NOTA DO EDITOR: Esta história contém spoilers sobre o episódio final de The Summer I Turned Pretty.
Há um momento, já no final de The Summer I Turned Pretty, em que Conrad convida Belly para dançar. Em algum lugar de Paris, nas margens do Sena, sob a luz da lua cheia, ela agarra-lhe a mão e os dois juntam-se.
Se olharmos bem, vemos que é Belly quem conduz a dança. Seja acaso ou não, é um simbolismo poderoso, já que ela tem vindo a conduzir Conrad numa espécie de dança desajeitada há bastante tempo. Mas não tenho propriamente o contexto, porque este foi o primeiro e único episódio que vi.
Confesso: não sei nada sobre The Summer I Turned Pretty. Mas no dia da estreia do episódio final, fui praticamente forçado pelos meus colegas a assistir, porque, segundo eles, estava numa posição única para tentar decifrar este fenómeno da cultura pop. Os mesmos colegas ainda não tinham visto o episódio e, com medo de spoilers, recusaram-se a ajudar na minha pesquisa. Por isso, entrei neste comboio mesmo quando já estava a chegar à estação – às cegas, desarmado e assustado.
Mea culpa.
Primeiro, tive de ver a série, adaptada dos romances juvenis de Jenny Han; bestsellers por si só que encontraram na televisão uma audiência muito mais vasta. Graças ao resumo útil da Prime, posso dizer com confiança que a história é sobre um triângulo amoroso envolvendo Belly (bonita), Conrad (atraente, encantador, de lábios pálidos) e o irmão dele, Jeremiah (com nome do Antigo Testamento e cabelo à boy band dos anos 90). Para além disso, sinto-me completamente perdido. Uma série de flashbacks e recordações vêm em meu auxílio: posso relatar que houve um casamento cancelado, uma mãe que morreu e um pai ausente. Mas contexto vital é para quem não tem prazos a cumprir.
Belly está em Paris há algum tempo, exibindo orgulhosamente o facto de estar a violar o visto (uma imigrante ilegal a liderar uma popular série americana? Sacre bleu!). Porque é que Bell-y está em Par-ee não foi a primeira pergunta que me ocorreu. Essa foi: porque é que ela se chama Belly? É uma alcunha cruel dos tempos antes de se tornar bonita? Por usar frequentemente tops que deixam o umbigo à mostra? Ah, afinal o nome verdadeiro é Isabel. Está explicado.
Outras perguntas iniciais: porque é que Jeremiah cozinha para tanta gente? Para que é que Denise recebe capital inicial? Em que parte dos EUA vivem todas estas personagens? Nada está claro.
Seja como for, tudo isto são distrações. O que a série quer que vejamos é Conrad a chegar a Paris para surpreender Belly, presumivelmente para declarar o seu amor eterno.
A ansiedade dele transborda do ecrã. Será esta a fórmula secreta, o “isco narrativo”, que prendeu os espectadores durante tanto tempo? Suspeito que sim. Conrad não consegue evitar olhar para Belly com uma intensidade que oscila entre “quero casar contigo” e “quero devorar-te”, mas sem soar assustador. Está completamente perdido de amores, e nós estamos na trincheira com ele.
Se chegaste até aqui, provavelmente não precisas que eu faça mais resumo do episódio. Já és fã. E, mesmo assim, não consigo evitar. Há demasiada coisa boa aqui.
A certa altura, Conrad usa a expressão “tarefa sísifiana”, ao que Belly responde, a brincar, que ele soa como o “tu de 10 anos”. Só que ele utiliza o termo de forma completamente errada. A resposta dela deveria soar terna, mas acaba por ser certeira e quase cruel, porque nenhum miúdo de 10 anos devia estar tão familiarizado com o mito de Sísifo ou com a maldição do trabalho interminável.
Noutra cena, Conrad descreve Belly como uma “gata vadia” e insiste que é um elogio. Talvez as palavras não sejam o seu ponto forte. Ainda assim, continuo a apoiar-te, rapaz.
Está bem, paro mesmo agora.
Assisti aos 79 minutos – quase como um filme – até ao final satisfatoriamente previsível. Não odiei a série. Mais do que isso, respeitei-a pelo trabalho que está a fazer.
A produção da Prime Video, que durou três temporadas, transformou o trio central – Lola Tung, Christopher Briney e Gavin Casalegno – em estrelas e desencadeou debates acalorados.
Era #TeamConrad ou #TeamJeremiah? Não era uma pergunta para se levar de ânimo leve – nem limitada ao público-alvo que a Amazon provavelmente esperava quando tudo começou em 2022.
