade de parentes para sobreviver. Quando as dificuldades económicas atingiram o Zimbábue, uma das muitas que o país enfrentou desde 1992, até a sua extensa família passou por dificuldades. As secas sucessivas em 2002-2003 alimentaram a fome persistente e acabaram por levá-lo às minas.

"Houve uma grande seca no Zimbabué. Esse foi provavelmente o ano mais difícil de que me lembro, em que se comia uma refeição por dia. Então, qual era a opção seguinte disponível? Os diamantes. Deus abençoou-nos com os diamantes. Fica a 40 minutos da minha aldeia... podes dar uma volta, contrabandear esses diamantes, vendê-los e ganhar dinheiro, e pelo menos tens comida todos os dias. Então, foi por isso que fui para as minas de diamantes", diz.

O seu instinto de sobrevivência era tão forte que nem o ataque militar o desanimou. "Voltei 10 dias depois, com as minhas cicatrizes ainda não curadas", lembra Gorimbo numa mensagem de texto para a CNN.

Em busca de uma vida melhor na África do Sul

Alguns meses depois do ataque militar, quando as suas feridas sararam, Gorimbo deixou o Zimbábue em busca de uma vida melhor. “Fui para a África do Sul e fui deportado imediatamente. No mesmo dia, voltei... Quase fui morto lá pela segunda vez. Na primeira vez também, porque na primeira vez atravessámos o rio”, explica.

Quando questionado sobre o motivo pelo qual voltou após ser deportado, responde: “Os meus pais morreram quando eu era muito jovem... o que é que eu iria fazer no Zimbábue?”

Mas a vida na África do Sul trouxe novos desafios. Gorimbo ficou sem teto, às vezes dormindo numa igreja com outras pessoas que haviam entrado ilegalmente no país. Depois de fazer alguns trabalhos temporários, encontrou emprego como jardineiro, ganhando 80 rands — menos de quatro euros por dia. Parte desse dinheiro, diz, era enviado para a família no Zimbábue.

Themba Gorimbo (à esquerda) e Joe Cummins (à direita) enfrentam-se após serem pesados um dia antes de uma luta, a 12 de maio de 2016, no Carnival City, em Brakpan, África do Sul. Gianluigi Guercia/AFP via Getty Images

O amor pela luta torna-se uma carreira

Um filme sobre artes marciais mistas despertou a paixão de Gorimbo pela luta. Inspirado, decidiu experimentar o desporto, mas obter o treino adequado não era barato.

"Eu trabalhava como segurança e usava o meu dinheiro para pagar o ginásio e tentar pagar a treinadores para me darem treinos particulares", conta. Gorimbo diz que trabalhava em turnos de 17 horas num supermercado na África do Sul e não ganhava dinheiro suficiente para pagar aulas particulares, mas estava determinado em obter o treino de que precisava.

A determinação valeu a pena. Em 2010, tornou-se lutador amador de MMA, passando a profissional três anos depois.

"O mais importante é a mente. Acho que se a tua mente estiver preparada para tudo, podes preparar-te fisicamente, mas se a tua mente não estiver preparada, não está preparada. E eu sou um bom lutador. Acredito nisso. Não sou o melhor, mas faço com que a coisa funcione com o que tenho", afirma.

Da África do Sul para a UFC

No final de 2022, Gorimbo chegou aos Estados Unidos com pouco dinheiro, dormindo num sofá na academia MMA Masters, em Miami, na Flórida. Poucos meses depois, fez a sua estreia na UFC em fevereiro de 2023, lutando contra A.J. Fletcher, num combate que perdeu. Venceria o seu segundo combate contra Takashi Sato em maio de 2023.

Nesta imagem divulgada pela UFC, (da esquerda para a direita) AJ Fletcher e Themba Gorimbo enfrentam-se durante a pesagem do UFC Fight Night no UFC APEX em 17 de fevereiro de 2023, em Las Vegas, Nevada. Jeff Bottari/Zuffa LLC via Getty Images

Após a vitória, ele publicou uma captura de ecrã da sua conta bancária nas redes sociais, revelando que tinha menos de oito dólares. “Quando publiquei que tinha 7,49 dólares, eu já não tinha 7,49 dólares, porque o meu dinheiro entraria na segunda-feira — sabes, eu ia receber o meu salário. Fiquei feliz, mas publiquei isso como uma forma de dizer: ‘Sabem de uma coisa? Tu podes estar numa situação difícil, mas se mantiveres uma atitude positiva,podes tornar-te alguma coisa e podes subir’. E fiz isso apenas como uma forma de inspirar as pessoas”, explica.

O lutador que se tornou ator Dwayne “The Rock” Johnson ficou tão inspirado com a revelação que surpreendeu Gorimbo comprando-lhe uma casa em Miami. A publicação ressoou com Johnson que, depois de ser dispensado da Liga Canadiana de Futebol Americano na década de 1990, voltou para casa com apenas sete dólares no bolso, o que alimentou a sua motivação para ter sucesso no wrestling e no cinema. Os dois mantiveram-se próximos.

“Sou abençoado por o The Rock ter-me acolhido... ajudando-me e fazendo tudo o que faz por mim... E nos bastidores... este tipo apoia-me muito”, diz Gorimbo.

Objetivo: conquistar o campeonato da UFC

Das minas de diamantes do Zimbábue ao octógono da UFC em Las Vegas, a jornada de Gorimbo tem sido extraordinária. Até ao momento, ele tem quatro vitórias e três derrotas no campeonato da UFC.

"A minha vida é um filme. Acredito que foi pré-escrita por Deus; eu apenas sou o ator principal nela", diz ele a Madowo. E o seu papel ainda não acabou. "Quero ser campeão e acredito que vou ser campeão", declara, acrescentando que espera chegar lá "rezando, trabalhando duro, mantendo o foco, mantendo os pés no chão, concentrando-me no lado positivo, concentrando-me na minha família... [e] mantendo a mente aberta para aprender novas habilidades".

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