O Instagram e o TikTok encheram-se de respostas vindas de todo o lado. McDonald’s, Pizza Hut, Delta Airlines e até o Empire State Building declararam a sua posição. Malala Yousafzai comentou, e Leonardo DiCaprio – a quem Briney tem sido ironicamente comparado – era #TeamConrad, segundo o colega de elenco. Até jogadores da NFL entraram na onda. (Travis Kelce, dos Kansas City Chiefs, fingiu um “o quê?” espantado, mas eu não caio nessa – as músicas da noiva dele apareceram duas vezes no episódio final, não há forma de não ter visto.)
Para registo, #TeamConrad prevaleceu com uns impressionantes 13,5 mil milhões de visualizações no TikTok antes do final da série.
Deve ter sido o mesmo que escolher entre Dawson e Pacey em Dawson’s Creek ou entre Big e Aidan em O Sexo e a Cidade, quando estrearam no final dos anos 90 e início dos 2000. Só que o triângulo amoroso de O Sexo e a Cidade nunca chegou a este clímax, e no início dos anos 2000 as empresas americanas tinham menos ferramentas para se infiltrar nas nossas vidas. (Quando chegou a sequela And Just Like That, a história já era outra.)
Mas, para além da avalanche de marcas, The Summer I Turned Pretty foi, acima de tudo, um sucesso de boca em boca. Nada prova isso melhor do que as festas para assistir ao episódio que surgiram em vários continentes – de Sydney a Londres, até Nova Iorque.
Estas festas não são novidade – lembro-me de The Sopranos – mas 2025 é um panorama mediático diferente. A Prime foi inteligente ao lançar os episódios semanalmente, transformando-os num verdadeiro evento televisivo – mais um exemplo da inversão da estratégia do “lançar tudo e ver em maratona”. Os espectadores ansiavam por aquele momento, semana após semana.
E ansiavam também pelo mundo que a série apresentava. Mesmo com a minha fraca exposição a The Summer I Turned Pretty, percebi a sua atmosfera leve, quase irreal, que tinha um apelo óbvio. Era um espaço seguro: fortemente apolítico, com riscos relativamente baixos, carregado de melodrama, totalmente desligado dos problemas do presente. Suspeito que, se uma personagem pegasse num jornal, estaria cheio de lorem ipsum.
Emily in Paris é outro exemplo desse tom e dessa construção de mundo sem grandes consequências, bem como um exemplo de “televisão ambiente” – séries fáceis de acompanhar sem a nossa atenção total. Ambas são vistas como confortáveis, seguindo a linha de Gilmore Girls e One Tree Hill (estas últimas, aliás, em revivalismo entre os millennials nostálgicos). Além disso, a popularidade deste tipo de narrativa relativamente casto oferece um contraponto às séries adolescentes mais ousadas como Euphoria ou Sex Education.
Ajudando à ilusão de The Summer I Turned Pretty e Emily in Paris está o privilégio das personagens, ecoando produções como 90210 e The O.C. noutras gerações. A riqueza é um escudo incrível contra a realidade e, mesmo num mundo cada vez mais desigual, espectadores de todas as demografias aderiram a histórias contadas a partir desse ponto de vista.
Isto não se limita a séries juvenis. Há histórias de privilégio por todo o lado: Succession, The White Lotus, Big Little Lies, Expats, The Perfect Couple e outras que não têm Nicole Kidman no elenco. Algumas, como The White Lotus, arriscam uma crítica social subtil, deixando algum grão de areia na engrenagem. Muitas não. Tornar personagens – e séries – mais complexas, com consciência de si mesmas, quebraria o feitiço. Para os espectadores, deixar a realidade entrar no enquadramento roubaria a fuga que procuram.
E é de escapismo que tantos precisam. Claro que todos tiveram o seu “felizes para sempre” em The Summer I Turned Pretty (ou pelo menos acho que sim). No rescaldo do final, saíram artigos clickbait sobre quem ficou com quem, seguidos de crónicas desajeitadas como esta. Com o tempo, a base de fãs leal poderia ter derivado lentamente para novas séries e novas obsessões. Só que, na antestreia do final em Paris, enquanto eu estava mergulhado no mundo de Cousins Beach a escrever este artigo, a Amazon anunciou que deu luz verde a um filme-sequela.
Achei que estava fora, mas puxaram-me de volta.
Ainda não há data de estreia, e não faço ideia que tensão dramática ainda pode ser explorada nesta história, mas provavelmente devemos todos preparar-nos para mais suspiros e anseios. Mais importante: tenho algum tempo para me pôr em dia.